Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

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quarta-feira, 1 de maio de 2013

O "crepúsculo" de Pablo Neruda


Ninguém nasce Pablo Neruda - nem o próprio Pablo Neruda nasceu Pablo Neruda. 

Explico: o nome "real" de Neruda é Neftalí Ricardo Reyes Basoalto (o pseudônimo e seu motivo nunca foram bem explicados pelo escritor)

A grandiosidade alcançada pelo poeta chileno no auge de sua produção é resultado, não de um milagre, mas de um processo. Quem lê "Residência na terra" há de entender que antes do meio-dia sempre há uma manhã crepuscular, assim sendo, Pablo Neruda inicia-se na literatura com um livro profético: "Crepusculário".

Crepusculario. Pablo Neruda

O livro reúne os poemas escritos por Neruda entre os dezesseis e os dezessete anos, quando, segundo o próprio, escrevia entre dois e cinco poemas diariamente. Já no "Início" (primeiro poema do livro), o precoce gênio avisa:

"Fecho, fecho os lábios, mas em rosas frementes
se desata minha voz, como água na fonte.

Que não são pomposas, que não são fragrantes,
são as primeiras rosas - irmão caminhante -
de meu desconsolado jardim adolescente."

A primeira publicação consta de 1923, quando o iniciante Neruda ainda publicava avulsamente em jornais e revistas, e é dividida em "capítulos". 
O primeiro é Helios. Nele, tomam destaque os questionamentos sobre Deus (observado com ênfase em "Pantheos"), sobre o tempo (como em "Velho cego, choravas") e sobre o amor (em "Novo soneto para Helena"), mas em todos vê-se uma forte influência parnasiana e surrealista:

"Se quiseres não nos diga de que ramo somos,
não nos diga quando, nem nos diga como,
mas nos diga para onde nos levará a morte..."
(trecho de Pantheos)

"Porque se tu conheces o caminho que leva 
em dois ou três minutos para a vida nova,
velho cego, o que esperas, o que podes esperar?"
(trecho de Viejo ciego, llorabas)

"E será tarde, porque se foi minha adolescência,
tarde porque as flores uma vez só dão essência
e porque ainda que me chames estarei tão longe..."
(trecho de Novo soneto para Helena)


O segundo é Fareweel, y los sollozos. Nele, o amor toma destaque, mas o aspecto parnasiano perde força, dando espaço para uma forte carga surrealista, na temática, e modernista, na estética. Farewell, que parece ser o poema central (e titular) do capítulo, destaca-se como uma carta - interrompida por parênteses literais.

"(Amo o amor dos marinheiros
que beijam e se vão.

Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e se vão.

Uma noite se encostam na morte
no leito do mar.

(4)

Amo o amor que se reparte
em beijos, leito e pão.

Amor que pode ser eterno
e pode ser fugaz.

Amor que quer libertar-se 
para voltar a amar.

Amor divinizado que se achega.
Amor divinizado que se vai.)"
(Trecho de Farewell)

"Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como ninguém soube jamais!
Morrer e ainda 
amar-te mais.
E ainda 
amar-te mais
                       e mais."
(Trecho de Amor)

" Amor - chegado que tenhas
  a minha fonte distante,
  torce-me as vertentes,
  crispa-me as entranhas.
E assim uma tarde - amor de mão crueis -,
ajoelhado, te agradecerei."
(Trecho de Grita)

O terceiro é Los Crepusculos de Maruri. Segundo o próprio Neruda, os poemas desse capítulo foram escritos por ele enquanto admirava os poentes. Eles focam nos devaneios advindos dessa contemplação e são tomados pelo experimentalismo modernista.

"A tarde sobre os telhados
cai
e cai...
Quem lhe disse que viesse
asas de ave?

E este silêncio que enche
   tudo,
de que país de astros
   veio só?
E por que esta bruma
   - pluma trêmula -
beijo de chuva
   - sensitiva -

caiu em silêncio - e para sempre -
   sobre minha vida?"
(Poema La tarde sobre los tejados)

"Minha alma é um carrossel vazio no crepúsculo..."
(Poema Mi alma)

"Minhas alegrias nunca saberás, maninha,
e esta é a minha dor, não as posso te dar:
vieram como pássaros a pousar em minha vida,
uma palavra dura as faria voar."
(Trecho de Hoy, que es el cumpleaños de mi hermana)


O quarto capítulo é Ventana al camino. Nele, o surrealismo ganha força total e as metáforas - quase herméticas - tomam os poemas.

"Entretanto é tão vasto céu
e roda o tempo, entretanto.
Estender-se e deixar-se levar
por este vento azul e amargo!..."
(Trecho de Playa del Sur)

"Ela - a que me amava - morreu na Primavera.
Recordo ainda seus olhos de pomba em desconsolo.

