Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

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quinta-feira, 30 de maio de 2013

"Lluvia" (de Juan Gelman)





hoje chove muito, muito
e parece que estão lavando o mundo
meu vizinho do lado olha a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta a uma mulher que vive com ele
e cozinha e lava a roupa e faz amor com ele
e até parece sua sombra
meu vizinho nunca disse palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta se entra em muitos lugares
ao trabalho, ao quartel, ao cárcere, a todos os edifícios do mundo
mas não ao mundo
nem à mulher
nem à alma
é dizer
a esse caixão ou nave ou chuva que assim chamamos
como hoje
que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde os dois se encontram
e quando
e como
mas a alma que pode explicar
por isso meu vizinho tem tormentas na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol por que nascem
e morrem na mesma noite em que amou
e deixam cartas que o pensamento nunca escreverá
como o silêncio que há entre duas rosas
ou como eu
que escrevo versos para voltar ao meu vizinho que olha a chuva
à chuva
ao meu coração desterrado

Poema de Juan Gelman, provavelmente o maior nome vivo da poesia argentina.
Traduzido por Raul Albuquerque.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"Recuerdo que el amor..." (de Eduardo Lizalde)



Recordo que o amor era uma branda fúria
não expressável em palavras.
E assim mesmo recordo
que o amor era uma fera lentíssima:
mordia-me com seus caninos de açúcar
e adoçava o toco ao desprender o braço.
Isso sim lembro-o.
Rei das feras,
matilha de flores carnívoras, buquê de tigres
era o amor, segundo recordo.
Lembro bem que os cachorros
se assustavam de ver-me,
que se eriçavam de amor todas as cadelas
só de observar a aura, cheirar o brilho do meu amor
- como se o estivesse vendo -.

Recordo-o quase de memória:
os móveis de madeira
floresciam ao toque de minha mão,
me seguiam como mulherengos
grandes e magros rios,
e as árvores - ainda que infrutíferas -
davam por dentro ressentidos frutos amargos.
Recordo muito bem tudo isso, amada,
agora que as abelhas
caem ao meu redor
com o bucho cheio de excremento.

Poema de Eduardo Lizalde, grande poeta mexicano da atualidade.
Traduzido por Raul Albuquerque.

"Bellísima" (de Eduardo Lizalde)




Ouça-me você, belíssima,
não suporto seu amor.
Olha-me, observa de que modo
seu amor me machuca e destrói.
Se fosse você um pouco menos bela,
se tivesse um defeito em algum lugar,
um dedo mutilado e evidente,
alguma coisa ríspida na voz,
uma pequena cicatriz junto a esses lábios

de fruta em movimento,
uma mancha na alma,
uma má pincelada imperceptível 
no sorriso...
eu poderia tolerar-te.

Mas tua cruel beleza é implacável,
belíssima;
não há ramo de repouso
em tua ferina luz
de estrela em permanente fuga
e desespera compreender
que ainda a mutilação te faria mais bela,
como a certas estátuas.

Poema de Eduardo Lizalde, grande poeta mexicano da atualidade.
Traduzido por Raul Albuquerque.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O "crepúsculo" de Pablo Neruda


Ninguém nasce Pablo Neruda - nem o próprio Pablo Neruda nasceu Pablo Neruda. 

Explico: o nome "real" de Neruda é Neftalí Ricardo Reyes Basoalto (o pseudônimo e seu motivo nunca foram bem explicados pelo escritor)

A grandiosidade alcançada pelo poeta chileno no auge de sua produção é resultado, não de um milagre, mas de um processo. Quem lê "Residência na terra" há de entender que antes do meio-dia sempre há uma manhã crepuscular, assim sendo, Pablo Neruda inicia-se na literatura com um livro profético: "Crepusculário".

Crepusculario. Pablo Neruda

O livro reúne os poemas escritos por Neruda entre os dezesseis e os dezessete anos, quando, segundo o próprio, escrevia entre dois e cinco poemas diariamente. Já no "Início" (primeiro poema do livro), o precoce gênio avisa:

"Fecho, fecho os lábios, mas em rosas frementes
se desata minha voz, como água na fonte.

