Tenho medo que te tornes apenas palavras amarelecidas, menina, Clara. Tenho medo do tempo te apagar de mim, como apaga as letras douradas das capas de livros antigos. E tenho outros medos.
Mas não quero escrever uma elegia. Hei de te escrever uma ode.
Tu eras de mãos nuas num tempo de mãos que empunhavam estandartes. Tuas mãos amavam. Sei por que fui amado por elas. E fui amado também pelo teu sono. Teu nome poderia ser Clarice, mas foste Clara, como a água é clara na alva, como tua fala era clara.
Tu não foste apenas um nome, Clara. Foste Clara e, na tua clareza, cabiam mais de sete luas, além da nossa partitura e da leveza dos solstícios.
_Calícamo.
Bem-Vindo ao Estação 018!
Mostrando postagens com marcador Poemas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poemas. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
sábado, 27 de setembro de 2014
Antes do boa-noite
queria eu beijar-te a testa e dizer "dorme bem, moça"
mas, vem cá, vamos conversar
tem uma lua lá fora louca para ser vista
as estrelas estão lá também
não me diga adeus tão fácil
não me diga nada
permita que o sol leve minhas flores
aguarde uns dias mais
contactei uns ventos para te acordarem
de segunda a sexta
dispensei-os no fim de semana
porque eu prefiro te acordar pessoalmente
quero fazer isso todos os dias
na verdade
todos os dias e todas as noites
quero te olhar um boa-noite
e te beijar um bom-dia
[Raul Albuquerque 27/09/2014 23:54] Boa noite, moça!
Raul Cézar de Albuquerque
27/09/2013
mas, vem cá, vamos conversar
tem uma lua lá fora louca para ser vista
as estrelas estão lá também
não me diga adeus tão fácil
não me diga nada
permita que o sol leve minhas flores
aguarde uns dias mais
contactei uns ventos para te acordarem
de segunda a sexta
dispensei-os no fim de semana
porque eu prefiro te acordar pessoalmente
quero fazer isso todos os dias
na verdade
todos os dias e todas as noites
quero te olhar um boa-noite
e te beijar um bom-dia
[Raul Albuquerque 27/09/2014 23:54] Boa noite, moça!
Raul Cézar de Albuquerque
27/09/2013
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
[sonar]
em lá
acabamos nosso dueto
tom de distância abissal
dissemo-nos adeus
como quem mutila a carne
e lacera algo de coração na garganta
as pessoas passavam
o tempo passava
e eu não queria ser passado
- era infantil a vontade
de terno me eternizar
em teu prontuário
em lá
acabamos nosso dueto
um dó grave do piano fechou as cortinas
apagaram-se as luzes
Raul Albuquerque
10/09/2014
acabamos nosso dueto
tom de distância abissal
dissemo-nos adeus
como quem mutila a carne
e lacera algo de coração na garganta
as pessoas passavam
o tempo passava
e eu não queria ser passado
- era infantil a vontade
de terno me eternizar
em teu prontuário
em lá
acabamos nosso dueto
um dó grave do piano fechou as cortinas
apagaram-se as luzes
Raul Albuquerque
10/09/2014
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
[tessitura homérica]
caibo todo nas tuas notas.
teu tom tatua teu tato.
nosso eterno trato:
você no cais
e meu barco sempre no horizonte.
ama-me enquanto é preciso.
quando meu barco soçobrar,
canta às ondas e me deixa
naufragado no passado.
domingo, 24 de agosto de 2014
fome
acordei hoje com fome de poesia
luz na janela chama-me a acordar
água gelada do chuveiro
(ignoro o "mode winter" por vontade de acordar)
uma bermuda nova e uma camisa antiga
o cereal na tigela de sempre
mas a fome é de poesia, mundo!
vontade de comer
olhos negros,
arrebóis,
medos infantis,
gerânios,
brisas marítimas,
sonhos soterrados,
notícias de romances eternos,
laudos médicos
e
se der tempo,
passar na sua casa,
comer uma fatia do nosso passado:
doce de leite com passas e amor.
luz na janela chama-me a acordar
água gelada do chuveiro
(ignoro o "mode winter" por vontade de acordar)
uma bermuda nova e uma camisa antiga
o cereal na tigela de sempre
mas a fome é de poesia, mundo!
vontade de comer
olhos negros,
arrebóis,
medos infantis,
gerânios,
brisas marítimas,
sonhos soterrados,
notícias de romances eternos,
laudos médicos
e
se der tempo,
passar na sua casa,
comer uma fatia do nosso passado:
doce de leite com passas e amor.
sábado, 16 de agosto de 2014
I Obituário para Clara
Amávamos Clara como se a vida dela dependesse desse amor - ou como se nossas vidas dependessem do amor à vida dela. Então não sabíamos se era um amor altruísta ou egoísta. Sabíamos apenas que era amor.
