Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

Mostrando postagens com marcador Neruda. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Neruda. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O "crepúsculo" de Pablo Neruda


Ninguém nasce Pablo Neruda - nem o próprio Pablo Neruda nasceu Pablo Neruda. 

Explico: o nome "real" de Neruda é Neftalí Ricardo Reyes Basoalto (o pseudônimo e seu motivo nunca foram bem explicados pelo escritor)

A grandiosidade alcançada pelo poeta chileno no auge de sua produção é resultado, não de um milagre, mas de um processo. Quem lê "Residência na terra" há de entender que antes do meio-dia sempre há uma manhã crepuscular, assim sendo, Pablo Neruda inicia-se na literatura com um livro profético: "Crepusculário".

Crepusculario. Pablo Neruda

O livro reúne os poemas escritos por Neruda entre os dezesseis e os dezessete anos, quando, segundo o próprio, escrevia entre dois e cinco poemas diariamente. Já no "Início" (primeiro poema do livro), o precoce gênio avisa:

"Fecho, fecho os lábios, mas em rosas frementes
se desata minha voz, como água na fonte.

Que não são pomposas, que não são fragrantes,
são as primeiras rosas - irmão caminhante -
de meu desconsolado jardim adolescente."

A primeira publicação consta de 1923, quando o iniciante Neruda ainda publicava avulsamente em jornais e revistas, e é dividida em "capítulos". 
O primeiro é Helios. Nele, tomam destaque os questionamentos sobre Deus (observado com ênfase em "Pantheos"), sobre o tempo (como em "Velho cego, choravas") e sobre o amor (em "Novo soneto para Helena"), mas em todos vê-se uma forte influência parnasiana e surrealista:

"Se quiseres não nos diga de que ramo somos,
não nos diga quando, nem nos diga como,
mas nos diga para onde nos levará a morte..."
(trecho de Pantheos)

"Porque se tu conheces o caminho que leva 
em dois ou três minutos para a vida nova,
velho cego, o que esperas, o que podes esperar?"
(trecho de Viejo ciego, llorabas)

"E será tarde, porque se foi minha adolescência,
tarde porque as flores uma vez só dão essência
e porque ainda que me chames estarei tão longe..."
(trecho de Novo soneto para Helena)


O segundo é Fareweel, y los sollozos. Nele, o amor toma destaque, mas o aspecto parnasiano perde força, dando espaço para uma forte carga surrealista, na temática, e modernista, na estética. Farewell, que parece ser o poema central (e titular) do capítulo, destaca-se como uma carta - interrompida por parênteses literais.

"(Amo o amor dos marinheiros
que beijam e se vão.

Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e se vão.

Uma noite se encostam na morte
no leito do mar.

(4)

Amo o amor que se reparte
em beijos, leito e pão.

Amor que pode ser eterno
e pode ser fugaz.

Amor que quer libertar-se 
para voltar a amar.

Amor divinizado que se achega.
Amor divinizado que se vai.)"
(Trecho de Farewell)

"Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como ninguém soube jamais!
Morrer e ainda 
amar-te mais.
E ainda 
amar-te mais
                       e mais."
(Trecho de Amor)

" Amor - chegado que tenhas
  a minha fonte distante,
  torce-me as vertentes,
  crispa-me as entranhas.
E assim uma tarde - amor de mão crueis -,
ajoelhado, te agradecerei."
(Trecho de Grita)

O terceiro é Los Crepusculos de Maruri. Segundo o próprio Neruda, os poemas desse capítulo foram escritos por ele enquanto admirava os poentes. Eles focam nos devaneios advindos dessa contemplação e são tomados pelo experimentalismo modernista.

"A tarde sobre os telhados
cai
e cai...
Quem lhe disse que viesse
asas de ave?

