Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

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quinta-feira, 21 de março de 2013

Sobre "A Busca": o cinema brasileiro encontrou-se


 Foi recentemente lançado o filme "A Busca". E eu - que sempre tive minhas ressalvas ao cinema nacional - reconheço que o filme ultrapassou o limite do comum, do óbvio, do que geralmente se espera de um filme brasileiro. 



A sinopse sugere um "thriller dramático", mas ele é bem mais drama que thriller. A busca de um pai por um filho é apenas a "deixa" para um viagem para desenterrar lembranças e sentimentos esquecidos, ressuscitar uma paixão e desbravar novas terras.
O sumiço do filho leva os pais - então, separados - a repensarem conceitos e julgarem-se no papel de pais e, consequentemente, guias e testemunhas da vida do filho. Cientes das faltas nas suas funções, percebem o significado da fuga.


O elenco fixo do filme resume-se a Wagner Moura - que representa Theo, o pai do fugitivo Pedro - e Mariana Lima - que representa Branca, mãe de Pedro. Ambos sustentam a trama, apresentando um casal esfriado pela rotina e separado pelo cotidiano que revive para ter de volta seu filho.



A presença do Brás Antunes - que representa Pedro, o filho que foge, e que é filho do grande Arnaldo Antunes - é pouco marcante e o próprio roteiro não dá margem de atuação ao personagem que tem destaque no começo, mas durante o filme tem rápidas aparições. A presença de Lima Duarte - que representa o avô de Pedro, pai de Theo - é um presente que é dado ao espectador no fim do longa.


Direção, roteiro, fotografia e trilha sonora impecáveis. A produção inclui o nome do gênio Fernando Meirelles.


"A Busca" representa a procura de um homem comum - imerso no "desespero silencioso" -por uma verdade perdida nas curvas da estrada. Atrás do filho, o pai encontra-se novamente consigo próprio.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

"Les Misérables": letra e melodia


 

O filme que tanto prometia acabou por levar apenas três Oscar® - sendo um deles individual. O filme prometia pelo simples fato de ser baseado num musical de - ninguém mais, ninguém menos que - Schönberg, que é baseado num dos melhores romances de todos os tempos: "Os miseráveis" do francês Victor-Marie Hugo, ou só Victor Hugo.


A obra é encantadora, belíssima, envolvente e muito bem construída; não perde a carga psicológica do romance francês nem falha nos princípios técnicos; tem um acompanhamento instrumental invejável às músicas e possui bons cortes de cena.

Mas basicamente três pontos separam-na da perfeição:


1 - Não há diálogos normais.
Isso mesmo. As falas são - em sua maioria esmagadora - cantadas, e tais falas nem sempre encaixam na melodia, o que cria um desconforto no espectador. Perderam-se ótimas falas tentando cantá-las. Se houvesse sido mantido o script comum dos musicais (falas e músicas), o longa ganharia mais leveza e - ironicamente - ritmo.


2 - A atuação mediana do elenco masculino
A Anne Hathaway dá um show - e sua interpretação de "I dreamed a dream" é tocante -, a Amanda Seyfried também encanta com seus agudos limpos; mas o Hugh Jackman e o Russell Crowe - talvez pelo excesso de falas cantadas e falta de músicas de verdade - acertam poucas vezes durante todo o filme. Dentre os homens solistas, o Eddie Redmayne é um destaque pela qualidade vocal.


3 - O longa é muito longo - e cansativo.
O filme dura quase três horas - o que não é problema para um musical, mas o fato de a música nunca parar cria no espectador um sentimento de "saco cheio", de modo que às duas horas de filme o desejo de sair da sala vai aumentando... e alguns não resistem, eu resisti.


O final do filme é - no mínimo - estranho: uma cena com todos os mortos - em batalha ou não -, cantando alegremente sobre a revolução que nunca morre...
A trilha sonora é incrível, maquiagem e figurino também. Mas Tom Hooper deixou a excelência escapar por detalhes... que pena!

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Crítica do livro 'Leite Derramado"


"Jó Joaquim, genial, operava o passado - plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?"
O trecho acima do conto "Desenredo" - do grande Guimarães Rosa - veio me à cabeça logo que acabei a leitura do "Leite Derramado", de Chico Buarque de Hollanda. Explicarei.

Chico já ganhou seu prestígio como compositor - que é inegável -, mas no campo da produção literária ainda enfrenta resistências. Sua obra tem aceitação dual: uns amam, outros queimariam na fogueira todos os exemplares. Bem... Eu devo confessar que o Chico-compositor é mais genial que o Chico-romancista, ele acostumou-nos mal, mas representa o que de melhor se produz hoje no Brasil.

