Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

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quinta-feira, 14 de março de 2013

14 de Março - Dia da Poesia



Hoje é o dia da Poesia! - e eu não estou a fim de chover no molhado... Já falei muito sobre o assunto no post do dia do Poeta. Em todo caso, as datas equivalem-se, pois poesia e poeta coexistem.



São novos tempos e a - pobre? - poesia vem perdendo espaço. Há mais de cinquenta anos, um livro de poemas não entra na lista de mais vendidos. Mas é irônico perceber que nestes mesmos tempos modernos é que ela é mais necessária, pois a catarse é mais necessária em tempos de cárcere. Em tempos de total conexão, desconectar-se é necessário.


Para fechar o curto post, um poema eterno do Bandeira: "Desencanto".
Num processo metapoético, o poeta pernambucano tenta explicar seu processo produtivo e conclui sem pudor...


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Da Virtualidade nas Relações Humanas (parte I)



Convém saber que antropologia tradicional considera-nos o último estágio de evolução das relações sociais. Na época ágrafa, o ser humano viveu o estágio da selvageria. Na transição para o advento da escrita, que coincide com a estruturação das primeiras sociedades hidráulicas, os homens viveram a fase da barbárie. Com estabelecimento dos primeiros Estados e com as primeiras legislações, estabelece-se também o que se convencionou chamar de “civilização”.
           Essa tal evolução proposta na ideia antropológica pressupõe um melhoramento gradual nas relações humanas. O problema da teoria é que essa gradação basicamente não ocorreu.
         As relações sociais humanas encontram os mesmos problemas e os mesmos artifícios sórdidos de predação. Somos animais. No sentido biológico, o conceito de comunidade é o de um conjunto de várias populações de espécies diferentes que traçam relações entre si, estas podendo ser de cooperação ou de competição.
Nossas comunidades não se diferenciam em nada desse conceito. São aglomerados selvagens de populações diferentes, quer no âmbito sócio-econômico, quer no âmbito moral-religioso. Desenha-se uma cadeia alimentar cheia de nuances e variáveis, em que não mais valem as forças ou perícias predatórias, mas o poder do capital disposto nas suas mais diversificadas faces.
Com o tempo, a atividade subjugadora sofisticou-se e aumentou seu espectro de atuação. Com o passar dos séculos, “evoluímos” das selvas literais para as selvas de pedra, mundos de concreto e asfalto que esboçam suas dualidades. Hoje, no entanto, a selva asfáltica colapsou-se em seu inchamento descontrolado, então, fugimos para um novo ambiente, ainda selvagem, mas, desta vez, um cenário etéreo e intocável que baseia sua crueldade na sua inexistência na realidade.
Para percebemos a não evolução de nossas relações sociais, antes sua maquiavélica maquiagem, vale utilizar-se de um olhar crítico sobre as ditas – malditas e benditas – redes sociais:
Ao modo dos lobos que, quando sozinhos, utilizam-se do véu da noite para atacar suas presas, os homens – animais sociais por natureza – fazem uso do anonimato oferecido por algumas redes sociais para expor suas animosidades animalescas, seus ódios resguardados. Sem o filtro da pessoalidade, da identificação e do status social, ofensas são distribuídas a torto e a direito, geralmente sem base lógica, com o instintivo desejo de obliterar uma vida social saudável, o que configura uma ligação com o “impulso de morte” – “Tanathos”, segundo Freud – dos predadores do mundo animal.
É tempo de revisão das mesmas certezas de sempre. As mesmas máximas  ainda são válidas. Portanto, “ao vencedor, as batatas”.

domingo, 11 de novembro de 2012

Da Inutilidade da Poesia


Se perguntam a mim “Por que escrever poesia?”, vêm à tona milhares de respostas subjetivas. Subjetivas, pois não há um porquê lógico para produzir arte. A arte em si não tem fim prático. Arte é uma daquelas coisas que se faz por vontade (ou, à la Schopenhauer, Vontade de Poder), algo perto do instinto. Poesia é inútil, sempre foi.
Até aqui, não há novidades.

A questão atual é que, numa lógica absurda e mal construída, o que é inútil é imediatamente desimportante. Ou seja, hoje se algo não tem um fim prático não é importante. Vivemos no tempo da razão utilitária - onde até a racionalidade foi posta à margem do processo produtivo -, fato que explica esse desprezo não tão recente à arte. 