Clara era embaixatriz de alguma casta universal de ninfas, menina de recados de algum deus olímpico, epifania, terremoto. Quando abria a boca, não sabíamos se era voz humana ou flauta doce de zéfiro.
Dói-nos saber que os deuses a chamaram de volta, deixando-nos apenas a lembrança monocromática. A imagem de sua beleza clássica ainda nos acorda pelas madrugadas e ainda inspira nossas árias.
Dormimos com as janelas abertas, porque talvez um dia sua voz deseje voltar para nos ninar numa noite fria e inquieta.
_ Bardo
Clara era embaixatriz de alguma casta universal de ninfas, menina de recados de algum deus olímpico, epifania, terremoto. Quando abria a boca, não sabíamos se era voz humana ou flauta doce de zéfiro.
Dói-nos saber que os deuses a chamaram de volta, deixando-nos apenas a lembrança monocromática. A imagem de sua beleza clássica ainda nos acorda pelas madrugadas e ainda inspira nossas árias.
Dormimos com as janelas abertas, porque talvez um dia sua voz deseje voltar para nos ninar numa noite fria e inquieta.
_ Bardo
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Bela
há de ser seu nome uma profecia
como se houvesse essência no nome
cheiro incenso
antes mesmo de registrado o nome
haveria de ser bela
o nome apenas diz
o sorriso apregoa verdades óbvias e esquecidas
vulgo felicidade
haveria de ser bela
os céus seriam apenas véus
nuvens intrusas pois o sol lhe quer tocar
é dia vento
haveria de ser bela
o nome já havia dito
e a chuva repentina confirmou
que o nome apenas diz
mas o riso prova
apesar das provas
que haverá sonho
com sorte haverá poesia e fim de tarde no Recife.
sexta-feira, 4 de julho de 2014
eternizar
escrever
é tentar a eternidade
como o corpo -mão e olhos -
volta ao pó e pelo vento vai,
o Poeta tenta se deixar
em linguagem
letra a letra
o Poeta tenta dar fonemas
à mudez surda das almas apressadas
o Poeta
- alma impunível -
tentar eternizar
as vidas não ternas
na gravidade dos dias,
o Poeta põe os ternos dos velhos
- juízes, cantores e engraxates -
e tenta eternizar-se de passado
Raul Albuquerque
é tentar a eternidade
como o corpo -mão e olhos -
volta ao pó e pelo vento vai,
o Poeta tenta se deixar
em linguagem
letra a letra
o Poeta tenta dar fonemas
à mudez surda das almas apressadas
o Poeta
- alma impunível -
tentar eternizar
as vidas não ternas
na gravidade dos dias,
o Poeta põe os ternos dos velhos
- juízes, cantores e engraxates -
e tenta eternizar-se de passado
Raul Albuquerque
terça-feira, 1 de julho de 2014
tua dança
todo o teu andar é dança:
mãos dadas ao crepúsculo;
um bunker de esperança;
guerra e paz num opúsculo.
estivemos de costas para o mar,
porque o sol tem descido
sobre os prédios da cidade
e o rio é da nossa idade
com seu rosto envelhecido
de tanto querer (a)mar.
Raul Albuquerque
domingo, 15 de junho de 2014
como se uma visita fosse...
como se uma visita fosse,
eu te lembrava vindo
em névoa e sol
e meu quarto se enchia
de tua noite fria e tua luz.
como se uma visita fosse,
eu me vestia de dias mal passados
para te receber em esplendor
assim que ouvia sinos.
como se uma visita fosse,
eu aprendia frases em francês
e massas italianas
e preparava a mesa ao te sentir vindo.
como se uma visita fosse,
meus olhos valsavam
entre a porta e o relógio
como se teu vir também fosse dança
- rumba, bolero, poema.
como se uma visita fosse,
tua imagem me aparecia
e a liturgia das velas começava
ao som de Bach.