E este silêncio que enche
   tudo,
de que país de astros
   veio só?
E por que esta bruma
   - pluma trêmula -
beijo de chuva
   - sensitiva -

caiu em silêncio - e para sempre -
   sobre minha vida?"
(Poema La tarde sobre los tejados)

"Minha alma é um carrossel vazio no crepúsculo..."
(Poema Mi alma)

"Minhas alegrias nunca saberás, maninha,
e esta é a minha dor, não as posso te dar:
vieram como pássaros a pousar em minha vida,
uma palavra dura as faria voar."
(Trecho de Hoy, que es el cumpleaños de mi hermana)


O quarto capítulo é Ventana al camino. Nele, o surrealismo ganha força total e as metáforas - quase herméticas - tomam os poemas.

"Entretanto é tão vasto céu
e roda o tempo, entretanto.
Estender-se e deixar-se levar
por este vento azul e amargo!..."
(Trecho de Playa del Sur)

"Ela - a que me amava - morreu na Primavera.
Recordo ainda seus olhos de pomba em desconsolo.

Ela - a que me amava - fechou os olhos. Tarde.
Tarde de campo, azul. Tardes de asas e voos."
(Trecho de Poema en diez versos)

O quinto capítulo é Pelleas e Melisanda. Não por acaso, referência à opera de Claude Debussy. Esse capítulo põe-se como releitura da obra, um diálogo entre os personagens.

"Melisanda
Em teus braços, enredam-se as estrelas mais altas.
Tenho medo. Perdoa-me por não ter chegado antes.

Pelleas
Um sorriso teu apaga todo um passado:
guardem teus lábios doces o que já está distante.

Melisanda
Em um beijo, saberás tudo o que calei."
(Trecho de Melisanda e Pelleas)


O sexto e último capítulo é Final.

"Vieram palavras, e meu coração,
incontível como um amanhecer,
rompeu-se me palavras e se apegou ao voo,
e em suas fugas heroicas levam-no e arrastam-no,
abandonado e louco, e esquecido debaixo delas

como um pássaro morto debaixo de suas asas."
(Trecho final de Final)

VIVA NERUDA!

(todos trechos destacados foram traduzidos por Raul Albuquerque)

domingo, 17 de março de 2013

"Artes Poéticas (II)" de Pablo Neruda


Não descobri nada eu,
já tudo estava descoberto
quando passei por este mundo.
Se regresso a estes lados
peço aos descobridores
que me guardem alguma coisa,
um vulcão que não tenha nome,
um madrigal desconhecido,
a fonte de um rio secreto.

Fui sempre tão aventureiro
que nunca tive uma aventura
e as coisas que descobri
estavam dentro de mim mesmo,
de tal modo que defraudei
a Juan, a Pedro e a Maria,
porque por mais que tenha me esforçado
não pude sair de minha casa.

Contemplei com inveja intensa
a inseminação incessante,
o ciclo dos satélites,
o acréscimo de esqueletos,
e na pintura vi passar
tantas maneiras fascinantes
que apenas me pus na moda
já aquela moda não existia.

Poema "Artes Poéticas (II)" de Pablo Neruda
Escrito em Isla Negra, e publicado no livro "Fin del mundo", em 1969.
Traduzido por Raul Albuquerque

sábado, 2 de fevereiro de 2013

"Exilios" (de Pablo Neruda)


Uns por haver rechaçado
o que não amavam de seu amor,
porque não aceitaram mudar 
de tempo, mudaram de terra:

suas razões eram suas lágrimas.

E outros mudaram e venceram
seguindo com sua história.

E também tinham razão.

A verdade é que não há verdade.

Mas eu em meu canto cantando
vou, e me contam os caminhos
todos quantos viram passar
neste século de homens sem pátria.
E o poeta segue cantando
tantas vitórias e dores
como se este pão turbulento
que comemos, os desta era,
talvez foi amassado com terra
debaixo de pés ensanguentados,
talvez foi amassado com sangue
o triste pão da vitória.