A constatação, porém, é que as pessoas fazem uso da poesia não por ela ser útil - pois ela não é - mas por ela ser importante - o que não depende de sua utilidade. Poesia tem uma finalidade intrínseca e pessoal, o que foge ao atual conceito de "útil". 

Poesia tem duas faces. 
Uma é apresentada ao poeta, essa é a face do desafio. É a que apresenta as palavras como meios para chegar a um fim - que é a própria Poesia. É a que permite libertação em moldes bem marcados - e por vezes burlados pelo escritor.
Outra é a apresentada ao leitor, essa é a face do descobrimento. É a que disponibiliza um campo minado, onde qualquer verso alheio pode desencadear sentimentos pessoais e intransferíveis. É o que dá ao Outro o atestado de insanidade assinado pelo paciente - que piora a cada verso.

Longe da tentativa acadêmica e falida de dar "funções" à poesia, a própria história empenha-se em provar que a poesia apresenta-se no processo cultural como algo importante, mas nunca útil. 
A poesia política de Neruda, Nobel de Literatura de 71, por exemplo, foi importante no cenário latinoamericano durante a Guerra Fria, mas não foi útil. Despertou o desejo de liberdade do povo, mas não convocou multidões às ruas.

Poesia é, portanto, inútil, mas importante. Algo impossível para as mentes adestradas e castradas. Não há fim determinado e comprovável que comporte a poesia. Poesia é vital, mas não é útil. 

Poesia...
... não é rentável.
... não vai salvar-nos do aquecimento global nem da crise financeira.
... não vai trazer-nos a solução dos problemas da sociedade contemporânea.
... não vai evitar guerras nem amenizar seus efeitos.
... não vai encontrar a cura do câncer nem da AIDS.
... não vai acabar com a fome nos países miseráveis.

E talvez até venha a fazer tudo isso, mas, se o fizer, será feito um poeta por vez, um poema por vez, um leitor por vez, uma inquietação por vez. 
Inútil totalmente inútil, mas igualmente indispensável.

sábado, 20 de outubro de 2012

20 de Outubro - Dia do Poeta

Hoje, é o dia - ainda que gratuitamente - em que comemoramos a vida - e a morte dos Poetas (e faço questão de colocar o substantivo como próprio, como Baudelaire fazia).
Então, vou tentar homenagear os poetas mais importantes na minha vida de leitor - e de poeta também.
Segue a lista:

Vinícius de Moraes
 Quem me fez começar a gostar de poesia.

Fernando Pessoa
Quem me fez crer que eu poderia escrever poesia.

Pablo Neruda
Quem me disse por que escrever poesia: "É necessário"

Manuel Bandeira
Quem me mostrou a por a complexidade em formas simples


Charles Baudelaire
Quem me disse que a poesia pode - e deve - ser transgressora

Carlos Drummond de Andrade
Quem gritou: "Nem só de suicidas viverá a poesia."


Há um poema de Sérgio Lopes que descreve bem essa saga pessoal que é ser poeta:

Poetas são, por natureza, inconformados
Com a despoesia das vidas acinzentadas;
Com o sacrifício dos amores anulados
Pelo egoísmo das pessoas mal amadas

Poetas são, por natureza, solitários
A multidão que o acompanha são seus versos
No tempo em que viver são como missionários
De um lado a outro, seus escritos são dispersos

Mas quando finalmente morrem os poetas
Surgem os críticos, editores com suas metas
De publicar cada soneto rabiscado;

E só assim o mundo aceita a poesia:
Sendo o poeta vivente, ninguém ouvia.
Quando se cala seu poema é idolatrado.


Agora, segue uma homenagem a boa parte dos grandes poetas que me fazem respirar fundo e crer que ainda há muito a escrever, e perceber, e descobrir.



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sobre os professores



Falar em professores sempre é motivo para que beiremos a pieguice e entremos numa espécie de saudosismo. E acho que não vou conseguir fugir disso.

Hoje, “professor” tem um significado mais humano, culminando às vezes em ser sinônimo de “amigo”. De início, somos – alunos e professores – inimigos mortais, pois não pode haver uma relação amistosa entre o avaliado e o avaliador, então, o educador e o educando, o erudito e a página em branco. Os grandes professores são aqueles que apagam essa imagem infantil e dicotômica da nossa cabeça.