Ela - a que me amava - fechou os olhos. Tarde.
Tarde de campo, azul. Tardes de asas e voos."
(Trecho de Poema en diez versos)

O quinto capítulo é Pelleas e Melisanda. Não por acaso, referência à opera de Claude Debussy. Esse capítulo põe-se como releitura da obra, um diálogo entre os personagens.

"Melisanda
Em teus braços, enredam-se as estrelas mais altas.
Tenho medo. Perdoa-me por não ter chegado antes.

Pelleas
Um sorriso teu apaga todo um passado:
guardem teus lábios doces o que já está distante.

Melisanda
Em um beijo, saberás tudo o que calei."
(Trecho de Melisanda e Pelleas)


O sexto e último capítulo é Final.

"Vieram palavras, e meu coração,
incontível como um amanhecer,
rompeu-se me palavras e se apegou ao voo,
e em suas fugas heroicas levam-no e arrastam-no,
abandonado e louco, e esquecido debaixo delas

como um pássaro morto debaixo de suas asas."
(Trecho final de Final)

VIVA NERUDA!

(todos trechos destacados foram traduzidos por Raul Albuquerque)

quinta-feira, 14 de março de 2013

14 de Março - Dia da Poesia



Hoje é o dia da Poesia! - e eu não estou a fim de chover no molhado... Já falei muito sobre o assunto no post do dia do Poeta. Em todo caso, as datas equivalem-se, pois poesia e poeta coexistem.



São novos tempos e a - pobre? - poesia vem perdendo espaço. Há mais de cinquenta anos, um livro de poemas não entra na lista de mais vendidos. Mas é irônico perceber que nestes mesmos tempos modernos é que ela é mais necessária, pois a catarse é mais necessária em tempos de cárcere. Em tempos de total conexão, desconectar-se é necessário.


Para fechar o curto post, um poema eterno do Bandeira: "Desencanto".
Num processo metapoético, o poeta pernambucano tenta explicar seu processo produtivo e conclui sem pudor...


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

"Les Misérables": letra e melodia


 

O filme que tanto prometia acabou por levar apenas três Oscar® - sendo um deles individual. O filme prometia pelo simples fato de ser baseado num musical de - ninguém mais, ninguém menos que - Schönberg, que é baseado num dos melhores romances de todos os tempos: "Os miseráveis" do francês Victor-Marie Hugo, ou só Victor Hugo.


A obra é encantadora, belíssima, envolvente e muito bem construída; não perde a carga psicológica do romance francês nem falha nos princípios técnicos; tem um acompanhamento instrumental invejável às músicas e possui bons cortes de cena.

Mas basicamente três pontos separam-na da perfeição:


1 - Não há diálogos normais.
Isso mesmo. As falas são - em sua maioria esmagadora - cantadas, e tais falas nem sempre encaixam na melodia, o que cria um desconforto no espectador. Perderam-se ótimas falas tentando cantá-las. Se houvesse sido mantido o script comum dos musicais (falas e músicas), o longa ganharia mais leveza e - ironicamente - ritmo.


2 - A atuação mediana do elenco masculino
A Anne Hathaway dá um show - e sua interpretação de "I dreamed a dream" é tocante -, a Amanda Seyfried também encanta com seus agudos limpos; mas o Hugh Jackman e o Russell Crowe - talvez pelo excesso de falas cantadas e falta de músicas de verdade - acertam poucas vezes durante todo o filme. Dentre os homens solistas, o Eddie Redmayne é um destaque pela qualidade vocal.


3 - O longa é muito longo - e cansativo.
O filme dura quase três horas - o que não é problema para um musical, mas o fato de a música nunca parar cria no espectador um sentimento de "saco cheio", de modo que às duas horas de filme o desejo de sair da sala vai aumentando... e alguns não resistem, eu resisti.


O final do filme é - no mínimo - estranho: uma cena com todos os mortos - em batalha ou não -, cantando alegremente sobre a revolução que nunca morre...
A trilha sonora é incrível, maquiagem e figurino também. Mas Tom Hooper deixou a excelência escapar por detalhes... que pena!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

"Life of Pi" - polêmica e sucesso


O Oscar está chegando... e os cinemas enchem de ótimos (ou ditos ótimos) filmes. Do meio do turbilhão de lançamentos emergiu o filme "Life of Pi" por ser dirigido pelo grande Ang Lee e por seu primor técnico e estético.

Para começar, conversemos sobre o livro que serve de base para o filme. O livro "Life of Pi" é do escritor canadense Yann Martel. Isso já nos leva a uma polêmica pouco divulgada. O livro foi acusado de plagiar "Max e os felinos" - do escritor brasileiro Moacir Scliar. 
Explicando: O livro do Scliar foi lançado em 1981 e retrata um homem - Max - que sai da Alemanha, mas acaba por ficar à deriva com uma onça no meio do Oceano Atlântico. O que nada tem a ver com o pobre Pi que fica à deriva com um tigre no meio do Pacífico retratado no livro do Martel, lançado em 2001. (posso rir?)
Enfim... para completar a bagunça, o livro do canadense foi premiado com o "Man Booker Prize for Fiction" de 2002, o que deu visibilidade ao livro e despertou a questão do plágio. Um crítico percebeu os absurdos pontos comuns entre os livros e alertou Scliar - que decidiu não abrir processo contra o canadense. No fim das contas, Yann Martel admitiu "influência" e acrescentou agradecimento no prefácio do livro.