Raul Albuquerque
14-15/junho/2014
eu te lembrava vindo
em névoa e sol
e meu quarto se enchia
de tua noite fria e tua luz.
como se uma visita fosse,
eu me vestia de dias mal passados
para te receber em esplendor
assim que ouvia sinos.
como se uma visita fosse,
eu aprendia frases em francês
e massas italianas
e preparava a mesa ao te sentir vindo.
como se uma visita fosse,
meus olhos valsavam
entre a porta e o relógio
como se teu vir também fosse dança
- rumba, bolero, poema.
como se uma visita fosse,
tua imagem me aparecia
e a liturgia das velas começava
ao som de Bach.
Raul Albuquerque
14-15/junho/2014
sábado, 7 de junho de 2014
sobre olhos
aprendi
- não a tempo -
que os dias se morrem
nos olhos delas
afoguei-me em olhos verde-mar
e não lembro como ressuscitei
tive alucinações febris em olhos furta-cor
pensei ser a extrema-unção,
mas não conheci céu
amei ainda dois olhos negros
que o sol tornava espelhos
e a lua tornava sóis
ora, aqueles olhos continham neles
uma parcela significativa
do que eu não conhecia do universo
mas
aprendi
- não a tempo -
que os dias se morrem
nos olhos delas
será que ressuscitam?
Raul Cézar de Albuquerque
- não a tempo -
que os dias se morrem
nos olhos delas
afoguei-me em olhos verde-mar
e não lembro como ressuscitei
tive alucinações febris em olhos furta-cor
pensei ser a extrema-unção,
mas não conheci céu
amei ainda dois olhos negros
que o sol tornava espelhos
e a lua tornava sóis
ora, aqueles olhos continham neles
uma parcela significativa
do que eu não conhecia do universo
mas
aprendi
- não a tempo -
que os dias se morrem
nos olhos delas
será que ressuscitam?
Raul Cézar de Albuquerque
sexta-feira, 30 de maio de 2014
comportar
teu olhar despejou em mim
pó de esperanças infundadas
enquanto eu dormia
tu sopraste ventos
que eu desconhecia
e o pó recebeu vida
senti a perda de duas costelas
e me levantei sem ti
a dor de receber um esperança
e vê-la cair em semente na terra
lembro que dormi em teu colo
e acordei lembrando de ter morrido
sendo a vida já outra coisa que não a vida contigo
não sei se vida é
(nada disse: as palavras nunca nos comportaram)
Raul Albuquerque
pó de esperanças infundadas
enquanto eu dormia
tu sopraste ventos
que eu desconhecia
e o pó recebeu vida
senti a perda de duas costelas
e me levantei sem ti
a dor de receber um esperança
e vê-la cair em semente na terra
lembro que dormi em teu colo
e acordei lembrando de ter morrido
sendo a vida já outra coisa que não a vida contigo
não sei se vida é
(nada disse: as palavras nunca nos comportaram)
Raul Albuquerque
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Métrica quase bolero
Tu, moça, cabes em um só bolero.
Tu cabes na mesma melancolia
e na mesma cadência que eu quero
p'ra que a vida não passe à revelia.
Raul Albuquerque
Tu cabes na mesma melancolia
e na mesma cadência que eu quero
p'ra que a vida não passe à revelia.
Raul Albuquerque
sábado, 24 de maio de 2014
Alexandrino II
Aprendi meus amores de longe e de carta;
remeti sem saber o seu destinatário;
selado em silêncio mórbido e vário
que desvaria diante da secura farta.
Raul Albuquerque
remeti sem saber o seu destinatário;
selado em silêncio mórbido e vário
que desvaria diante da secura farta.
Raul Albuquerque
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Alexandrinos brancos
sonhara toda noite com as cores brancas
até girassóis brancos vira vaguear
pelos amores brancos de tanto luar
a iluminar as belezas que o escuro arranca
Raul Albuquerque
sábado, 17 de maio de 2014
Soneto-resposta para agrado de neoparnasianos
Aprendi cedo a poesia com Moraes
e vi que nos sonetos cabem vidas,
há espaços para alegrias sofridas
e para os cotidianos mais imorais.
Não há necessidade de rimar,
mas há de ser o texto a boa forma
forjada em porões d'alma sem norma
que saiba diferenciar poça e mar.
A poça vem de qualquer chuva
e com qualquer sol evapora já,
mas o mar, além da forma-luva,
sabe que traz em si eco de rios
e, para além de um medo sombrio,
sabe que é o ser-rio que o faz ser mar.