Que não são pomposas, que não são fragrantes,
são as primeiras rosas - irmão caminhante -
de meu desconsolado jardim adolescente."

A primeira publicação consta de 1923, quando o iniciante Neruda ainda publicava avulsamente em jornais e revistas, e é dividida em "capítulos". 
O primeiro é Helios. Nele, tomam destaque os questionamentos sobre Deus (observado com ênfase em "Pantheos"), sobre o tempo (como em "Velho cego, choravas") e sobre o amor (em "Novo soneto para Helena"), mas em todos vê-se uma forte influência parnasiana e surrealista:

"Se quiseres não nos diga de que ramo somos,
não nos diga quando, nem nos diga como,
mas nos diga para onde nos levará a morte..."
(trecho de Pantheos)

"Porque se tu conheces o caminho que leva 
em dois ou três minutos para a vida nova,
velho cego, o que esperas, o que podes esperar?"
(trecho de Viejo ciego, llorabas)

"E será tarde, porque se foi minha adolescência,
tarde porque as flores uma vez só dão essência
e porque ainda que me chames estarei tão longe..."
(trecho de Novo soneto para Helena)


O segundo é Fareweel, y los sollozos. Nele, o amor toma destaque, mas o aspecto parnasiano perde força, dando espaço para uma forte carga surrealista, na temática, e modernista, na estética. Farewell, que parece ser o poema central (e titular) do capítulo, destaca-se como uma carta - interrompida por parênteses literais.

"(Amo o amor dos marinheiros
que beijam e se vão.

Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e se vão.

Uma noite se encostam na morte
no leito do mar.

(4)

Amo o amor que se reparte
em beijos, leito e pão.

Amor que pode ser eterno
e pode ser fugaz.

Amor que quer libertar-se 
para voltar a amar.

Amor divinizado que se achega.
Amor divinizado que se vai.)"
(Trecho de Farewell)

"Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como ninguém soube jamais!
Morrer e ainda 
amar-te mais.
E ainda 
amar-te mais
                       e mais."
(Trecho de Amor)

" Amor - chegado que tenhas
  a minha fonte distante,
  torce-me as vertentes,
  crispa-me as entranhas.
E assim uma tarde - amor de mão crueis -,
ajoelhado, te agradecerei."
(Trecho de Grita)

O terceiro é Los Crepusculos de Maruri. Segundo o próprio Neruda, os poemas desse capítulo foram escritos por ele enquanto admirava os poentes. Eles focam nos devaneios advindos dessa contemplação e são tomados pelo experimentalismo modernista.

"A tarde sobre os telhados
cai
e cai...
Quem lhe disse que viesse
asas de ave?

E este silêncio que enche
   tudo,
de que país de astros
   veio só?
E por que esta bruma
   - pluma trêmula -
beijo de chuva
   - sensitiva -

caiu em silêncio - e para sempre -
   sobre minha vida?"
(Poema La tarde sobre los tejados)

"Minha alma é um carrossel vazio no crepúsculo..."
(Poema Mi alma)

"Minhas alegrias nunca saberás, maninha,
e esta é a minha dor, não as posso te dar:
vieram como pássaros a pousar em minha vida,
uma palavra dura as faria voar."
(Trecho de Hoy, que es el cumpleaños de mi hermana)


O quarto capítulo é Ventana al camino. Nele, o surrealismo ganha força total e as metáforas - quase herméticas - tomam os poemas.

"Entretanto é tão vasto céu
e roda o tempo, entretanto.
Estender-se e deixar-se levar
por este vento azul e amargo!..."
(Trecho de Playa del Sur)

"Ela - a que me amava - morreu na Primavera.
Recordo ainda seus olhos de pomba em desconsolo.

Ela - a que me amava - fechou os olhos. Tarde.
Tarde de campo, azul. Tardes de asas e voos."
(Trecho de Poema en diez versos)

O quinto capítulo é Pelleas e Melisanda. Não por acaso, referência à opera de Claude Debussy. Esse capítulo põe-se como releitura da obra, um diálogo entre os personagens.