O livro foi adaptado para o cinema e o filme ficou nas mãos de Ang Lee. Bem... o filme recebeu 11 indicações ao Oscar - incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado.


A história - aparentemente fantasiosa demais - revela-se um cenário para discussões mais profundas acerca do homem - nos campos da religião e da psicologia humana.
Pi é um jovem indiano que apresenta-se como um hindu católico muçulmano - que se torna um adulto professor de kabbalah. Fato que traz à tona uma visão ecumenista das relações transcendentais. E é uma visão encantadora que nos leva pelo braço em tempos em que "tudo o que é sólido desfaz-se no ar".
O menino aprende de forma brutal que os animais não possuem alma - o que marca indiscutivelmente sua relação futura com Richard Parker (o nome do tigre que divide espaço com ele no bote à deriva). O menino conhece o amor - mas deixa-o na Índia. E viaja com a família para "o sonho americano". A viagem dá errado: turbulência, naufrágio. Só salvam-se Pi e Richard Parker num bote.
O bote é o ponto-chave. Nele Pi descobre coisas e descobre-se. A inicial fé em tudo desfaz-se e refaz-se com facilidade espantosa, mas, por fim, a ideia de "Deus" reforça-se de modo irreversível na mente de Pi.



Do ponto de vista técnico, o filme é impecável. Com cenas que - em breve - se tornarão antológicas. O filme é belo e cativante. A trilha sonora também é digna de muitos elogios. Enfim, se não viu, vá ver.

Mas... tradutores fazem uso de entorpecentes para trabalhar?
Pergunto porque o título do livro é "Life of Pi". 
O título do filme é "Life of Pi". 
Em Portugal, foi traduzido - como esperado e lógico - para "A vida de Pi". 
Por que diabos os brasileiros deram o título "As aventuras de Pi"?

-- Até a próxima!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Os outros nomes de Fernando Pessoa


Fernando Pessoa é - nunca é demais relembrar - o maior nome do poesia modernista portuguesa. Destaca-se não só pelo seu lirismo absurdo e pelo jogo literário que construiu, mas por que ninguém absorveu como ele o espírito modernista: O que não tem caráter, mas que precisa ser caracterizado.
Pessoa incorporou a dúvida do início do século: "O academicismo morreu, mas... e agora?" e decidiu reunir em si próprio tudo do passado que poderia levar ao futuro da poesia. Para isso, deixou sua personalidade de lado e deu lugar a personagens - ou personas como fez a ironia da História ao colocar como sobrenome do poeta - "Pessoa" - o nome dado às máscaras do teatro grego.

O poeta tinha uma relação muito mística com a palavra - assim como os grandes Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Isso, juntamente com toda a sua genialidade, resultou na construção de mais 70 identidades falsas entre heterônimos, semi-heterônimos e esboços de heterônimos. Tornou-se um criador de escritores.
Seu processo de construção de poetas, porém, destaca-se pelo refinamento, pois cada heterônimo possuía nome, biografia, profissão, ideologia, estilo próprio, "escola" literária marcante e mapa astral específicos.

Nesse infinidade de escritores criados pelo próprio Pessoa, destacam-se três heterônimos pela complexidade e pela perfeição da construção identitária, são eles:

Alberto, Ricardo e Álvaro imaginados pelo pintor Almada Negreiros

1. Alberto Caeiro:
Segundo Pessoa, o mestre de todos os outros heterônimos. Caracteriza-se como um poeta árcade que fugiu para o campo. Ele prega a simplicidade das coisas, despreza as "questões universais" e pouco se dedica à filosofia e à metafísica. Sua principal obra é "O Guardador de Rebanhos".

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.

(poema IX em "O Guardador de Rebanhos")


2 . Ricardo Reis:
Como Caeiro, ama o campo e a vida bucólica, mas tem o pessimismo causado pela inevitabilidade da morte e pela passagem cruel do tempo. Poeta neoclássico, busca no epicurismo a raiz da felicidade, ele desconfia da felicidade plena e controla tudo com a razão. Escritor de suas "Odes".

Só esta liberdade nos concedem
Os deuses: submetermo-nos
Ao seu domínio por vontade nossa.
Mais vale assim fazermos
Porque só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.
(ode de Ricardo Reis)



3 . Álvaro de Campos:
É o mais ligado ao movimento modernista, com forte tendência ao futurismo. Abusa do verso livre (ainda metrifique e rime às vezes), das pontuações exclamativas e das onomatopeias. Engenheiro naval, apresenta uma poesia por vezes desleixada ou rápida demais - característica futurista - e, outras vezes, uma poesia reflexiva.