Por vezes, o ambiente escolar é hostil e rigoroso. O professor tem o dever humano de amenizar a automaticidade das coisas, humanizar o processo. Talvez seja a voz que ecoa na primeira aula do dia que faça o adolescente voltar ao mundo real e esquecer as angústias ainda abertas do dia anterior.

E, imersos num mundo denso de alunos, avaliações e reclamações, são eles que nos conectam com um mundo totalmente exato, ortográfico, histórico, geográfico ou até artístico.

Ainda que o quadro esteja em branco, a presença de um professor que faça por merecer o título que tem faz com que o dia tenha lições inscritas de modo inesquecível. O modo próprio de ensinar a tabela de senos, de explicar o que é um isômero ou uma vegetação hidrófila, de passar as regras de acentuação gráfica, de caracterizar o cenário do pós-guerra, de expor os princípios da Semana de 22 ou até de exemplificar uma lei da física marcam a vida de um aluno.

Embora muitas vezes não pareça, nós – alunos – somos necessitados de uma risada – ou uma correção - matinal, uma regrinha a mais, um assunto novo e até uma informação que nunca usaremos na vida, porque tudo isso faz parte dessa ópera – ou dessa loteria – que é a vida.

sábado, 13 de outubro de 2012

13 de Outubro - Dia mundial do Escritor


"Para ser sincero, ser escritor é explicitar o desejo quase pecaminoso de ser Deus nem que por uma ou duas páginas." (C.P.)


E são tantos os que me fizeram fugir um pouco da realidade causticante - que é a vida. O escritor é - acima de tudo - um corajoso, que ousa expor-se através de seus personagens, sim, porque não há personagem que não seja uma face do escritor.
Escritores entendem que não há heróis nem vilões, ao menos, não separadamente - está tudo em nós. Sempre há um pouco de Capuleto num Montecchio. 
Loucos. Entre o ser e o não ser, eis o escritor. O escritor é o pervertido que fica nu no palco, mas não tira a máscara.
Mais que um contador de histórias, o escritor é aquele que se põe como atravessador entre o real e o surreal, entre o ridículo e o sóbrio, entre a mocinha chorona e a leitora sonhadora.

"Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as ideias." (Pablo Neruda, porque ele sabe o que fala)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Chico Xavier, o maior brasileiro de todos os tempos?


O povo decidiu... Chico Xavier é - até segunda instância - o maior brasileiro de todos os tempos. O país manteve-se bem alheio à competição - talvez por ter ocorrido no SBT, e não na Globo - e o resultado foi esse.
O processo seletivo já profetizava o desastre com Luan Santana à frente de Chico Buarque e Elis Regina, Neymar à frente de Chico Mendes e Oswaldo Cruz, Gugu à frente de Carlos Drummond de Andrade... e Ronaldo Fenômeno mais bem colocado que todos eles. [É, não iria dar certo]
Os finalistas foram até bem escolhidos: 5 políticos (Lula, FHC, JK, Getúlio Vargas e Princesa Isabel), 2 esportistas (Ayrton Senna e Pelé), 2 religiosos (Irmã Dulce e Chico Xavier), 1 revolucionário (Tiradentes), 1 inventor (Santos Dumont) e 1 arquiteto (Oscar Niemeyer).
Confesso que, ao ver os finalistas, pensei que o eleito seria Lula (por sermos um povo sem memória e este ser bem recente) ou Getúlio Vargas (por toda uma imagem criada em volta dele... "pai dos pobres"). 
Pois bem, falhei! Não pensei que o projeto fosse ser guiado por massas tão tendenciosas.
O primeiro "embate" do Chico Xavier foi contra a Irmã Dulce. Ele venceu por diferença ínfima, mas venceu, e daí foi até a final irrefutável.
A final foi entre Santos Dumont, Princesa Isabel e o próprio Chico Xavier. Torci por Santos Dumont por bons motivos:
1- A obra do Santos Dumont não se restringiu ao Brasil, antes possibilitou maravilhas ao mundo.
2- A princesa Isabel não fez muita coisa. Assinou um documento que já estava pronto (que era incompleto, malfeito...) e ela nem assumiu, estava "tapando o buraco" na ausência do pai.
3- Para que um religioso venha a ser o maior nome de um país, ele deve ter uma obra social e política muito forte e ampla - que chegue a romper os limites da religião (o caso de Dom Helder Câmara). E Chico Xavier não teve vida nem obra de grande importância para o Brasil enquanto país e conjuntura social.
4- Enfim, por eliminação e admiração, Santos Dumont.

