Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

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sábado, 15 de setembro de 2012

Lispector: "Sobre a Escrita"





Clarice - hoje amada e reproduzida exaustivamente nas redes sociais - releva sua opinião mais íntima sobre sua relação - conturbada e bem-sucedida - com as palavras. Na verdade, sua maestria descreve a relação das palavras com o poeta e do poeta com o sentido de suas palavras. Sobre a Escrita...

Sobre a Escrita

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.
Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

Clarice Lispector em "Sobre a Escrita", no livro "A descoberta do mundo", de 1984.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O desrespeito a Lispector


Não há quem nunca tenha visto uma frase de Clarice Lispector vagando pelas redes sociais. Todos já tivemos este desgosto.
Subestimam Lispector, reduzindo-a a uma menina sentimental de 13 anos.
Qualquer pessoa que já tenha lido um romance, um conto ou uma novela da autora sabe que ela está longe de ser uma autora simples e resumitiva. Antes, completa, complexa e hermética (essa última característica, ela negava).
Seu livro mais aclamado, a novela "A Hora da Estrela", começa com algumas afirmações inconclusivas e atormentadoras: 
"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou."
E essa Clarice filosófica e pensativa, por vezes até niilista, é que se encontra em seus textos. Ainda em "A Hora da Estrela", ela escreve: "Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever."
Num processo próprio, Clarice desenvolveu uma narratividade densa e sugestiva. Ao lado de Guimarães Rosa, ela figura na literatura como revolucionadora do romance brasileiro. 


Dói a qualquer leitor de Clarice ver uma de suas frases fora de contexto (e, às vezes, nem suas) passeando pela internet, amamentando uma alcateia de pseudo-leitores, fortalecendo a incultura e desrespeitando esta grande escritora. Dói.


Clarice Lispector é bem mais do que pensam. Bem mais. Muito mais.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Respingos de Genialidade #11

"A crueza do mundo era tranquila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos."
Clarice Lispector, no conto "Amor" do livro "Laços de Família". 

sábado, 3 de março de 2012

Entender é Limitado (de Clarice Lispector)




Clarice Lispector foi classificada como hermética pela crítica. Mas, para ela, o mundo era hermético, e, ao tentar descrever este mundo, ela inevitavelmente foi hermética. A compreensão da obra de Clarice não depende de um conhecimento literário prévio, pelo contrário, quanto menos se souber, melhor. Pois há mais espaço para ser preenchido pelo entendimento do não entender.

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."