O livro - publicado em 2009 - foi bem aceito pela crítica - não em unanimidade, claro. Ganhou prêmios de peso: Livro do Ano (oferecido pelo Jabuti) em 2010; Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2010; e a tradução para o espanhol - "Leche derramada" - ganhou recentemente o Prêmio de Narrativa José Maria Arguedas. 

Enfim... vamos à crítica.

O livro é uma tentativa de retratar as memórias do velho Eulálio d'Assumpção - sim, esse é o nome. Um monólogo que toma todo o livro a fim de convencer-nos que seu passado glorioso - que transpõe o Atlântico e atravessa o império - reverbera a ponto de trazer  tal glória ao seu estado atual: um velho pobre, esclerosado, esquecido num leito de hospital, esperando a morte chegar.

E onde é que o "passado plástico" de Jó Joaquim entra nessa história?

Na mente cansada e desordenada do pobre - mas orgulhoso - Eulálio, passados misturam-se e a ordem dos fatos não possui sentido. Ao longo do livro, os fatos retificam-se frequentemente - nem sempre com aviso.
"Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. [...] a fazenda na raiz da serra, acho que desapropriaram em 1947 para passar a rodovia."
Lembranças da infância e da adolescência misturam-se e repetem-se. Com humor sempre presente advindo do absurdo das histórias, dos preconceitos do protagonista - que não são poucos -, da repetição dos fatos, das releituras. O passado de Eulálio torna-se plástico, pois nem ele próprio sabe bem como contá-lo e defini-lo.
"[...] e era natural que me causasse espécie entrar comigo no elevador um grandalhão com cara de nortista, nariz chato, pele grossa. Indiquei-lhe o elevador de serviço, mas ele me deu as costas e apertou o botão do meu oitavo andar."
Os detalhes de um passado que mistura esplendor e contos da vida privada são expostos sem vergonha. As garçoniéres de Paris, os ímpetos incontíveis, tudo é descrito com detalhes horrorizantes ou cômicos.
"Matilde repetiu, coragem, Eulálio, e já agora, em sua voz ligeiramente rouca, parecia que meu nome Eulálio tinha uma textura. Falou meu nome como se o arranhasse um pouco, e quando num volteio se retirou, tive como temia novo arrebatamento obsceno. [...] Se desejo era aquilo, posso dizer que antes de Matilde eu era casto."
A morte de Matilde é o ponto que mais possui versões. Por ser um episódio doloroso, talvez. Ela é apresentada como tuberculosa, esquizofrênica, mãe irresponsável, esposa infiel e mulher de pouca saúde. Cabe ao leitor escolher a melhor história ou ficar no maravilhoso ponto da dúvida.

A linguagem adaptada a um homem que chegou ao século XXI sem sair do século XIX foi bem colocada. A pontuação é utilizada de modo peculiar. A(s) história(s) é(são) bem contada(s).

O livro merece, sim, os prêmios e elogios que recebeu. Num tempo de literatura de mercado, precisamos valorizar os que ainda se põem a descrever a vacuidade das nossas vidas. 
O livro termina com a descrição da morte de um Assumpção - "que já não dizia nada com nada" - numa espécie de sugestão de "não há nada novo debaixo do sol". 
Os eulálios continuariam existindo - inclusive literalmente, pois os netos, bisnetos, trinetos tiveram o mesmo nome do orgulhoso Eulálio.

Viva Chico! - Eu indico!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

"Life of Pi" - polêmica e sucesso


O Oscar está chegando... e os cinemas enchem de ótimos (ou ditos ótimos) filmes. Do meio do turbilhão de lançamentos emergiu o filme "Life of Pi" por ser dirigido pelo grande Ang Lee e por seu primor técnico e estético.

Para começar, conversemos sobre o livro que serve de base para o filme. O livro "Life of Pi" é do escritor canadense Yann Martel. Isso já nos leva a uma polêmica pouco divulgada. O livro foi acusado de plagiar "Max e os felinos" - do escritor brasileiro Moacir Scliar. 
Explicando: O livro do Scliar foi lançado em 1981 e retrata um homem - Max - que sai da Alemanha, mas acaba por ficar à deriva com uma onça no meio do Oceano Atlântico. O que nada tem a ver com o pobre Pi que fica à deriva com um tigre no meio do Pacífico retratado no livro do Martel, lançado em 2001. (posso rir?)
Enfim... para completar a bagunça, o livro do canadense foi premiado com o "Man Booker Prize for Fiction" de 2002, o que deu visibilidade ao livro e despertou a questão do plágio. Um crítico percebeu os absurdos pontos comuns entre os livros e alertou Scliar - que decidiu não abrir processo contra o canadense. No fim das contas, Yann Martel admitiu "influência" e acrescentou agradecimento no prefácio do livro.