"Melisanda
Em teus braços, enredam-se as estrelas mais altas.
Tenho medo. Perdoa-me por não ter chegado antes.

Pelleas
Um sorriso teu apaga todo um passado:
guardem teus lábios doces o que já está distante.

Melisanda
Em um beijo, saberás tudo o que calei."
(Trecho de Melisanda e Pelleas)


O sexto e último capítulo é Final.

"Vieram palavras, e meu coração,
incontível como um amanhecer,
rompeu-se me palavras e se apegou ao voo,
e em suas fugas heroicas levam-no e arrastam-no,
abandonado e louco, e esquecido debaixo delas

como um pássaro morto debaixo de suas asas."
(Trecho final de Final)

VIVA NERUDA!

(todos trechos destacados foram traduzidos por Raul Albuquerque)

domingo, 17 de março de 2013

"Artes Poéticas (II)" de Pablo Neruda


Não descobri nada eu,
já tudo estava descoberto
quando passei por este mundo.
Se regresso a estes lados
peço aos descobridores
que me guardem alguma coisa,
um vulcão que não tenha nome,
um madrigal desconhecido,
a fonte de um rio secreto.

Fui sempre tão aventureiro
que nunca tive uma aventura
e as coisas que descobri
estavam dentro de mim mesmo,
de tal modo que defraudei
a Juan, a Pedro e a Maria,
porque por mais que tenha me esforçado
não pude sair de minha casa.

Contemplei com inveja intensa
a inseminação incessante,
o ciclo dos satélites,
o acréscimo de esqueletos,
e na pintura vi passar
tantas maneiras fascinantes
que apenas me pus na moda
já aquela moda não existia.

Poema "Artes Poéticas (II)" de Pablo Neruda
Escrito em Isla Negra, e publicado no livro "Fin del mundo", em 1969.
Traduzido por Raul Albuquerque

quinta-feira, 14 de março de 2013

14 de Março - Dia da Poesia



Hoje é o dia da Poesia! - e eu não estou a fim de chover no molhado... Já falei muito sobre o assunto no post do dia do Poeta. Em todo caso, as datas equivalem-se, pois poesia e poeta coexistem.



São novos tempos e a - pobre? - poesia vem perdendo espaço. Há mais de cinquenta anos, um livro de poemas não entra na lista de mais vendidos. Mas é irônico perceber que nestes mesmos tempos modernos é que ela é mais necessária, pois a catarse é mais necessária em tempos de cárcere. Em tempos de total conexão, desconectar-se é necessário.


Para fechar o curto post, um poema eterno do Bandeira: "Desencanto".
Num processo metapoético, o poeta pernambucano tenta explicar seu processo produtivo e conclui sem pudor...


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

"Les Misérables": letra e melodia


 

O filme que tanto prometia acabou por levar apenas três Oscar® - sendo um deles individual. O filme prometia pelo simples fato de ser baseado num musical de - ninguém mais, ninguém menos que - Schönberg, que é baseado num dos melhores romances de todos os tempos: "Os miseráveis" do francês Victor-Marie Hugo, ou só Victor Hugo.


A obra é encantadora, belíssima, envolvente e muito bem construída; não perde a carga psicológica do romance francês nem falha nos princípios técnicos; tem um acompanhamento instrumental invejável às músicas e possui bons cortes de cena.

Mas basicamente três pontos separam-na da perfeição:


1 - Não há diálogos normais.
Isso mesmo. As falas são - em sua maioria esmagadora - cantadas, e tais falas nem sempre encaixam na melodia, o que cria um desconforto no espectador. Perderam-se ótimas falas tentando cantá-las. Se houvesse sido mantido o script comum dos musicais (falas e músicas), o longa ganharia mais leveza e - ironicamente - ritmo.