Temos todos duas vidas:

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
("Datilografia" de Álvaro de Campos)

Há ainda o ortônimo Fernando Pessoa (ele mesmo) que escreve "Mensagem", poesia carregada de nacionalismo e saudosismo. Na obra, ele acaba por misturar o épico e o lírico ao (re)contar as histórias de Portugal. Ainda na sua obra lírica, destaca-se "Cancioneiro" onde o poeta explora temas existenciais como amor, solidão, futuro e infância.

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
("Mar Português" (do livro "Mensagem") de Fernando Pessoa)

Na prosa, há o semi-heterônimo Bernardo Soares (que em muito se assemelha ao próprio Pessoa) que escreveu "Livro do Desassossego", livro com forte carga emocional e cheio de um pessimismo encravado pela modernidade no homem comum. O livro destaca-se pelos aforismos e pela profundidade reflexiva.
"Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios. (Importa soberanamente que não amemos)" - Bernardo Soares em "Livro do Desassossego"

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A multivocalidade da Literatura Brasileira


O vídeo acima foi apresentado na Feira do Livro de Frankfurt para sugerir a multiplicidade de vozes que compõem a produção literária brasileira. Citando Mário de Andrade, Carlos Drummond e Guimarães Rosa, o vídeo coloca a diversidade que nos une. Pondo Manuel Bandeira e Olavo Bilac lado a lado, há a proposta de que, aqui, o opostos podem dividir a mesma página de um livro.
Uma bela homenagem à nossa história. 

Sobre os professores



Falar em professores sempre é motivo para que beiremos a pieguice e entremos numa espécie de saudosismo. E acho que não vou conseguir fugir disso.

Hoje, “professor” tem um significado mais humano, culminando às vezes em ser sinônimo de “amigo”. De início, somos – alunos e professores – inimigos mortais, pois não pode haver uma relação amistosa entre o avaliado e o avaliador, então, o educador e o educando, o erudito e a página em branco. Os grandes professores são aqueles que apagam essa imagem infantil e dicotômica da nossa cabeça.

Por vezes, o ambiente escolar é hostil e rigoroso. O professor tem o dever humano de amenizar a automaticidade das coisas, humanizar o processo. Talvez seja a voz que ecoa na primeira aula do dia que faça o adolescente voltar ao mundo real e esquecer as angústias ainda abertas do dia anterior.

E, imersos num mundo denso de alunos, avaliações e reclamações, são eles que nos conectam com um mundo totalmente exato, ortográfico, histórico, geográfico ou até artístico.

Ainda que o quadro esteja em branco, a presença de um professor que faça por merecer o título que tem faz com que o dia tenha lições inscritas de modo inesquecível. O modo próprio de ensinar a tabela de senos, de explicar o que é um isômero ou uma vegetação hidrófila, de passar as regras de acentuação gráfica, de caracterizar o cenário do pós-guerra, de expor os princípios da Semana de 22 ou até de exemplificar uma lei da física marcam a vida de um aluno.

Embora muitas vezes não pareça, nós – alunos – somos necessitados de uma risada – ou uma correção - matinal, uma regrinha a mais, um assunto novo e até uma informação que nunca usaremos na vida, porque tudo isso faz parte dessa ópera – ou dessa loteria – que é a vida.

sábado, 13 de outubro de 2012

13 de Outubro - Dia mundial do Escritor


"Para ser sincero, ser escritor é explicitar o desejo quase pecaminoso de ser Deus nem que por uma ou duas páginas." (C.P.)


E são tantos os que me fizeram fugir um pouco da realidade causticante - que é a vida. O escritor é - acima de tudo - um corajoso, que ousa expor-se através de seus personagens, sim, porque não há personagem que não seja uma face do escritor.
Escritores entendem que não há heróis nem vilões, ao menos, não separadamente - está tudo em nós. Sempre há um pouco de Capuleto num Montecchio. 
Loucos. Entre o ser e o não ser, eis o escritor. O escritor é o pervertido que fica nu no palco, mas não tira a máscara.
Mais que um contador de histórias, o escritor é aquele que se põe como atravessador entre o real e o surreal, entre o ridículo e o sóbrio, entre a mocinha chorona e a leitora sonhadora.

"Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as ideias." (Pablo Neruda, porque ele sabe o que fala)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Chico Xavier, o maior brasileiro de todos os tempos?