O livro foi adaptado para o cinema e o filme ficou nas mãos de Ang Lee. Bem... o filme recebeu 11 indicações ao Oscar - incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado.


A história - aparentemente fantasiosa demais - revela-se um cenário para discussões mais profundas acerca do homem - nos campos da religião e da psicologia humana.
Pi é um jovem indiano que apresenta-se como um hindu católico muçulmano - que se torna um adulto professor de kabbalah. Fato que traz à tona uma visão ecumenista das relações transcendentais. E é uma visão encantadora que nos leva pelo braço em tempos em que "tudo o que é sólido desfaz-se no ar".
O menino aprende de forma brutal que os animais não possuem alma - o que marca indiscutivelmente sua relação futura com Richard Parker (o nome do tigre que divide espaço com ele no bote à deriva). O menino conhece o amor - mas deixa-o na Índia. E viaja com a família para "o sonho americano". A viagem dá errado: turbulência, naufrágio. Só salvam-se Pi e Richard Parker num bote.
O bote é o ponto-chave. Nele Pi descobre coisas e descobre-se. A inicial fé em tudo desfaz-se e refaz-se com facilidade espantosa, mas, por fim, a ideia de "Deus" reforça-se de modo irreversível na mente de Pi.



Do ponto de vista técnico, o filme é impecável. Com cenas que - em breve - se tornarão antológicas. O filme é belo e cativante. A trilha sonora também é digna de muitos elogios. Enfim, se não viu, vá ver.

Mas... tradutores fazem uso de entorpecentes para trabalhar?
Pergunto porque o título do livro é "Life of Pi". 
O título do filme é "Life of Pi". 
Em Portugal, foi traduzido - como esperado e lógico - para "A vida de Pi". 
Por que diabos os brasileiros deram o título "As aventuras de Pi"?

-- Até a próxima!

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Chico Xavier, o maior brasileiro de todos os tempos?


O povo decidiu... Chico Xavier é - até segunda instância - o maior brasileiro de todos os tempos. O país manteve-se bem alheio à competição - talvez por ter ocorrido no SBT, e não na Globo - e o resultado foi esse.
O processo seletivo já profetizava o desastre com Luan Santana à frente de Chico Buarque e Elis Regina, Neymar à frente de Chico Mendes e Oswaldo Cruz, Gugu à frente de Carlos Drummond de Andrade... e Ronaldo Fenômeno mais bem colocado que todos eles. [É, não iria dar certo]
Os finalistas foram até bem escolhidos: 5 políticos (Lula, FHC, JK, Getúlio Vargas e Princesa Isabel), 2 esportistas (Ayrton Senna e Pelé), 2 religiosos (Irmã Dulce e Chico Xavier), 1 revolucionário (Tiradentes), 1 inventor (Santos Dumont) e 1 arquiteto (Oscar Niemeyer).
Confesso que, ao ver os finalistas, pensei que o eleito seria Lula (por sermos um povo sem memória e este ser bem recente) ou Getúlio Vargas (por toda uma imagem criada em volta dele... "pai dos pobres"). 
Pois bem, falhei! Não pensei que o projeto fosse ser guiado por massas tão tendenciosas.
O primeiro "embate" do Chico Xavier foi contra a Irmã Dulce. Ele venceu por diferença ínfima, mas venceu, e daí foi até a final irrefutável.
A final foi entre Santos Dumont, Princesa Isabel e o próprio Chico Xavier. Torci por Santos Dumont por bons motivos:
1- A obra do Santos Dumont não se restringiu ao Brasil, antes possibilitou maravilhas ao mundo.
2- A princesa Isabel não fez muita coisa. Assinou um documento que já estava pronto (que era incompleto, malfeito...) e ela nem assumiu, estava "tapando o buraco" na ausência do pai.
3- Para que um religioso venha a ser o maior nome de um país, ele deve ter uma obra social e política muito forte e ampla - que chegue a romper os limites da religião (o caso de Dom Helder Câmara). E Chico Xavier não teve vida nem obra de grande importância para o Brasil enquanto país e conjuntura social.
4- Enfim, por eliminação e admiração, Santos Dumont.