2 - A atuação mediana do elenco masculino
A Anne Hathaway dá um show - e sua interpretação de "I dreamed a dream" é tocante -, a Amanda Seyfried também encanta com seus agudos limpos; mas o Hugh Jackman e o Russell Crowe - talvez pelo excesso de falas cantadas e falta de músicas de verdade - acertam poucas vezes durante todo o filme. Dentre os homens solistas, o Eddie Redmayne é um destaque pela qualidade vocal.


3 - O longa é muito longo - e cansativo.
O filme dura quase três horas - o que não é problema para um musical, mas o fato de a música nunca parar cria no espectador um sentimento de "saco cheio", de modo que às duas horas de filme o desejo de sair da sala vai aumentando... e alguns não resistem, eu resisti.


O final do filme é - no mínimo - estranho: uma cena com todos os mortos - em batalha ou não -, cantando alegremente sobre a revolução que nunca morre...
A trilha sonora é incrível, maquiagem e figurino também. Mas Tom Hooper deixou a excelência escapar por detalhes... que pena!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

"Canção" (de Allen Ginsberg)


Allen Ginsberg

Irwen Allen Ginsberg é um dos maiores nomes da poesia da Geração Beat e grande nome da contracultura estadunidense. A vida conturbada principalmente pela instabilidade psicológica de sua mãe - que tinha surtos de paranoia e ataques epiléticos frequentemente - marcou fortemente seu estilo e sua abordagem de temas de grande repercussão. Seu poema mais celebrado - e polêmico - é "Uivo" (publicado em 1955), mas o roubo de hoje será "Canção". O poema é simples, mas em si guarda o desconhecido flertando com o óbvio.


O peso do mundo
         é o amor.
Sob o fardo
       da solidão,
sob o fardo
      da insatisfação

       o peso
o peso que carregamos
        é o amor.

Quem poderia negá-lo?
          Em sonhos
nos toca
      o corpo,
em pensamentos
        constrói
um milagre,
         na imaginação
aflige-se
         até tornar-se
humano —

sai para fora do coração
         ardendo de pureza —

pois o fardo da vida
          é o amor,

mas nós carregamos o peso
           cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
          finalmente
temos que descansar nos braços
           do amor.

Nenhum descanso
        sem amor,
nenhum sono
        sem sonhos
de amor —
           quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
           ou por máquinas,
o último desejo
          é o amor
— não pode ser amargo
         não pode ser negado
não pode ser contido
           quando negado:

o peso é demasiado

          — deve dar-se
sem nada de volta
         assim como o pensamento
é dado
         na solidão
em toda a excelência
         do seu excesso.

Os corpos quentes
          brilham juntos
na escuridão,
          a mão se move
para o centro
        da carne,
a pele treme
          na felicidade
e a alma sobe
         feliz até o olho —

sim, sim,
           é isso que
eu queria,
          eu sempre quis,
eu sempre quis
         voltar
ao corpo
         em que nasci.

Poema "Canção" de Allen Ginsberg.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Respingos de Genialidade #35



"O problema estava em saber se é a doença que engendra o crime ou se o próprio crime, por sua natureza, é que é sempre acompanhado de um certo gênero de doença, mas isso era uma questão que ele não se sentia capaz de resolver."

Fiódor Dostoiévski, em "Crime e Castigo"

sábado, 2 de fevereiro de 2013

"Exilios" (de Pablo Neruda)


Uns por haver rechaçado
o que não amavam de seu amor,
porque não aceitaram mudar 
de tempo, mudaram de terra:

suas razões eram suas lágrimas.

E outros mudaram e venceram
seguindo com sua história.

E também tinham razão.

A verdade é que não há verdade.

Mas eu em meu canto cantando
vou, e me contam os caminhos
todos quantos viram passar
neste século de homens sem pátria.
E o poeta segue cantando
tantas vitórias e dores
como se este pão turbulento
que comemos, os desta era,
talvez foi amassado com terra
debaixo de pés ensanguentados,
talvez foi amassado com sangue
o triste pão da vitória.