Bom... Não há o que fazer. 
A Itália escolheu Leonardo da Vinci (artista destacado do Renascimento Cultural, além de inventor). A França, Charles de Gaulle (Militar na Segunda Guerra e posteriormente governante do país). A Inglaterra, Winston Churchill (Grande nome inglês na Segunda Guerra, escritor e historiador). A África do Sul, Nelson Mandela (Extinguidor da legalidade do sistema de "apartheid"). E o Brasil... ah, o Brasil... escolheu Chico Xavier (médium).

Nunca esperei muito de nós, mas fiquei decepcionado!

sábado, 1 de setembro de 2012

Minha Entrevista à Rádio Sarau




No mês passado, gravei uma entrevista a um professor (e grande amigo), Leandro Alekrin. A entrevista foi transmitida pela Rádio Sarau no programa Pernambucolismo (apresentado pelo próprio Alekrin). 
Foi ótimo gravar a entrevista. Superdivertido. A entrevista é sobre o E018 e sobre minha relação com o blog: seu início, seu meio e seu não-fim.
Espero que gostem!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Devaneio #9



"E, quando se está com uma ideia pra poema na cabeça, tudo vira objeto de profunda e humana análise... a porta torna-se portal e o vidro o mais belo e bizantino vitral. A poesia habita e coabita e faz-se onipresente. - Ai, que perseguição!"
C.P.

sábado, 21 de julho de 2012

Uma Espetacular "Meia-Noite em Paris"


A correria do cotidiano priva-nos de muitas coisas incríveis e as férias trazem-nos boas surpresas. Falo isso por experiência própria.
Quando "Meia-noite em Paris" entrou nos cinemas, eu estava em plena semana de provas e não pude ir assistir - mas não sofri com isso. Passaram-se muitos meses (creio que mais de um ano)...
Ontem, fui à locadora e encontrei por graça da existência o DVD do filme. Fui correndo para casa para assistir... É incrível!

Toda pessoa que produz arte sai do filme com certeza de que sua desconformidade lhe faz bem. Com um gancho fantasioso - o sonho de todo amante de arte -, Gil (Owen Wilson) entende, através do novo cenário - formado pelo ar artístico de Paris da década de 20 -, que para fazer arte deve-se vivê-la.
Numa narrativa bem construída, em que aparecem Picasso, Cocteau, Stein, Hemingway, Gauguin, Degas e muitos outros gênios que viveram em Paris, Woody Alen discursa sutilmente sobre ser artista.
Ser artista é acreditar nas próprias loucuras e nas próprias obras. Longe da superficialidade, o humor do filme não é fácil e a mensagem não é comum. 

Nunca foi tão incrível ouvir a arte falar sobre arte de modo tão próximo dos artistas... famosos ou não. 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Prefixos


Odeio prefixos.
Desvirtuadores da palavra.
Morfemas ingratos.


Odeio-os
principalmente
quando fazem-me infeliz.
Odeio-os.
Quando fazem
meus sorrisos desaparecerem.
Quando fazem da 
vida algo incompreensível.
Quando me tentam 
a escrever sobre o indescritível.
Odeio-os.


Odeio os erros recorrentes;
os comentários incoerentes;
os choros incessantes;
os traumas indeléveis;
as falas insondáveis;
os desejos inacessíveis.
Odeio-os.


Uma vez,
eu quisera ser mágico,
poder mudar palavras.
Fazer-me feliz.
Fazer aparecer sorrisos.
Compreender a vida.
Descrever a existência.


Mas,
talvez, eu reincidisse inerrante,
tudo relembrado, tudo intocado,
tudo desacompanhado numa infelicidade.
Ou talvez,
eu incidisse errante,
tudo lembrado, tudo tocado,
tudo acompanhado numa felicidade.


A minha felicidade - longe de qualquer prefixo.


Raul Cézar de Albuquerque
11/05/2012

terça-feira, 17 de abril de 2012

Faz de Conta



Mas,
por que fazemos questão
de fazer de conta
que o faz de conta
nunca aconteceu?