Poema "Exilios".
Escrito por Pablo Neruda, em Isla Negra, em 1969.
Publicado no livro "Fin del mundo", em 1969.
Traduzido por Raul Albuquerque

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

"Metamorfosis" (de Pablo Neruda)


Recebi um pontapé
do tempo e desordenou-se
a triste gaveta da vida.
A hora se atravessou
como doze perdizes pardas
em um caminho poeirento
e o que antes foi uma
passou a ser oito e quarenta
e o mês de abril retrocedeu
até transformar-se em novembro.

Os papeis se me perderam,
não se encontravam os recibos,
encheram-se as lixeiras
com nomes de contribuintes,
com instruções de advogados
e números de gostosas.

Foi uma catástrofe silenciosa.

Começou tudo num domingo
que em vez de sentir-se dourado
se arrependeu da alegria
e se portou tão lentamente
como uma tartaruga na praia
não chegou nunca à segunda-feira.

Ao despertar-me encontrei-me
mais descabelado que nunca,
sem precedentes, esquecido
em uma semana qualquer,
como uma maleta em um trem
que viajara a nenhuma parte
sem condutor nem passageiros.

Não era sonho porque se ouviu
um mugido longo de vaca
e logo trouxeram leite
com calor ainda das úberes,
além mais me rodeava 
um espetáculo celeste:
a travessura dos pássaros
entre as folhas e a névoa.

Mas o sério desse assunto
é que não continuava o tempo.
Tudo seguia sendo sábado
até que a sexta-feira aparecia.

Aonde vou? Aonde vamos?
A quem poderia consultar?

Os monumentos caminhavam
para trás, empurrando o dia
como guardas inexoráveis.
E desmoronava para ontem
todo o horário do relógio.

Não posso mostrar à gente
minha coleção de calafrios:
senti-me só em uma casa
perfurada por goteiras
de um aguaceiro definitivo
e para não perder o tempo,
que era o único perdido,
rompi as últimas lembranças,
despedi-me de minha farmácia,
joguei ao fogo os talões,
as cartas de amor, os chapéus,
e como quem se atira ao mar
eu me atirei contra o espelho.

Mas já não me pude ver.
Sentia que se me perdia
o coração precipitado
e meus braços diminuíram,
desmoronou-se minha altura,
a toda velocidade
se me borravam os anos,
voltaram os meus cabelos,
meus dentes apareceram.

Em um fulgor passei minha infância,
segui contra o tempo na pista
até que não vi de mim mesmo,
de meu retrato no espelho
apenas uma cabeça de mosca,
um microscópico óvulo
voltando outra vez ao ovário.

Poema "Metamorfosis" de Pablo Neruda.
Escrito em Isla Negra, em 1969. Publicado em "Fin de Mundo" em 1969.
Traduzido por Raul Cézar de Albuquerque.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A Poesia (de Pablo Neruda)

Pablo Neruda em Isla Negra, Chile

E foi a essa idade... Chegou a poesia
a procurar-me. Não sei, não sei de onde
saiu, de inverno ou rio.
Não sei como nem quando,
não, não eram vozes, não eram
palavras, nem silêncio,
mas de uma rua me chamava,
dos ramos da noite,
de repente entre outros,
entre fogos violentos
ou regressando só,
ali estava sem rosto
e me tocava.

Eu não sabia o que dizer, minha boca
não sabia
nomear,
meus olhos eram cegos,
e algo golpeava minha alma,
febre ou asas perdidas,
e me fui fazendo só,
decifrando
aquela queimadura,
e escrevi a primeira linha vaga,
vaga, sem corpo, pura
tolice,
pura sabedoria
do que não sabe nada,
e vi logo
o céu 
descascado
e aberto,
planetas,
plantações palpitantes,
a sombra perfurada,
cravada
por flechas, fogo e flores,
a noite esmagadora, o universo.