O povo decidiu... Chico Xavier é - até segunda instância - o maior brasileiro de todos os tempos. O país manteve-se bem alheio à competição - talvez por ter ocorrido no SBT, e não na Globo - e o resultado foi esse.
O processo seletivo já profetizava o desastre com Luan Santana à frente de Chico Buarque e Elis Regina, Neymar à frente de Chico Mendes e Oswaldo Cruz, Gugu à frente de Carlos Drummond de Andrade... e Ronaldo Fenômeno mais bem colocado que todos eles. [É, não iria dar certo]
Os finalistas foram até bem escolhidos: 5 políticos (Lula, FHC, JK, Getúlio Vargas e Princesa Isabel), 2 esportistas (Ayrton Senna e Pelé), 2 religiosos (Irmã Dulce e Chico Xavier), 1 revolucionário (Tiradentes), 1 inventor (Santos Dumont) e 1 arquiteto (Oscar Niemeyer).
Confesso que, ao ver os finalistas, pensei que o eleito seria Lula (por sermos um povo sem memória e este ser bem recente) ou Getúlio Vargas (por toda uma imagem criada em volta dele... "pai dos pobres"). 
Pois bem, falhei! Não pensei que o projeto fosse ser guiado por massas tão tendenciosas.
O primeiro "embate" do Chico Xavier foi contra a Irmã Dulce. Ele venceu por diferença ínfima, mas venceu, e daí foi até a final irrefutável.
A final foi entre Santos Dumont, Princesa Isabel e o próprio Chico Xavier. Torci por Santos Dumont por bons motivos:
1- A obra do Santos Dumont não se restringiu ao Brasil, antes possibilitou maravilhas ao mundo.
2- A princesa Isabel não fez muita coisa. Assinou um documento que já estava pronto (que era incompleto, malfeito...) e ela nem assumiu, estava "tapando o buraco" na ausência do pai.
3- Para que um religioso venha a ser o maior nome de um país, ele deve ter uma obra social e política muito forte e ampla - que chegue a romper os limites da religião (o caso de Dom Helder Câmara). E Chico Xavier não teve vida nem obra de grande importância para o Brasil enquanto país e conjuntura social.
4- Enfim, por eliminação e admiração, Santos Dumont.

Bom... Não há o que fazer. 
A Itália escolheu Leonardo da Vinci (artista destacado do Renascimento Cultural, além de inventor). A França, Charles de Gaulle (Militar na Segunda Guerra e posteriormente governante do país). A Inglaterra, Winston Churchill (Grande nome inglês na Segunda Guerra, escritor e historiador). A África do Sul, Nelson Mandela (Extinguidor da legalidade do sistema de "apartheid"). E o Brasil... ah, o Brasil... escolheu Chico Xavier (médium).

Nunca esperei muito de nós, mas fiquei decepcionado!

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sobre Kafka, o Pai e a Carta


Franz Kafka é um nome inquestionável na literatura moderna. Sua prosa densa e intrapessoal tornou-se referência para os que vieram após ele. Num olhar mais observador, é possível encontrar em toda sua obra uma constante: o sentimento de não pertencimento.
Por muito tempo ignorada, a influência de seu pai na sua produção é inegável e talvez fique mais clara no conto "O veredicto" - onde o filho (que claramente é Kafka) comete suicídio por determinação do pai.


Hermann Kafka, pai de Franz, parece ao filho um super-homem acima da moral e de qualquer outra coisa. A relação entre o pai e o filho era estranhíssima. Tão estranha que o próprio Kafka, aos seus 36 anos, decide escrever ao pai tudo o que o afligia e perturbava nessa relação através de uma carta - que nunca foi entregue a Hermann, mas ficou como uma obra de caráter autobiográfico.


A Carta é sincera e profunda. Sem dúvidas, Kafka relutou muito em escrever tudo aquilo, as palavras foram minuciosamente escolhidas e polidamente dispostas. E Kafka já começa imprimindo um tom de "resposta":
"Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo..."
Um segundo ponto alto da carta é quando reclama: "Tu me proibiste a palavra desde cedo, tua ameaça: 'Nenhuma palavra de contestação!'", revela que vê o pai como "a última instância" - ou seja, o juiz que dá o veredito, problema abordado em "O veredicto" e "O Processo" - e conta também que se sentia num mundo onde havia leis criadas só para ele.

Indiscutível ápice é quando confessa sua visão do pai: "De tua poltrona, regias o mundo." Colocação cheia de um sentimento de pequenez e cega submissão.

No entremeio, Kafka revela que via o casamento como um modo de fugir da dominação do pai. E que o pai sempre se opunha a seus casamentos sugerindo que Kafka só desejava casar-se porque a pretendente "levantou as saias".

Outra confissão que preenche grande parte do vácuo temático de sua obra é: "Minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito."

Não condeno absolutamente o pai de Kafka, já que este nunca levou as coisas em sua escala natural, sempre foi cheio de um ímpeto de supervalorizar algumas coisas - o pai, por exemplo - e desprezar outras - ele próprio é um caso -, além de ser tudo isso de tempo e sociedade diferentes da minha. O fato inelutável é que Kafka, o filho, usou de toda essa "dominação" para construir sua obra e...
O que seria de "O veredicto" e de "O Processo" sem o juiz?
O que seria de "O Castelo" sem o ditador?
O que seria de "A metamorfose" sem o ser metamorfoseado pela fuga da realidade que lhe foi imposta?