Poema "Exilios".
Escrito por Pablo Neruda, em Isla Negra, em 1969.
Publicado no livro "Fin del mundo", em 1969.
Traduzido por Raul Albuquerque

Crítica do livro 'Leite Derramado"


"Jó Joaquim, genial, operava o passado - plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?"
O trecho acima do conto "Desenredo" - do grande Guimarães Rosa - veio me à cabeça logo que acabei a leitura do "Leite Derramado", de Chico Buarque de Hollanda. Explicarei.

Chico já ganhou seu prestígio como compositor - que é inegável -, mas no campo da produção literária ainda enfrenta resistências. Sua obra tem aceitação dual: uns amam, outros queimariam na fogueira todos os exemplares. Bem... Eu devo confessar que o Chico-compositor é mais genial que o Chico-romancista, ele acostumou-nos mal, mas representa o que de melhor se produz hoje no Brasil.

O livro - publicado em 2009 - foi bem aceito pela crítica - não em unanimidade, claro. Ganhou prêmios de peso: Livro do Ano (oferecido pelo Jabuti) em 2010; Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2010; e a tradução para o espanhol - "Leche derramada" - ganhou recentemente o Prêmio de Narrativa José Maria Arguedas. 

Enfim... vamos à crítica.

O livro é uma tentativa de retratar as memórias do velho Eulálio d'Assumpção - sim, esse é o nome. Um monólogo que toma todo o livro a fim de convencer-nos que seu passado glorioso - que transpõe o Atlântico e atravessa o império - reverbera a ponto de trazer  tal glória ao seu estado atual: um velho pobre, esclerosado, esquecido num leito de hospital, esperando a morte chegar.

E onde é que o "passado plástico" de Jó Joaquim entra nessa história?

Na mente cansada e desordenada do pobre - mas orgulhoso - Eulálio, passados misturam-se e a ordem dos fatos não possui sentido. Ao longo do livro, os fatos retificam-se frequentemente - nem sempre com aviso.
"Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. [...] a fazenda na raiz da serra, acho que desapropriaram em 1947 para passar a rodovia."
Lembranças da infância e da adolescência misturam-se e repetem-se. Com humor sempre presente advindo do absurdo das histórias, dos preconceitos do protagonista - que não são poucos -, da repetição dos fatos, das releituras. O passado de Eulálio torna-se plástico, pois nem ele próprio sabe bem como contá-lo e defini-lo.
"[...] e era natural que me causasse espécie entrar comigo no elevador um grandalhão com cara de nortista, nariz chato, pele grossa. Indiquei-lhe o elevador de serviço, mas ele me deu as costas e apertou o botão do meu oitavo andar."
Os detalhes de um passado que mistura esplendor e contos da vida privada são expostos sem vergonha. As garçoniéres de Paris, os ímpetos incontíveis, tudo é descrito com detalhes horrorizantes ou cômicos.
"Matilde repetiu, coragem, Eulálio, e já agora, em sua voz ligeiramente rouca, parecia que meu nome Eulálio tinha uma textura. Falou meu nome como se o arranhasse um pouco, e quando num volteio se retirou, tive como temia novo arrebatamento obsceno. [...] Se desejo era aquilo, posso dizer que antes de Matilde eu era casto."
A morte de Matilde é o ponto que mais possui versões. Por ser um episódio doloroso, talvez. Ela é apresentada como tuberculosa, esquizofrênica, mãe irresponsável, esposa infiel e mulher de pouca saúde. Cabe ao leitor escolher a melhor história ou ficar no maravilhoso ponto da dúvida.

A linguagem adaptada a um homem que chegou ao século XXI sem sair do século XIX foi bem colocada. A pontuação é utilizada de modo peculiar. A(s) história(s) é(são) bem contada(s).

O livro merece, sim, os prêmios e elogios que recebeu. Num tempo de literatura de mercado, precisamos valorizar os que ainda se põem a descrever a vacuidade das nossas vidas. 
O livro termina com a descrição da morte de um Assumpção - "que já não dizia nada com nada" - numa espécie de sugestão de "não há nada novo debaixo do sol". 
Os eulálios continuariam existindo - inclusive literalmente, pois os netos, bisnetos, trinetos tiveram o mesmo nome do orgulhoso Eulálio.

