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Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

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sábado, 1 de dezembro de 2012

Da Virtualidade nas Relações Humanas (parte I)



Convém saber que antropologia tradicional considera-nos o último estágio de evolução das relações sociais. Na época ágrafa, o ser humano viveu o estágio da selvageria. Na transição para o advento da escrita, que coincide com a estruturação das primeiras sociedades hidráulicas, os homens viveram a fase da barbárie. Com estabelecimento dos primeiros Estados e com as primeiras legislações, estabelece-se também o que se convencionou chamar de “civilização”.
           Essa tal evolução proposta na ideia antropológica pressupõe um melhoramento gradual nas relações humanas. O problema da teoria é que essa gradação basicamente não ocorreu.
         As relações sociais humanas encontram os mesmos problemas e os mesmos artifícios sórdidos de predação. Somos animais. No sentido biológico, o conceito de comunidade é o de um conjunto de várias populações de espécies diferentes que traçam relações entre si, estas podendo ser de cooperação ou de competição.
Nossas comunidades não se diferenciam em nada desse conceito. São aglomerados selvagens de populações diferentes, quer no âmbito sócio-econômico, quer no âmbito moral-religioso. Desenha-se uma cadeia alimentar cheia de nuances e variáveis, em que não mais valem as forças ou perícias predatórias, mas o poder do capital disposto nas suas mais diversificadas faces.
Com o tempo, a atividade subjugadora sofisticou-se e aumentou seu espectro de atuação. Com o passar dos séculos, “evoluímos” das selvas literais para as selvas de pedra, mundos de concreto e asfalto que esboçam suas dualidades. Hoje, no entanto, a selva asfáltica colapsou-se em seu inchamento descontrolado, então, fugimos para um novo ambiente, ainda selvagem, mas, desta vez, um cenário etéreo e intocável que baseia sua crueldade na sua inexistência na realidade.
Para percebemos a não evolução de nossas relações sociais, antes sua maquiavélica maquiagem, vale utilizar-se de um olhar crítico sobre as ditas – malditas e benditas – redes sociais:
Ao modo dos lobos que, quando sozinhos, utilizam-se do véu da noite para atacar suas presas, os homens – animais sociais por natureza – fazem uso do anonimato oferecido por algumas redes sociais para expor suas animosidades animalescas, seus ódios resguardados. Sem o filtro da pessoalidade, da identificação e do status social, ofensas são distribuídas a torto e a direito, geralmente sem base lógica, com o instintivo desejo de obliterar uma vida social saudável, o que configura uma ligação com o “impulso de morte” – “Tanathos”, segundo Freud – dos predadores do mundo animal.
É tempo de revisão das mesmas certezas de sempre. As mesmas máximas  ainda são válidas. Portanto, “ao vencedor, as batatas”.

domingo, 11 de novembro de 2012

Da Inutilidade da Poesia


Se perguntam a mim “Por que escrever poesia?”, vêm à tona milhares de respostas subjetivas. Subjetivas, pois não há um porquê lógico para produzir arte. A arte em si não tem fim prático. Arte é uma daquelas coisas que se faz por vontade (ou, à la Schopenhauer, Vontade de Poder), algo perto do instinto. Poesia é inútil, sempre foi.
Até aqui, não há novidades.

A questão atual é que, numa lógica absurda e mal construída, o que é inútil é imediatamente desimportante. Ou seja, hoje se algo não tem um fim prático não é importante. Vivemos no tempo da razão utilitária - onde até a racionalidade foi posta à margem do processo produtivo -, fato que explica esse desprezo não tão recente à arte. 

A constatação, porém, é que as pessoas fazem uso da poesia não por ela ser útil - pois ela não é - mas por ela ser importante - o que não depende de sua utilidade. Poesia tem uma finalidade intrínseca e pessoal, o que foge ao atual conceito de "útil". 

Poesia tem duas faces. 
Uma é apresentada ao poeta, essa é a face do desafio. É a que apresenta as palavras como meios para chegar a um fim - que é a própria Poesia. É a que permite libertação em moldes bem marcados - e por vezes burlados pelo escritor.
Outra é a apresentada ao leitor, essa é a face do descobrimento. É a que disponibiliza um campo minado, onde qualquer verso alheio pode desencadear sentimentos pessoais e intransferíveis. É o que dá ao Outro o atestado de insanidade assinado pelo paciente - que piora a cada verso.

Longe da tentativa acadêmica e falida de dar "funções" à poesia, a própria história empenha-se em provar que a poesia apresenta-se no processo cultural como algo importante, mas nunca útil. 
A poesia política de Neruda, Nobel de Literatura de 71, por exemplo, foi importante no cenário latinoamericano durante a Guerra Fria, mas não foi útil. Despertou o desejo de liberdade do povo, mas não convocou multidões às ruas.

Poesia é, portanto, inútil, mas importante. Algo impossível para as mentes adestradas e castradas. Não há fim determinado e comprovável que comporte a poesia. Poesia é vital, mas não é útil. 

Poesia...
... não é rentável.
... não vai salvar-nos do aquecimento global nem da crise financeira.
... não vai trazer-nos a solução dos problemas da sociedade contemporânea.
... não vai evitar guerras nem amenizar seus efeitos.
... não vai encontrar a cura do câncer nem da AIDS.
... não vai acabar com a fome nos países miseráveis.

E talvez até venha a fazer tudo isso, mas, se o fizer, será feito um poeta por vez, um poema por vez, um leitor por vez, uma inquietação por vez. 
Inútil totalmente inútil, mas igualmente indispensável.