Mesmo sabendo
que aqui - ou aí - dentro
plebeus foram príncipes
- sapos também.
Ou até que moças simples
vestiram-se de linho e ouro
- foram princesas, 
nem que por uma semana,
ou por um mês, 
ou ainda são princesas.


Às vezes,
crer no faz de conta,
faz tão bem para
o coração...
Suspirar por plebeias
como se fossem princesas.
E elas olhando sapos 
como se fossem príncipes.


Enquanto houver tempo,
haverá faz de conta.
E não há motivo 
para duvidarmos
que os faz de conta
existem.
Pois, 
para nossa felicidade,
eles existem.


Só não poderemos 
discernir o real do faz de conta
- só quando a história acaba,
e o príncipe volta a ser sapo,
e a princesa volta a ser fiadeira,
a ser parte da paisagem,
a ser rejeitável,
a ser ignorável.


(E o faz de conta acaba,
 assim, parte de nossa vida
 - ilusão -
 enterra-se com ele,
 some, esvai-se, 
 resta apenas a dor
 de saber que não passou de faz de conta.)


Raul Cézar de Albuquerque
17/04/2012
Dedicado a Thaís S. S. Gomes (que me deu a ideia do poema)

domingo, 1 de abril de 2012

Devaneio #8




"E, quando eu escrevo, eu não o faço para que as pessoas me leiam, mas para que eu possa me ler." (C.P.)

sábado, 31 de março de 2012

Insônia...


Este não é um poema sobre insônia.
Este poema é uma insônia.
A vida é uma insônia.


Aliás,
a vida é a maior das insônias.
É esta resistência em dormir.
Em deixar-se perder nos sonhos.
Entregar-se ao ilógico - ao inconsciente.


Viver é manter os olhos abertos
- mesmo que a visão seja perturbadora -
- pois o dormir é uma perturbação incógnita 
que pode não ser uma pertubação,
mas é uma incógnita, 
por isso nos perturba.


A poesia é um modo de aliviar a insônia.
É experimentar algumas vezes o dormir da existência.
O verso não passa de um cochilo.
O poema é o leve fechar dos olhos 
no meio da noite fria - que quer nos fazer dormir.
E o poeta é o que dorme
por não querer dormir.


Raul Cézar de Albuquerque
31/03/2012

sexta-feira, 30 de março de 2012

Insanidade Emocional


Seguindo novos pedidos tentei escrever sem rimas, agora baseado na poesia do Álvaro de Campos, este seguiu mais o meu estilo, mesmo sem a estrutura de sempre... Gostei da tensão e da loucura meio racional presentes no poema! Fiquem com Insanidade Emocional...


Sim. Eu sou louco.
Cheguei a esta conclusão,
não pelo que tenho feito,
mas pelo que tenho pensado.


Depois de perceber-me em queda
(não em queda livre,
pois liberdade não é algo que vem me acometendo.)
eu vi que não estou preocupado com o fim da queda.


Eu deveria estar assustado
com a ideia de ver-me caindo
e esfarelar-me ao encontrar o assoalho
dissipando-me na forma de mil letras. 
Mas eu tenho pensado que,
pouco antes do toque entre eu e o meu fim,
alguma espécie de antigravidade atuará
e me fará subir a alturas
nunca antes cogitadas, muito menos visitadas.


Por isso permaneço em queda,
para ascender. 
Mas acho não só para isso!
(Há um prazer no cair que o subir não explica
não retrata nem atinge... 
A queda em si, não é queda.
É um período de adaptação 
para que a ascensão não traga efeitos colaterais.
Por isso - acho - que sigo caindo).


Raul Cézar de Albuquerque
30/03/2012

sábado, 24 de março de 2012

Sons de Guerra...

 

No mesmo clima do "Vozes Inexistentes", escrevo um poema sobre guerra e sobre silêncio... gostei muito do poema... Ele fluiu sincero, embora hermético (para mim)... Fiquem com Sons de Guerra:

Urros e explosões.
Balas de canhões.

Muitos gritos de dor.
Armas à todo vapor.

Choro de mulheres e mães.
(Inglesas, russas ou alemãs)

- Geralmente se pensa nisso,
quando se fala de guerra.
Esquece-se de quem foi omisso
e se abre os ouvidos a quem berra.

O problema é que não entendemos
que a guerra não se expressa nos gritos.
A verdade é que não queremos
entender que a guerra inutiliza os ouvidos.