Viva Chico! - Eu indico!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Respingos de Genialidade #34



"É esquisito ter lembranças de coisas que ainda não aconteceram, acabo de lembrar que Matilde vai sumir para sempre."
Chico Buarque, em "Leite Derramado.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

"Life of Pi" - polêmica e sucesso


O Oscar está chegando... e os cinemas enchem de ótimos (ou ditos ótimos) filmes. Do meio do turbilhão de lançamentos emergiu o filme "Life of Pi" por ser dirigido pelo grande Ang Lee e por seu primor técnico e estético.

Para começar, conversemos sobre o livro que serve de base para o filme. O livro "Life of Pi" é do escritor canadense Yann Martel. Isso já nos leva a uma polêmica pouco divulgada. O livro foi acusado de plagiar "Max e os felinos" - do escritor brasileiro Moacir Scliar. 
Explicando: O livro do Scliar foi lançado em 1981 e retrata um homem - Max - que sai da Alemanha, mas acaba por ficar à deriva com uma onça no meio do Oceano Atlântico. O que nada tem a ver com o pobre Pi que fica à deriva com um tigre no meio do Pacífico retratado no livro do Martel, lançado em 2001. (posso rir?)
Enfim... para completar a bagunça, o livro do canadense foi premiado com o "Man Booker Prize for Fiction" de 2002, o que deu visibilidade ao livro e despertou a questão do plágio. Um crítico percebeu os absurdos pontos comuns entre os livros e alertou Scliar - que decidiu não abrir processo contra o canadense. No fim das contas, Yann Martel admitiu "influência" e acrescentou agradecimento no prefácio do livro.

O livro foi adaptado para o cinema e o filme ficou nas mãos de Ang Lee. Bem... o filme recebeu 11 indicações ao Oscar - incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado.


A história - aparentemente fantasiosa demais - revela-se um cenário para discussões mais profundas acerca do homem - nos campos da religião e da psicologia humana.
Pi é um jovem indiano que apresenta-se como um hindu católico muçulmano - que se torna um adulto professor de kabbalah. Fato que traz à tona uma visão ecumenista das relações transcendentais. E é uma visão encantadora que nos leva pelo braço em tempos em que "tudo o que é sólido desfaz-se no ar".
O menino aprende de forma brutal que os animais não possuem alma - o que marca indiscutivelmente sua relação futura com Richard Parker (o nome do tigre que divide espaço com ele no bote à deriva). O menino conhece o amor - mas deixa-o na Índia. E viaja com a família para "o sonho americano". A viagem dá errado: turbulência, naufrágio. Só salvam-se Pi e Richard Parker num bote.
O bote é o ponto-chave. Nele Pi descobre coisas e descobre-se. A inicial fé em tudo desfaz-se e refaz-se com facilidade espantosa, mas, por fim, a ideia de "Deus" reforça-se de modo irreversível na mente de Pi.



Do ponto de vista técnico, o filme é impecável. Com cenas que - em breve - se tornarão antológicas. O filme é belo e cativante. A trilha sonora também é digna de muitos elogios. Enfim, se não viu, vá ver.

Mas... tradutores fazem uso de entorpecentes para trabalhar?
Pergunto porque o título do livro é "Life of Pi". 
O título do filme é "Life of Pi". 
Em Portugal, foi traduzido - como esperado e lógico - para "A vida de Pi". 
Por que diabos os brasileiros deram o título "As aventuras de Pi"?

-- Até a próxima!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

"Metamorfosis" (de Pablo Neruda)


Recebi um pontapé
do tempo e desordenou-se
a triste gaveta da vida.
A hora se atravessou
como doze perdizes pardas
em um caminho poeirento
e o que antes foi uma
passou a ser oito e quarenta
e o mês de abril retrocedeu
até transformar-se em novembro.

Os papeis se me perderam,
não se encontravam os recibos,
encheram-se as lixeiras
com nomes de contribuintes,
com instruções de advogados
e números de gostosas.

Foi uma catástrofe silenciosa.