E eu, mínimo ser,
ébrio do grande vazio
constelado,
a semelhança, a imagem
do mistério,
me senti parte pura
do abismo,
rodei com as estrelas,
meu coração se desatou no vento

Poema "La Poesía" de Pablo Neruda.
Publicado em "Memorial de Isla Negra" em 1964.
Fielmente traduzido por Raul Cézar de Albuquerque.

sábado, 20 de outubro de 2012

20 de Outubro - Dia do Poeta

Hoje, é o dia - ainda que gratuitamente - em que comemoramos a vida - e a morte dos Poetas (e faço questão de colocar o substantivo como próprio, como Baudelaire fazia).
Então, vou tentar homenagear os poetas mais importantes na minha vida de leitor - e de poeta também.
Segue a lista:

Vinícius de Moraes
 Quem me fez começar a gostar de poesia.

Fernando Pessoa
Quem me fez crer que eu poderia escrever poesia.

Pablo Neruda
Quem me disse por que escrever poesia: "É necessário"

Manuel Bandeira
Quem me mostrou a por a complexidade em formas simples


Charles Baudelaire
Quem me disse que a poesia pode - e deve - ser transgressora

Carlos Drummond de Andrade
Quem gritou: "Nem só de suicidas viverá a poesia."


Há um poema de Sérgio Lopes que descreve bem essa saga pessoal que é ser poeta:

Poetas são, por natureza, inconformados
Com a despoesia das vidas acinzentadas;
Com o sacrifício dos amores anulados
Pelo egoísmo das pessoas mal amadas

Poetas são, por natureza, solitários
A multidão que o acompanha são seus versos
No tempo em que viver são como missionários
De um lado a outro, seus escritos são dispersos

Mas quando finalmente morrem os poetas
Surgem os críticos, editores com suas metas
De publicar cada soneto rabiscado;

E só assim o mundo aceita a poesia:
Sendo o poeta vivente, ninguém ouvia.
Quando se cala seu poema é idolatrado.


Agora, segue uma homenagem a boa parte dos grandes poetas que me fazem respirar fundo e crer que ainda há muito a escrever, e perceber, e descobrir.



sábado, 13 de outubro de 2012

13 de Outubro - Dia mundial do Escritor


"Para ser sincero, ser escritor é explicitar o desejo quase pecaminoso de ser Deus nem que por uma ou duas páginas." (C.P.)


E são tantos os que me fizeram fugir um pouco da realidade causticante - que é a vida. O escritor é - acima de tudo - um corajoso, que ousa expor-se através de seus personagens, sim, porque não há personagem que não seja uma face do escritor.
Escritores entendem que não há heróis nem vilões, ao menos, não separadamente - está tudo em nós. Sempre há um pouco de Capuleto num Montecchio. 
Loucos. Entre o ser e o não ser, eis o escritor. O escritor é o pervertido que fica nu no palco, mas não tira a máscara.
Mais que um contador de histórias, o escritor é aquele que se põe como atravessador entre o real e o surreal, entre o ridículo e o sóbrio, entre a mocinha chorona e a leitora sonhadora.

"Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as ideias." (Pablo Neruda, porque ele sabe o que fala)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Primeira Viagem (de Pablo Neruda)


Para expressar algo sobre o dia dos infantos, decidi publicar um poema autobiográfico do Neruda (porque ele é demais) que remete a essa fase tão... desbravadora da vida.

Não sei quando chegamos a Temuco.
Foi impreciso nascer e foi tardio
nascer de verdade, lento
e apalpar, conhecer, odiar, amar,
tudo isso tem flor e tem espinhos.
Do peito poeirento da minha pátria
levaram-me sem fala
até a chuva da Araucanía.
As tábuas da casa
cheiravam a bosque,
a selva pura.
Desde então meu amor
foi madeireiro
e o que toco se converte em bosque.
A mim, confundem-se
os olhos e as folhas,
certas mulheres e a primavera
de avelã, o homem e a árvore,
amo o mundo do vento e da folhagem,
não distingo lábios e raízes.

Do machado e da chuva foi crescendo
a cidade madeireira
recém-cortada como
nova estrela com gotas de resina,
e o serrote e a serra
se amavam noite e dia
cantando,
trabalhando,
e esse som agudo da cigarra
levantando um lamento
na obstinada solidão, regressa
ao próprio canto meu:
meu coração segue cortando o bosque,
cantando com as serras na chuva,
moendo o frio e serragem e aroma.