- Percebeu? O pai de Kafka está em todas!

sábado, 29 de setembro de 2012

Sobre o caso "Monteiro Lobato"


Têm corrido no meio jurídico-literário comentários e achismos sobre a obra de Monteiro Lobato. As vozes têm tido destaque após as acusações à obra do escritor: estão dizendo que sua obra tem traços racistas.
Suscitada em 2010, a polêmica acerca de "Caçadas de Pedrinho" gira em torno das referências "ofensivas" à Tia Anastácia. Teoria nojenta e infundada, os "ofendidos" destacam o trecho: 
"Lá é isso é - resmungou a preta, pendurando o beiço."
[Só eu não vi nada de mais?] Só para constar, o livro foi escrito em 1933, ou seja, o contexto social e político do escritor paulista era outro. Uma sociedade que ainda se acostumava com a ideia do negro livre - deve constar-se ainda que, para a época, é trunfo do autor colocar a negra em ponto destacado da narrativa.
Não queria tocar no "politicamente correto", mas parece inevitável. Meus caros, arte é libertação. E quando há controle sobre a liberdade, esta já não existe. O romance de aventura para crianças - no qual, o nosso amado Lobato foi pioneiro por estas bandas - foi escrito para ser lido por mentes despreocupadas e ansiantes por ação e humor numa narrativa pulsante.
É hora dos políticos tratarem de política, os juristas, de suas leis e deixarmos a literatura com o tempo, pois só o tempo discerne o que merece destaque ou não.
Monteiro Lobato morreu em 1948, mas tornou-se imortal por sua obra - obra esta cheia de achismos, opiniões e preconceitos, sim! (porque o autor não é um ser sobre todas as variáveis, é um ser humano que escreve o que lhe perturba... simples assim!)
Lobato é imortal. Li seus livros e não sou racista. Tenho meus preconceitos,  pois todos os temos. Lobato é imortal!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Notas: "Joseph Anton" e "Cinquenta Tons"


Com o caos que tomou o mundo islâmico nos últimos dias, é anunciada uma nova bomba para tal cenário: a publicação das memórias de Salman Rushdie. Autor do livro "Versos satânicos", que foi classificado como "ofensa ao Islã e ao profeta Maomé" pelo aiatolá Khomeini, o anglo-indiano teve sua cabeça valendo muito quando lançou o livro - e, hoje, vale 3,3 milhões de dólares. O livro intitula-se "Joseph Anton", porque esse foi o pseudônimo que ele usou durante o período em que fugiu da condenação à morte - inspirado em dois ícones: Joseph Conrad e Anton Tchekóv. 
O livro tem a curiosidade ser escrito em terceira pessoa - algo nada comum em livros de memórias - e discorre sobre os sentimentos do escritor enquanto fugia da fúria islâmica. É do livro o trecho:
"O que pensou foi: Estou morto. Ficou pensando em quantos dias lhe restavam para viver, e achou que a resposta seria, com toda probabilidade, um número de um só algarismo."
*** 

Cinquenta Tons de Qualquer Coisa

Essa nota é sobre o mais recente sucesso do mercado literário, conhecido das massas: Cinquenta tons de cinza (e continuações). Definido sucintamente como "romance erótico para mulheres", o livro é a prova de que a sociedade ocidental perdeu o controle de si própria. 
O livro é recheado de fetiches, relações proibidas e "loucuras", ou seja, pronto para arrebatar multidões de mulheres solitárias e/ou insatisfeitas com as próprias vidas - uma prima pobre da autoajuda. Mediocridade e sexo vendem - e como vendem!
Algo que me chamou a atenção foi o feminismo machista que percorre o livro, pois a mesma mulher que conversa com sua "deusa interior" - e isso é ridículo - é a mesma que dá-se aos caprichos de um psicopata masoquista - só eu percebi o descompasso?
Além da impossibilidade de isso ser classificado como literatura, há ainda algo mais sociológico: o que se pode pensar de uma sociedade que aceita um "romance erótico para mulheres" como produção literária comum, exposto nas mesas de indicação de livrarias? Deve haver algo muito  errado nessa história.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

25 anos sem a poesia de Drummond


O poeta brasileiro "gauche" por excelência morreu há 25 anos. Grande nome da poesia modernista, Carlos Drummond de Andrade é um marco para a produção poética brasileira. 

Nascido em 1902, em Itabira (MG), Carlos foi desde cedo muito poético - revolucionário - o que o levou a ser expulso do Colégio Anchieta por acusação de "insubordinação mental" - nasceu poeta. Toda sua produção poética é marcada por um uso inteligente e surpreendente das nuances e dos recursos da língua. Refinado, o lirismo drummondiano é marcado por um trabalho complexo escondido atrás da simplicidade de suas palavras.