Começou tudo num domingo
que em vez de sentir-se dourado
se arrependeu da alegria
e se portou tão lentamente
como uma tartaruga na praia
não chegou nunca à segunda-feira.

Ao despertar-me encontrei-me
mais descabelado que nunca,
sem precedentes, esquecido
em uma semana qualquer,
como uma maleta em um trem
que viajara a nenhuma parte
sem condutor nem passageiros.

Não era sonho porque se ouviu
um mugido longo de vaca
e logo trouxeram leite
com calor ainda das úberes,
além mais me rodeava 
um espetáculo celeste:
a travessura dos pássaros
entre as folhas e a névoa.

Mas o sério desse assunto
é que não continuava o tempo.
Tudo seguia sendo sábado
até que a sexta-feira aparecia.

Aonde vou? Aonde vamos?
A quem poderia consultar?

Os monumentos caminhavam
para trás, empurrando o dia
como guardas inexoráveis.
E desmoronava para ontem
todo o horário do relógio.

Não posso mostrar à gente
minha coleção de calafrios:
senti-me só em uma casa
perfurada por goteiras
de um aguaceiro definitivo
e para não perder o tempo,
que era o único perdido,
rompi as últimas lembranças,
despedi-me de minha farmácia,
joguei ao fogo os talões,
as cartas de amor, os chapéus,
e como quem se atira ao mar
eu me atirei contra o espelho.

Mas já não me pude ver.
Sentia que se me perdia
o coração precipitado
e meus braços diminuíram,
desmoronou-se minha altura,
a toda velocidade
se me borravam os anos,
voltaram os meus cabelos,
meus dentes apareceram.

Em um fulgor passei minha infância,
segui contra o tempo na pista
até que não vi de mim mesmo,
de meu retrato no espelho
apenas uma cabeça de mosca,
um microscópico óvulo
voltando outra vez ao ovário.

Poema "Metamorfosis" de Pablo Neruda.
Escrito em Isla Negra, em 1969. Publicado em "Fin de Mundo" em 1969.
Traduzido por Raul Cézar de Albuquerque.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Respingos de Genialidade #33


"Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, no bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente sobre a terra. 
[...] Uma mão fria aperta-me a garganta e não me deixa respirar a vida."

Fernando Pessoa, no trecho 141 do "Livro do Desassossego".

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"Funeral Blues" (de W. H. Auden)

W. H. Auden

Wystan Hugh Auden é um dos maiores nomes da poesia inglesa no século XX. Começou a escrever poemas ainda na escola, desde então destacou-se com um estilo que se põe entre o sério e o brincalhão. Iniciou-se na escrita com poemas ferozes de forte carga anárquica e com precoce comprometimento político. Mas, aos poucos, adentrou numa poesia moral de visão cristã. Nasceu na Inglaterra, mudou-se para os Estados Unidos e morreu na Áustria. O poema que se segue é de sua fase intermediária e possui um tom poético de perda que assusta e enleia o leitor.


Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Não deixem o cão ladrar aos ossos suculentos,
Silenciem os pianos e abafem o tambor
Tragam o caixão, deixem passar a dor. 


Que os aviões voem sobre nós lamentando,
Escrevinhando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham laços de crepe nos pescoços das pombas da região,
Que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão. 
  
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste,
A minha semana de trabalho, o meu descanso de domingo,
A minha tarde, a minha meia-noite, a minha conversa, a minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: “eu estava errado”. 

Agora as estrelas não são necessárias: apaguem-nas todas;
Empacotem a lua e desmontem o sol;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Pois agora nada mais de bom nos resta.


*Tradução aproximada de autor desconhecido. (poema original e outras traduções)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Respingos de Genialidade #32


"As guerras imaginárias, ao entardecer, tornaram-se por fim tão enfadonhas quanto a rotina da escola pela manhã, porque eu desejava participar de aventuras reais. Mas aventuras reais, pensei, não acontecem para os que ficam em casa; devem ser procuradas."
James Joyce, no conto "Um encontro", no livro "Dublinenses"

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Respingos de Genialidade #31


"Surpreendia-me que nem eu nem o dia aparentássemos tristeza, e fiquei realmente aborrecido ao descobrir em mim uma sensação de alívio, como se a sua morte me houvesse libertado de alguma forma."