"Primer Viaje"
Escrito por Pablo Neruda, em Valparaíso, em 1961(?).
Publicado em "Memorial de Isla Negra", em 1964.
Fielmente traduzido por Raul Cézar de Albuquerque

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Casa (de Pablo Neruda)


Hoje, 12 de junho de 2012, completam-se 108 anos do nascimento deste que nunca será esquecido nem igualado: Pablo Neruda. Admiro Neruda como admiro pouquíssimos poetas, o chileno tem coisas indescritíveis em sua poesia. Para mim, ler Neruda é um momento de encontro com os eus que ele conseguiu descrever com perfeição. Em homenagem ao gênio Neruda...

Talvez esta é a casa em que vivi,
quando eu não existi nem havia terra,
quando tudo era lua ou pedra ou sombra,
quando a luz imóvel não nascia.
Talvez então esta pedra era 
minha casa, minhas janelas ou meus olhos.
Lembra-me esta rosa de granito
algo que me habitava ou que habitei,
cova ou cabeça cósmica de sonhos,
taça ou castelo ou navio ou nascimento.
Toco o firme esforço da rocha,
seu baluarte golpeado pela salmoura,
e sei que aqui ficaram brechas minhas,
enrugadas substâncias que subiram
desde as profundezas até minha alma,
e pedra fui, pedra serei, por isso
toco esta pedra e para mim não morreu:
é o que fui, o que serei, repouso
de um combate tão longo quanto o tempo

Poema "Casa", escrito por Pablo Neruda.
Publicado no jornal "El Nacional" em 29.05.1960.
Traduzido fielmente por Raul Cézar de Albuquerque.

domingo, 1 de julho de 2012

"Testamento de Otoño" (de Pablo Neruda)


- Trecho Final -


De tantas vezes que nasci
tenho uma experiência salobre
como criatura do mar
com celestiais atavismos
e com destino terrestre.
Enquanto se resolvem as coisas
aqui deixei meu testemunho,
meu navegante estravagario
para que lendo-o muito
ninguém pudesse aprender nada,
mas o movimento pertétuo
de um homem claro e confundido,
de um homem chuvoso e alegre,
enérgico e outonal.


E, agora, atrás desta folha
me vou e não desapareço:
darei um salto na transparência
como um nadador do céu,
e logo voltarei a crescer
até ser tão pequeno um dia
que o vento me levará
e não saberei como me chamo
e não serei tão desperto:


Então, cantarei em silêncio.


Poema "Testamento de Otoño" de Pablo Neruda.
Escrito e Publicado em 1958, no livro "Estravagario".
Fielmente traduzido por Raul Cézar.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Onde estará Guilhermina? (de Pablo Neruda)



Onde estará Guilhermina?


Quando minha irmã a convidou
e eu saí para abrir-lhe a porta,
entrou o sol, entraram as estrelas,
entraram duas tranças de trigo
e dois olhos intermináveis.


Eu tinha quatorze anos
e era orgulhosamente escuro,
magro, firme e franzino,
funeral e cerimonioso:
eu vivia com as aranhas,
umedecido pelo bosque,
conheciam-me os besouros
e as abelhas tricolores,
eu dormia com as perdizes
submergido na hortelã.


Então entrou Guilhermina
com dois relâmpagos azuis
que me atravessaram o cabelo
e me cravaram como espadas
contra os muros do inverno.
Isto aconteceu em Temuco.
Lá, ao Sul, na fronteira.


Passaram lentos os anos
pisando como elefantes,
latindo como raposas loucas,
passaram impuros os anos
crescentes, desgastados, mortos,
e eu andei de nuvem em nuvem,
de terra em terra, de olho em olho,
enquanto a chuva na fronteira
caía, com a mesma roupa.