Sua primeira fase - dada como "fase experimentalista" - é marcada por um instinto modernista de reinventar modelos e sentidos de escrever. Sob influência dos modernistas de 1922, ele iniciou-se escrevendo poemas de ordem conceitual. Dessa fase, o maior exemplo da qualidade da poesia de Drummond é - indiscutivelmente - "No meio do caminho". O poema foi publicado na Revista de Antropofagia em 1928:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Sua segunda fase - dada como "fase gauche" - é marcada pela desconformidade com o mundo, a sensação de autoexclusão, de afastamento do mundo externo. Encontrando um modo muito peculiar de escrever, Drummond inicia uma "poesia em primeira pessoa", onde o que havia para ele não passava dele mesmo. O poema que caracteriza - e da nome a - essa fase é "Poema de Sete Faces". Publicado no livro "Alguma poesia" em 1930:


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. [...]
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
 
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Sua terceira fase - dada como "fase social" - é marcada por uma preocupação com o mundo, um olhar mais próximo da realidade externa. Extremamente influenciado pelas ideias socialistas, passou a ver a Segunda Guerra Mundial como um empasse único. O marco desta fase é o livro - e o poema - "Sentimento do Mundo", publicados em 1940:

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
 [...]
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
 [...]
esse amanhecer
mais noite que a noite.
Sua quarta fase - dada como "fase do não" - é marcada por uma poesia decepcionada, focada no tempo - com frequentes referências à morte, à filosofia, à metafísica e à reflexão. Marcado pela Guerra Fria, viu seus ideais serem corrompidos e o mundo cair no caos. O livro que marca essa fase é "Claro Enigma", publicado em 1951:
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
 
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
 
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
 
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Sua última fase - dada como "fase da memória" - é marcada por uma retomada do passado focando a infância em Itabira (interior de Minas Gerais) , a família, o humor, o cotidiano e as ironias da vida. O livro que abre essa fase é "Boitempo", lançado em 1968. O poema que bem retrata sua carga nostálgica é "Confissões de um itabirano":
 [...]
Tive ouro, tive gado, tive fazendas. 
Hoje sou funcionário público. 
Itabira é apenas uma fotografia na parede. 
Mas como dói!

sábado, 11 de agosto de 2012

De Olho na Obra: "Os Pilares da Sociedade" (de George Grosz)





A obra acima é, sem dúvidas, a mais expressiva do movimento alemão Nova Objetividade (originalmente, Neue Sachlichkeit). Foi pintada em óleo sobre tela em 1926, a crítica social é clara e gritante - marca da arte alemã no entre-guerras. Nela, George Grosz questiona - e satiriza - a visão que nos foi passada de "sustentáculo" da sociedade.
Mas, vamos para o De Olho na Obra:

1- O plano de fundo: Para representar o caos social sustentado pelos "pilares", o pintor criou a obra sobre completa desordem - que chega ao auge no prédio em chamas (parte superior esquerda da obra).

2- O pilar social "militar": Para fortalecer a ironia, Grosz pôs - na parte superior direita da obra - alguns soldados, e o soldado em evidência tem sua espada suja de sangue e ainda aponta uma arma para frente.

3- O pilar social "religioso": Com um sorriso tosco, o clérigo corre em direção oposta aos militares e com os braços abertos. Grosz grita a hipocrisia que mora nas elites religiosas que permaneceram - e ainda permaneceriam - caladas durante as atrocidades da guerra.

4- O pilar social "político": Com merd - merda mesmo - na cabeça, o líder político alemão é retratado como um fantoche das imposições políticas. O social democrata é satirizado pelo rosto que aparenta embriaguez.

5- O pilar social "jornalístico": Com um penico na cabeça, o jornalista da pintura exibe uma pena extensa e pomposa, segura também seus escritos com aparente irritação. Grosz apresenta o jornalista louco e irrisório no caos político que se desenhara naquele momento da história.

6- O pilar social "ultranacional": Em primeiro plano - indiscutível destaque - está o cidadão ultranacionalista. Exibindo a suástica - símbolo nazista por excelência - na gravata, o homem empunha uma espada numa mão e na outra segura um copo de cerveja. Em sua cabeça, há uma imagem de batalha: um cavaleiro empunhando uma lança.

*
Espero que tenham gostado de mais um "De Olho na Obra". - Até o próximo!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Sobre ser "gauche"


 
Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
O trecho acima é o clássico início do "Poema de sete faces" de Carlos Drummond de Andrade. Para alcançar a totalidade do sentido da frase, deve-se saber que gauche (leia-se, gôche) significa "esquerdo" em francês - por "esquerdo", entenda-se "diferente", "incompatível" ou "deslocado".

Pensando sobre um entrevista que gravei (para a Rádio Sarau) percebi que o fato de sentir-se gauche une todos os poetas de verdade - o sentimento de não-pertencimento. O desespero pelo que não "se encaixa" une todos os poetas numa caverna e eles permanecem lá, o mesmo desespero que levou alguns à loucura e/ou suicídio é que incita a poesia viva e gritada.