James Joyce, no conto "As irmãs", no livro "Dublinenses".

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Os outros nomes de Fernando Pessoa


Fernando Pessoa é - nunca é demais relembrar - o maior nome do poesia modernista portuguesa. Destaca-se não só pelo seu lirismo absurdo e pelo jogo literário que construiu, mas por que ninguém absorveu como ele o espírito modernista: O que não tem caráter, mas que precisa ser caracterizado.
Pessoa incorporou a dúvida do início do século: "O academicismo morreu, mas... e agora?" e decidiu reunir em si próprio tudo do passado que poderia levar ao futuro da poesia. Para isso, deixou sua personalidade de lado e deu lugar a personagens - ou personas como fez a ironia da História ao colocar como sobrenome do poeta - "Pessoa" - o nome dado às máscaras do teatro grego.

O poeta tinha uma relação muito mística com a palavra - assim como os grandes Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Isso, juntamente com toda a sua genialidade, resultou na construção de mais 70 identidades falsas entre heterônimos, semi-heterônimos e esboços de heterônimos. Tornou-se um criador de escritores.
Seu processo de construção de poetas, porém, destaca-se pelo refinamento, pois cada heterônimo possuía nome, biografia, profissão, ideologia, estilo próprio, "escola" literária marcante e mapa astral específicos.

Nesse infinidade de escritores criados pelo próprio Pessoa, destacam-se três heterônimos pela complexidade e pela perfeição da construção identitária, são eles:

Alberto, Ricardo e Álvaro imaginados pelo pintor Almada Negreiros

1. Alberto Caeiro:
Segundo Pessoa, o mestre de todos os outros heterônimos. Caracteriza-se como um poeta árcade que fugiu para o campo. Ele prega a simplicidade das coisas, despreza as "questões universais" e pouco se dedica à filosofia e à metafísica. Sua principal obra é "O Guardador de Rebanhos".

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.

(poema IX em "O Guardador de Rebanhos")


2 . Ricardo Reis:
Como Caeiro, ama o campo e a vida bucólica, mas tem o pessimismo causado pela inevitabilidade da morte e pela passagem cruel do tempo. Poeta neoclássico, busca no epicurismo a raiz da felicidade, ele desconfia da felicidade plena e controla tudo com a razão. Escritor de suas "Odes".

Só esta liberdade nos concedem
Os deuses: submetermo-nos
Ao seu domínio por vontade nossa.
Mais vale assim fazermos
Porque só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.
(ode de Ricardo Reis)



3 . Álvaro de Campos:
É o mais ligado ao movimento modernista, com forte tendência ao futurismo. Abusa do verso livre (ainda metrifique e rime às vezes), das pontuações exclamativas e das onomatopeias. Engenheiro naval, apresenta uma poesia por vezes desleixada ou rápida demais - característica futurista - e, outras vezes, uma poesia reflexiva.

Temos todos duas vidas:

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
("Datilografia" de Álvaro de Campos)

Há ainda o ortônimo Fernando Pessoa (ele mesmo) que escreve "Mensagem", poesia carregada de nacionalismo e saudosismo. Na obra, ele acaba por misturar o épico e o lírico ao (re)contar as histórias de Portugal. Ainda na sua obra lírica, destaca-se "Cancioneiro" onde o poeta explora temas existenciais como amor, solidão, futuro e infância.

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
("Mar Português" (do livro "Mensagem") de Fernando Pessoa)

Na prosa, há o semi-heterônimo Bernardo Soares (que em muito se assemelha ao próprio Pessoa) que escreveu "Livro do Desassossego", livro com forte carga emocional e cheio de um pessimismo encravado pela modernidade no homem comum. O livro destaca-se pelos aforismos e pela profundidade reflexiva.
"Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios. (Importa soberanamente que não amemos)" - Bernardo Soares em "Livro do Desassossego"