Meu coração caminhou
com intransferíveis sapatos,
e digeriu espinhas:
não teve trégua onde esteve:
onde eu peguei me pegaram,
onde me mataram caí
e ressuscitei com leveza,
e logo e logo e logo e logo,
é tão longo contar as coisas.


Não tenho nada a acrescentar.


Vim para viver neste mundo.


Onde estará Guilhermina?




Poema "Dónde estará la Guillermina?" de Pablo Neruda.
Escrito e Publicado em 1958, no livro "Estravagario".
Fielmente traduzido por Raul Cézar de Albuquerque.

sábado, 21 de abril de 2012

Respingos de Genialidade #13



"Eu sou professor da vida,
vago estudante da morte
e, se o que sei não lhes serve,
não disse nada, e sim tudo."


Pablo Neruda, em "No tan alto", no livro "Estravagario".

Ponto (de Pablo Neruda)


Não há espaço mais amplo que a dor,
não há universo como aquele que sangra.


Poema "Punto", de Pablo Neruda.
Escrito em 1957. Publicado no livro "Estravagario" em 1958.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

"Peço Silêncio" de Pablo Neruda

Pintura de Gustave Caillebote


Agora, me deixem tranquilo.
Agora, se acostumem sem mim.


Eu vou fechar os olhos.


E só quero cinco coisas,
cinco fontes preferidas.


Uma é o amor sem fim.


O segundo é ver o outono.
Não posso ser sem que as folhas
vão e voltem a terra.


O terceiro é o grave inverno,
a chuva que amei, a carícia
do fogo no frio silvestre.


Em quarto lugar, o verão
redondo como uma melancia.


A quinta coisa são teus olhos,
Matilde minha, bem-amada,
não quero dormir sem teus olhos,
não quero ser sem que me olhes:
eu mudo a primavera 
porque tu me segues olhando.


Amigos, isso é o que quero.
É quase nada e quase tudo.


Agora, se querem podem ir.


Vivi tanto que um dia
terão que esquecer-me por força,
apagando-me do quadro:
Meu coração foi interminável.


Mas, por que peço silêncio
não creiam que vou morrer-me:
me passa todo o contrário:
acontece que vou viver-me.


Acontece que sou e que sigo.


Não será, pois, só que aqui dentro
de mim cresceram cereais,
primeiro os grãos que rompem
a terra para ver a luz,
mas a mãe-terra é escura:
e dentro de mim sou escuro:
sou como um poço em cujas águas
a noite deixa suas estrelas
e segue só pelo campo.


Se trata de que tanto vivi
que quero viver outro tanto.


Nunca me senti tão sonoro,
nunca tive tantos beijos.


Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.


Deixem-me só com o dia.
Peço permissão para nascer.


Poema "Pido Silencio" de Pablo Neruda.
Escrito em agosto de 1957. Publicado em 1958, no livro "Estravagario".
Fielmente traduzido por Raul Cézar de Albuquerque.

sábado, 7 de abril de 2012

"Ode a umas Flores Amarelas" de Pablo Neruda



Contra o azul movendo seus azuis,
o mar, e contra o céu,
umas flores amarelas.


Outubro chega.


E ainda que  seja
tão importante o mar desenvolvendo
seu mito, sua missão, seu fermento,
explode 
sobre a areia de ouro
uma só 
planta amarela
e se amarram
teus olhos à terra,
fogem do magno mar e seus batimentos.


Pó somos, seremos.


Nem ar, nem fogo, nem água
e sim
terra
só terra
seremos
e talvez
umas flores amarelas.


"Oda a unas flores amarillas", de Pablo Neruda.
Escrito em Caracas, Venezuela, em 14/07/1957.
Publicado em "Tercer libro de las odas", de 1957.
Poema traduzido fielmente por Raul Cézar de Albuquerque.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Respingos de Genialidade #9



"Ah viajante,
não é névoa,
nem silêncio,
nem morte,
o que viaja contigo,
e sim
tu mesmo com tuas muitas vidas."