Raul Albuquerque
17/05/2014
e vi que nos sonetos cabem vidas,
há espaços para alegrias sofridas
e para os cotidianos mais imorais.
Não há necessidade de rimar,
mas há de ser o texto a boa forma
forjada em porões d'alma sem norma
que saiba diferenciar poça e mar.
A poça vem de qualquer chuva
e com qualquer sol evapora já,
mas o mar, além da forma-luva,
sabe que traz em si eco de rios
e, para além de um medo sombrio,
sabe que é o ser-rio que o faz ser mar.
Raul Albuquerque
17/05/2014
quinta-feira, 8 de maio de 2014
[onde couber bem]
desaprendi a minha casa
onde coubera tudo já nada cabe
destendi dores pré-históricas
e atravessei noites homéricas
em busca da terra em que
os sonhos se desmancham
em ondas de realidade
num mar longo e pacífico
mas nada encontrei
só o oceano insatisfeito
e terremotos no oriente
voltei para casa e já nada cabia
perderam-se as medidas
e os móveis apertaram-se
com as portas ficando menores
e eu mal pude entrar
só pus a cabeça na entrada
e vi que já nada me cabia
hoje trago malas
e uma vontade eterna
de construir um lar
em que caibam
as lembranças [o futuro [o meu nome [e amor por capricho]]]
Raul Cézar de Albuquerque
08/05/2014
onde coubera tudo já nada cabe
destendi dores pré-históricas
e atravessei noites homéricas
em busca da terra em que
os sonhos se desmancham
em ondas de realidade
num mar longo e pacífico
mas nada encontrei
só o oceano insatisfeito
e terremotos no oriente
voltei para casa e já nada cabia
perderam-se as medidas
e os móveis apertaram-se
com as portas ficando menores
e eu mal pude entrar
só pus a cabeça na entrada
e vi que já nada me cabia
hoje trago malas
e uma vontade eterna
de construir um lar
em que caibam
as lembranças [o futuro [o meu nome [e amor por capricho]]]
Raul Cézar de Albuquerque
08/05/2014
sexta-feira, 25 de abril de 2014
hoje
o sol que eu vi descer a rua me assustou
e eu morri de medo
a luz de seus dedos me ressuscitou
uma dor antiga
e tu entraste disfarçada de cantiga
aplaudida pelos meus cílios
e cheia de rosas encravadas
como uma joia
eu soube dos astros tocando teu cabelo
e das cascatas americanas olhando teu sorriso
já perdi as contas de imaginar-te
pensei em dizer os dias
mas o sol já desceu a rua
e a noite fica nua
sem você, a morte continua
Raul Albuquerque
25/04/2014
e eu morri de medo
a luz de seus dedos me ressuscitou
uma dor antiga
e tu entraste disfarçada de cantiga
aplaudida pelos meus cílios
e cheia de rosas encravadas
como uma joia
eu soube dos astros tocando teu cabelo
e das cascatas americanas olhando teu sorriso
já perdi as contas de imaginar-te
pensei em dizer os dias
mas o sol já desceu a rua
e a noite fica nua
sem você, a morte continua
Raul Albuquerque
25/04/2014
sábado, 22 de março de 2014
[dá-me teu tear]
chego hoje a uma conclusão:
preciso de teus olhos
mesmo que eu não os olhe e que eles não me olhem
preciso da gota de futuro que é saber que eles existem
preciso de teus olhos
não faz sentido [eu sei
mas não preciso de sentido [preciso de teus olhos
preciso de teus olhos
só durmo e acordo enquanto houver olhos teus
só respiro enquanto houver teus olhos
preciso de teus olhos
só morro se houver teus olhos
sem eles nem vida nem morte
sem eles apenas trocas gasosas e sanguíneas
[apenas conversas ocas
[apenas marasmo
[apenas o mar sem alma que namora o abismo.
Raul Albuquerque
22/03/2014
quarta-feira, 19 de março de 2014
[atrasada]

há notas na tua fala
e ninguém conseguirá cantar
as tuas anotações
como tu cantas,
a mezzo-soprano mais exata
em errar a hora
e há mistérios
que são belos velados
e descobertos
são nus pecados
sem cor de céu sol sal
y solamente tú
quedas al lado de las estrellas
y de los corales
del oceano
tu divides dois tempos e dois domínios
hoje é tua a plenitude
e teu é ser sempre
Raul Albuquerque
19/03/2014
Assinar:
Postagens (Atom)