Os poetas não querem adequar-se, eles querem ser poetas - sinceros, de preferência. O gauchismo caracteriza o poeta como a musicalidade caracteriza o músico. Baudelaire fala desse sentimento quando fala sobre o albatroz (clique aqui para entender a referência).

Mesmo quando não citado, o fato de ser gauche é que faz o poeta ser poeta. Drummond usou o termo de modo único, um esquerdo no meio dos destros - um poeta no meio dos peregrinos dissolvíveis. 

Vou acabar este post com um dos trechos do "Poema de sete faces":


Mundo mundo vasto mundo, 
se eu me chamasse Raimundo 
seria uma rima, não seria uma solução. 
Mundo mundo vasto mundo, 
mais vasto é meu coração.

(Viva Drummond!)


Semana literariamente ativa!

Por mais que minha rotina afaste-me das informações sobre literatura, sempre há um momento para atualizar os conhecimentos. E essa semana foi cheia!

Hermann Hesse (1877-1962)

Inicialmente, no dia 09 de agosto de 1962, ou seja, há 50 anos, morria Hermann Hesse. Esse gênio alemão, Nobel de literatura de 1946, foi marcante na poesia e no prosa do século XX. O autor de clássicos como Sidarta (1922) e O jogo das contas de vidro (1943) foi também poeta e contista. Era apaixonado por filosofia - profundo conhecedor da obra nietzschiana - e por psicanálise.
Sua obra revela um homem que quer descobrir mais, nascido numa família ditatorialmente cristã, ele viajou o mundo atrás de novas culturas - e acabou apaixonando-se pela filosofia oriental. Hesse deixou um legado de mais de 50 romances, centenas de poemas e muitas  cartas (muitas mesmo). 


Depois, no dia 10 de agosto de 1912, ou seja, há 100 anos, nascia Jorge Amado. Seguindo a carga do nome, Jorge é amado até hoje, no Brasil e no resto do mundo, pelas suas obras sinceras, claras, envolventes e realistas. Romancista por excelência, Amado impôs-se como um dos mais famosos e aclamados escritores brasileiros de todos os tempos.
Sua primeira fase apresenta-se socialista e regionalista enfoca a seca e a luta de classes no Nordeste brasileiro - dessa fase destacam-se Terras do sem fim (1943) e Mar morto (1936). Sua segunda (e última) fase revela a sensualidade e o humor - e até a religiosidade - do povo brasileiro (questionáveis, mas tudo bem) - dessa fase destacam-se Gabriela, cravo e canela (1958) e Dona Flor e seus dois maridos (1966).

Fiquemos com uma frase do Jorge Amado:
"Eu acredito em mudar o mundo e que a literatura tem imensa importância nisso."

sábado, 14 de julho de 2012

De Olho na Obra: O Pensador (de Auguste Rodin)



"O Pensador" de Auguste Rodin

A obra acima é uma das esculturas mais conhecidas do mundo e uma das mais louvadas de todos os tempos. Marco da escultura impressionista, "O Pensador" é uma obra inigualável e o próprio Rodin reconhecia isso. Foi esculpida em bronze entre 1880 e 1881.
Vamos ao De Olho Na Obra:

1 - O contexto de criação: A obra foi encomendada a Rodin como parte de uma grande exposição de inauguração de um museu de Paris, mas o museu nunca foi construído e "O pensador" ficou famoso isoladamente. O projeto da exposição era uma referência ao livro "A Divina Comédia", de Dante Aliguieri, e "O pensador" originalmente seria o próprio Dante observando o Inferno.

2 - O nome: "O Pensador" nem de longe é o nome oficial da obra. Originalmente, ela não tinha nome por pertencer a um conjunto conceitual. Com a não inauguração do museu, Rodin expôs a obra individualmente em 1888 com o título de "O Poeta". O nome "O Pensador" veio com os comentários e as críticas que destacavam o "pensar com todo o corpo" que havia na escultura.

3 - A obra por Rodin: Certa vez, Rodin falou sobre a obra, dizendo que "ele não pensa só com o cérebro, a testa franzida, as narinas distendidas e os lábios comprimidos, mas com todos os músculos dos braços, das costas e das pernas, os punhos fechados e os dedos contraídos."

4 - O queixo sobre a mão: Imagem eternizada, a cabeça apoiada na mão tornou-se um símbolo internacional e já inconsciente de reflexão e/ou pensamento profundo. A feição fixa e rígida também ajuda no desenho de uma alma pensativa.

5 - O braço contraposto: Na obra, Rodin põe o braço direito sobre o joelho esquerdo, uma clara referência a Michelangelo. Tal contraposição ainda ajuda a expor os contornos do "Pensador" que destacam-se nas costas criando uma ideia constante de luz e sombra.

* Espero que tenham gostado de mais um De Olho na Obra e que tenham aprendido algo... Afinal, viver é aprender, não é?!