Pablo Neruda, em "Ode ao caminho"

domingo, 11 de março de 2012

Ode ao Dia Feliz (de Pablo Neruda)



Desta vez deixa-me
ser feliz,
nada passou a ninguém,
não estou em parte alguma,
acontece somente
que sou feliz
pelos quatro lados 
do coração, andando
dormindo ou escrevendo.
O que vou fazer-te, sou
feliz.
Sou mais inumerável
que o pasto
nas pradarias,
sinto a pele como uma árvore rugosa
e a água abaixo,
os pássaros acima, 
o mar como um anel
em minha cintura,
feita de pão e pedra a terra
o ar canta como um violão.


Tu ao meu lado na areia,
és areia,
tu cantas e és canto,
o mundo
é hoje minha alma,
canto e areia,
o mundo
é hoje tua boca,
deixa-me
em tua boca e na areia
ser feliz,
ser feliz porque sim, porque respiro
e porque tu respiras,
ser feliz porque toco
teu joelho
e é como se tocasse
a pele azul do céu
e seu frescor.


Hoje deixa-me
a mim só
ser feliz,
com todos ou sem todos,
ser feliz
com o pasto
e a areia,
ser feliz
com o ar e a terra, 
ser feliz,
contigo, com tua boca,
ser feliz.


Poema "Oda al día feliz" de Pablo Neruda.
Escrito em 28.11.2012 em Isla Negra.
Publicado em "Odas elementales", em 1954.
Fielmente traduzido por Raul Cézar de Albuquerque.

sábado, 10 de março de 2012

Imagem Letrada #19


Ode à Tristeza (de Pablo Neruda)



Tristeza, escaravelho
de sete patas sujas,
ovo de teia de aranha,
rato descalabrado, 
esqueleto de cadela:
Aqui não entras.
Não passas.
Anda-te.
Volta
ao Sul com teus guarda-chuvas,
volta
ao Norte com teus dentes de cobra.
Aqui vive um poeta.
A tristeza não pode
entrar por estas portas.
Pelas janelas
entra o ar do mundo,
as vermelhas rosas novas,
as bandeiras bordadas
do povo e de suas vitórias.
Não podes.
Aqui não entras.
Sacode
tuas asas de morcego,
eu pisarei as penas
que caem de teu manto,
eu varrerei os pedaços
de teu cadáver para
os quatro cantos do vento,
eu te torcerei o pescoço,
te costurarei os olhos,
te cortarei a mortalha
e enterrarei teus ossos roedores
debaixo da primavera de uma macieira.




Poema "Oda a la Tristeza", de Pablo Neruda. 
Escrito em 29.12.1952, num avião sobrevoando o Brasil. 
Publicado no livro "Odas Elementales" no ano de 1954.
Fielmente traduzido por Raul Cézar de Albuquerque.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

La Guerra (de Pablo Neruda)



Espanha, envolta em sonho, despertando
como uma cabeleira com espigas,
te vi nascer, talvez entre as brenhas
e as trevas, lavradora,
levantar-te entre os carvalhos e os montes
e recolher o ar com as veias abertas.
Mas te vi atacada nas esquinas
por antigos assaltantes. Iam
mascarados, com suas cruzes feitas
de víboras, com os pés metidos
no glacial pântano dos mortos.
Então vi teu corpo desprendido
de arbustos, sujo
sobre a areia violenta, aberto,
sem mundo, incitado na agonia.
Até hoje corre a água de tuas rochas
entre os calabouços, e sustentas
tua coroa de espinhos em silêncio,
para ver quem pode mais, se tuas dores
ou os rostos que passam sem olhar-te.
Eu vivi com tua aurora de fuzis,
e quero que de novo povo e pólvora
sacudam as ramagens desonradas
até que se abale o sonho e se reúnam 
os frutos divididos na terra.


Fielmente traduzido por Raul Cézar de Albuquerque.
Poema "La Guerra" de Pablo Neruda. Poema X do Canto XV do livro "Canto General". Escrito em 1949.