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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sobre Kafka, o Pai e a Carta


Franz Kafka é um nome inquestionável na literatura moderna. Sua prosa densa e intrapessoal tornou-se referência para os que vieram após ele. Num olhar mais observador, é possível encontrar em toda sua obra uma constante: o sentimento de não pertencimento.
Por muito tempo ignorada, a influência de seu pai na sua produção é inegável e talvez fique mais clara no conto "O veredicto" - onde o filho (que claramente é Kafka) comete suicídio por determinação do pai.


Hermann Kafka, pai de Franz, parece ao filho um super-homem acima da moral e de qualquer outra coisa. A relação entre o pai e o filho era estranhíssima. Tão estranha que o próprio Kafka, aos seus 36 anos, decide escrever ao pai tudo o que o afligia e perturbava nessa relação através de uma carta - que nunca foi entregue a Hermann, mas ficou como uma obra de caráter autobiográfico.


A Carta é sincera e profunda. Sem dúvidas, Kafka relutou muito em escrever tudo aquilo, as palavras foram minuciosamente escolhidas e polidamente dispostas. E Kafka já começa imprimindo um tom de "resposta":
"Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo..."
Um segundo ponto alto da carta é quando reclama: "Tu me proibiste a palavra desde cedo, tua ameaça: 'Nenhuma palavra de contestação!'", revela que vê o pai como "a última instância" - ou seja, o juiz que dá o veredito, problema abordado em "O veredicto" e "O Processo" - e conta também que se sentia num mundo onde havia leis criadas só para ele.

Indiscutível ápice é quando confessa sua visão do pai: "De tua poltrona, regias o mundo." Colocação cheia de um sentimento de pequenez e cega submissão.

No entremeio, Kafka revela que via o casamento como um modo de fugir da dominação do pai. E que o pai sempre se opunha a seus casamentos sugerindo que Kafka só desejava casar-se porque a pretendente "levantou as saias".

Outra confissão que preenche grande parte do vácuo temático de sua obra é: "Minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito."

Não condeno absolutamente o pai de Kafka, já que este nunca levou as coisas em sua escala natural, sempre foi cheio de um ímpeto de supervalorizar algumas coisas - o pai, por exemplo - e desprezar outras - ele próprio é um caso -, além de ser tudo isso de tempo e sociedade diferentes da minha. O fato inelutável é que Kafka, o filho, usou de toda essa "dominação" para construir sua obra e...
O que seria de "O veredicto" e de "O Processo" sem o juiz?
O que seria de "O Castelo" sem o ditador?
O que seria de "A metamorfose" sem o ser metamorfoseado pela fuga da realidade que lhe foi imposta?

- Percebeu? O pai de Kafka está em todas!

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Crítica do Livro "A Metamorfose"

“A Metamorfose” do genial escritor tcheco Franz Kafka inicialmente traz algo totalmente inimaginável... Uma metamorfose.

O caixeiro-viajante Gregor Samsa amanhece na forma de um inseto gigante. O que parece uma história pictórica e louca revela-se uma intensa e verídica análise psicológica daqueles que se alienam da sociedade.
Primeiro, Gregor fica surpreso e não se reconhece. Depois, percebe o repúdio dos outros.
Logo após, ocorrem o isolamento, a incomunicabilidade, os hábitos diferentes, a saudade e o desconhecimento da normalidade, a alternância de liberdade e prisão internas, a escassez de ligações com o mundo real e a impotência neste mundo, a surpresa com o próprio potencial, a vergonha do passado...
Com isso, vêm o descontrole, a irritabilidade e o medo do novo por parte dos outros...
Ao fim, Samsa percebe o mundo com outro olhar e parece não se importar com o que ocorre fora de seu pequeno quarto...
Numa última tentativa de voltar ao mundo real, Gregor é totalmente rejeitado e recolhe-se pela última vez... Gregor morre e Kafka escreve da morte de Gregor com tanta poesia, o que contrasta com os berros da empregada que anuncia a morte... O final do livro é revoltante, mas poético. A família rindo num parque falando do futuro, um futuro sem a imagem de Gregor.
Gregor é muito Kafka. Kafka é muito Gregor. Ambos alienados, repudiados, sozinhos, isolados, pequenos, fracos, frágeis e... tão geniais. Para prová-lo citarei três passagens incríveis do livro:

A paisagem - “Totalmente urbana, Rua Charlotte, poderia acreditar que de sua janela via um deserto, no qual o céu cinzento e a terra cinzenta se fundiam!”

Gregor e Kafka - “Um dos prazeres de Gregor, o ato de se encarcerar assim, de todo.”

A morte de Gregor - “Permaneceu nesse estado de reflexões vazias e pacíficas até que o relógio da torre bateu três horas da madrugada. Ainda vivenciou o início do alvorecer geral do dia lá fora, além da janela. Em seguida, sem que ele o quisesse, sua cabeça inclinou-se totalmente para baixo e das suas ventas brotou, fraco, o último suspiro”

Aplausos ao gênio! Fiquem com uma frase de Kafka:

“Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés.”

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Franz Kafka...

Franz Kafka
Franz Kafka nasceu em 3 de julho de 1883, na Tchecoslováquia. O homem que marcaria para sempre e de forma indiscutível a literatura posterior a ele começou sua obra com um conto que teve repercussão irrisível chamado “Contemplação”.

A caminhada de sucesso começa com a publicação de outro conto em 1913, “O veredicto”, este conto gerou polêmica só com a base do seu roteiro: um filho que comete suicídio a pedido do pai.

Após o sucesso do último conto, Kafka publica o romance “A Metamorfose” em 1915, era a primeira vez que ele mostrava a sua face imaginativa, até pitoresca. O livro apresenta a história de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que acordava na forma de um inseto gigante... O que, à principio, parecia pura ficção, mostrou-se uma intensa análise psicológica daqueles que procuram fugir das convenções sociais. A reação da família, o isolamento automático, tudo apresenta a genialidade de Kafka.

Kafka morreu em 1924, quase desconhecido, mas deixou algumas obras sob a guarda do amigo Max Brod e, em seu testamento, mandou que essas obras fossem queimadas. Mas Brod leu as obras e não as queimou, publicou os três romances que estavam escondidos – que bom que ele não queimou!

Dentre essas obras, estava “O processo”, a mais genial das obras escondidas, em que Josef K. é preso sem motivo aparente. O livro corre por regimes totalitários, repartições públicas, funcionários sem nome, atos desconcertantes e ambientes claustrofóbicos. Esta última característica é a marca registrada da genialidade kafkiana.

Arthur Rimbaud dizia que o escritor é um vidente e parece que Kafka tomou para si tal afirmação... Suas obras anteciparam todo o desespero dos regimes totalitários que tomariam seu continente nas décadas posteriores à sua morte.

As outras duas obras publicadas postumamente foram “O castelo” – uma reflexão sobre a alienação, a reclusão e a liberdade, tudo em ambientes sufocantes – e “América” – decepcionado com a Europa, Kafka refaz “Utopia” imprimindo a perfeição e a imperfeição da sociedade no Novo Mundo.

Uma vida curta e uma obra atemporal, Kafka apresenta ao mundo a mais bela análise psicológica, mesmo sem querer, ele influencia pesadamente o Modernismo, além de ainda fazer-se muito presente na produção contemporânea.