Na guerra, algo só serve para uma função:
ou morrer, ou sumir, ou matar.
Na guerra, não há lógica, catarse ou emoção.
Corações só servem para parar.
Cabeças só servem para rolar.

Na guerra, há barulho, mas é decorativo.
A guerra em si não emite som.
Ela está na inércia das vozes, no uso do curativo
e na distorção do que é bom.

Então, quando houver um bombardeio intenso.
Independente do teu lado,
Lembra-te de que o som da guerra é silêncio.
Por isso permaneço calado.

Raul Cézar de Albuquerque
24/03/2012

terça-feira, 13 de março de 2012

Rumo à Felicidade...

"Caminhante, não há caminhos.
  Faz-se o caminho ao caminhar." 
     (Antonio Machado)
 

Felicidade, na verdade, é uma cidade.
Felicidade é um lugar disponível aos mortais.
A parte boa é que é um lugar de verdade.
A parte ruim é que é um lugar longe demais.

É longe de Comodismo e de Preocupação.
Uns dez sorrisos após Normalidade.
Para Felicidade, não há trem ou avião.
Há a caminhada. Há caminhos, na realidade.

Há muitos e variados caminhos a seguir.
Mas se queres chegar lá antes de tua morte.
Teu próprio caminho deves abrir.
Seguindo tua cegueira, que é teu norte.

Para de tentar abrir os olhos buscando luz.
Deixa a janela fechada e olha para tua escuridão.
Observa teu tom, teu choro e tua cruz.
Esta que carregas com tanta lentidão.

Leva tudo o que tens e parte pra Felicidade.
Não temas ao encontrar montanhas nem arvoredos.
Segue. Segue sempre pensando naquela cidade.
Onde serão extintos teus fardos e teus medos.
Segue. Segue andando para longe de Austeridade.
Segue, pois lá serão inúteis teus segredos.

Mas se no meio do caminho te desanimares.
Se a chegada não parecer tão especial.
Peço encarecidamente que não pares.
Chegar lá não é capricho, é essencial.
Lembra-te de que lá é tua cidade natal.

Raul Cézar de Albuquerque
13/03/2012

sábado, 10 de março de 2012

Respingos de Genialidade #3



"A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz."


Sigmund Freud

sexta-feira, 2 de março de 2012

SAÍDA


A ideia do corredor me surgiu numa reportagem sobre o precário atendimento em hospitais (bla-bla-bla), mas a ideia do corredor me fascinou. Ele era o caminho entre o sofrimento interno (dentro do hospital) para a felicidade plena (a porta "Saída")... Fiquem com a Saída...

O corredor está muito movimentado.
Muitas pessoas esbarram em mim.
E eu já estou ficando bem cansado,
estou pensando em sair, simples assim.

Nem tão simples pra falar a verdade.
Eu vejo uma porta ao fim do corredor.
Mas seria ela a porta pra felicidade?
Ou, indo até lá, estaria correndo para a dor?

E eu estou buscando um alívio, um alento.
Estou tentando me livrar desta dor de existir.
Esta dor que me importuna a todo momento.
Esta dor que me impede de rir, me faz fingir.

Faz-me fingir a minha existência.
E a existência da minha felicidade.
Faz-me esconder a latência 
desta dor que, sem dúvida, é de verdade.

Lembrando da dor, sigo até a porta.
Sigo com dificuldade notável.
Em cada olhar, uma expressão morta.
Em minha vida, um vazio inefável.

E cada passo é um sofrimento.
Mas continuo caminhando sem medo.
Surge uma lágrima a cada pensamento.
Eu desconheço o meu segredo.

Enxugo os olhos rapidamente. Não posso parar.
Ao chegar perto da porta, leio nela "Saída".
Esboço um sorriso, mas, logo ao pensar,
lembro-me de que pode ser só mais uma ferida.
Mas inexplicavelmente não paro de caminhar.
Eu explico: Poderia ser uma nova vida.

Raul Cézar de Albuquerque
02/03/2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Invitation au voyage (de Mário Quintana)



 X


"Se cada um de nós, ó vós outros da televisão

- vós que viajais inertes
como defuntos num caixão -
se cada um de vós abrisse um livro de poemas…
faria uma verdadeira viagem…
Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!
- Inclusive o amor e outras novidades."


Mário Quintana