Bom... Não há o que fazer. 
A Itália escolheu Leonardo da Vinci (artista destacado do Renascimento Cultural, além de inventor). A França, Charles de Gaulle (Militar na Segunda Guerra e posteriormente governante do país). A Inglaterra, Winston Churchill (Grande nome inglês na Segunda Guerra, escritor e historiador). A África do Sul, Nelson Mandela (Extinguidor da legalidade do sistema de "apartheid"). E o Brasil... ah, o Brasil... escolheu Chico Xavier (médium).

Nunca esperei muito de nós, mas fiquei decepcionado!

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sobre Kafka, o Pai e a Carta


Franz Kafka é um nome inquestionável na literatura moderna. Sua prosa densa e intrapessoal tornou-se referência para os que vieram após ele. Num olhar mais observador, é possível encontrar em toda sua obra uma constante: o sentimento de não pertencimento.
Por muito tempo ignorada, a influência de seu pai na sua produção é inegável e talvez fique mais clara no conto "O veredicto" - onde o filho (que claramente é Kafka) comete suicídio por determinação do pai.


Hermann Kafka, pai de Franz, parece ao filho um super-homem acima da moral e de qualquer outra coisa. A relação entre o pai e o filho era estranhíssima. Tão estranha que o próprio Kafka, aos seus 36 anos, decide escrever ao pai tudo o que o afligia e perturbava nessa relação através de uma carta - que nunca foi entregue a Hermann, mas ficou como uma obra de caráter autobiográfico.


A Carta é sincera e profunda. Sem dúvidas, Kafka relutou muito em escrever tudo aquilo, as palavras foram minuciosamente escolhidas e polidamente dispostas. E Kafka já começa imprimindo um tom de "resposta":
"Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo..."
Um segundo ponto alto da carta é quando reclama: "Tu me proibiste a palavra desde cedo, tua ameaça: 'Nenhuma palavra de contestação!'", revela que vê o pai como "a última instância" - ou seja, o juiz que dá o veredito, problema abordado em "O veredicto" e "O Processo" - e conta também que se sentia num mundo onde havia leis criadas só para ele.

Indiscutível ápice é quando confessa sua visão do pai: "De tua poltrona, regias o mundo." Colocação cheia de um sentimento de pequenez e cega submissão.

No entremeio, Kafka revela que via o casamento como um modo de fugir da dominação do pai. E que o pai sempre se opunha a seus casamentos sugerindo que Kafka só desejava casar-se porque a pretendente "levantou as saias".

Outra confissão que preenche grande parte do vácuo temático de sua obra é: "Minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito."

Não condeno absolutamente o pai de Kafka, já que este nunca levou as coisas em sua escala natural, sempre foi cheio de um ímpeto de supervalorizar algumas coisas - o pai, por exemplo - e desprezar outras - ele próprio é um caso -, além de ser tudo isso de tempo e sociedade diferentes da minha. O fato inelutável é que Kafka, o filho, usou de toda essa "dominação" para construir sua obra e...
O que seria de "O veredicto" e de "O Processo" sem o juiz?
O que seria de "O Castelo" sem o ditador?
O que seria de "A metamorfose" sem o ser metamorfoseado pela fuga da realidade que lhe foi imposta?

- Percebeu? O pai de Kafka está em todas!

sábado, 29 de setembro de 2012

Sobre o caso "Monteiro Lobato"


Têm corrido no meio jurídico-literário comentários e achismos sobre a obra de Monteiro Lobato. As vozes têm tido destaque após as acusações à obra do escritor: estão dizendo que sua obra tem traços racistas.
Suscitada em 2010, a polêmica acerca de "Caçadas de Pedrinho" gira em torno das referências "ofensivas" à Tia Anastácia. Teoria nojenta e infundada, os "ofendidos" destacam o trecho: 
"Lá é isso é - resmungou a preta, pendurando o beiço."
[Só eu não vi nada de mais?] Só para constar, o livro foi escrito em 1933, ou seja, o contexto social e político do escritor paulista era outro. Uma sociedade que ainda se acostumava com a ideia do negro livre - deve constar-se ainda que, para a época, é trunfo do autor colocar a negra em ponto destacado da narrativa.
Não queria tocar no "politicamente correto", mas parece inevitável. Meus caros, arte é libertação. E quando há controle sobre a liberdade, esta já não existe. O romance de aventura para crianças - no qual, o nosso amado Lobato foi pioneiro por estas bandas - foi escrito para ser lido por mentes despreocupadas e ansiantes por ação e humor numa narrativa pulsante.
É hora dos políticos tratarem de política, os juristas, de suas leis e deixarmos a literatura com o tempo, pois só o tempo discerne o que merece destaque ou não.
Monteiro Lobato morreu em 1948, mas tornou-se imortal por sua obra - obra esta cheia de achismos, opiniões e preconceitos, sim! (porque o autor não é um ser sobre todas as variáveis, é um ser humano que escreve o que lhe perturba... simples assim!)
Lobato é imortal. Li seus livros e não sou racista. Tenho meus preconceitos,  pois todos os temos. Lobato é imortal!

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Notas: "Joseph Anton" e "Cinquenta Tons"


Com o caos que tomou o mundo islâmico nos últimos dias, é anunciada uma nova bomba para tal cenário: a publicação das memórias de Salman Rushdie. Autor do livro "Versos satânicos", que foi classificado como "ofensa ao Islã e ao profeta Maomé" pelo aiatolá Khomeini, o anglo-indiano teve sua cabeça valendo muito quando lançou o livro - e, hoje, vale 3,3 milhões de dólares. O livro intitula-se "Joseph Anton", porque esse foi o pseudônimo que ele usou durante o período em que fugiu da condenação à morte - inspirado em dois ícones: Joseph Conrad e Anton Tchekóv. 
O livro tem a curiosidade ser escrito em terceira pessoa - algo nada comum em livros de memórias - e discorre sobre os sentimentos do escritor enquanto fugia da fúria islâmica. É do livro o trecho:
"O que pensou foi: Estou morto. Ficou pensando em quantos dias lhe restavam para viver, e achou que a resposta seria, com toda probabilidade, um número de um só algarismo."
*** 

Cinquenta Tons de Qualquer Coisa

Essa nota é sobre o mais recente sucesso do mercado literário, conhecido das massas: Cinquenta tons de cinza (e continuações). Definido sucintamente como "romance erótico para mulheres", o livro é a prova de que a sociedade ocidental perdeu o controle de si própria. 
O livro é recheado de fetiches, relações proibidas e "loucuras", ou seja, pronto para arrebatar multidões de mulheres solitárias e/ou insatisfeitas com as próprias vidas - uma prima pobre da autoajuda. Mediocridade e sexo vendem - e como vendem!
Algo que me chamou a atenção foi o feminismo machista que percorre o livro, pois a mesma mulher que conversa com sua "deusa interior" - e isso é ridículo - é a mesma que dá-se aos caprichos de um psicopata masoquista - só eu percebi o descompasso?
Além da impossibilidade de isso ser classificado como literatura, há ainda algo mais sociológico: o que se pode pensar de uma sociedade que aceita um "romance erótico para mulheres" como produção literária comum, exposto nas mesas de indicação de livrarias? Deve haver algo muito  errado nessa história.

sábado, 21 de julho de 2012

Uma Espetacular "Meia-Noite em Paris"


A correria do cotidiano priva-nos de muitas coisas incríveis e as férias trazem-nos boas surpresas. Falo isso por experiência própria.
Quando "Meia-noite em Paris" entrou nos cinemas, eu estava em plena semana de provas e não pude ir assistir - mas não sofri com isso. Passaram-se muitos meses (creio que mais de um ano)...
Ontem, fui à locadora e encontrei por graça da existência o DVD do filme. Fui correndo para casa para assistir... É incrível!

Toda pessoa que produz arte sai do filme com certeza de que sua desconformidade lhe faz bem. Com um gancho fantasioso - o sonho de todo amante de arte -, Gil (Owen Wilson) entende, através do novo cenário - formado pelo ar artístico de Paris da década de 20 -, que para fazer arte deve-se vivê-la.
Numa narrativa bem construída, em que aparecem Picasso, Cocteau, Stein, Hemingway, Gauguin, Degas e muitos outros gênios que viveram em Paris, Woody Alen discursa sutilmente sobre ser artista.
Ser artista é acreditar nas próprias loucuras e nas próprias obras. Longe da superficialidade, o humor do filme não é fácil e a mensagem não é comum. 

Nunca foi tão incrível ouvir a arte falar sobre arte de modo tão próximo dos artistas... famosos ou não. 

sábado, 14 de julho de 2012

De Olho na Obra: O Pensador (de Auguste Rodin)



"O Pensador" de Auguste Rodin

A obra acima é uma das esculturas mais conhecidas do mundo e uma das mais louvadas de todos os tempos. Marco da escultura impressionista, "O Pensador" é uma obra inigualável e o próprio Rodin reconhecia isso. Foi esculpida em bronze entre 1880 e 1881.
Vamos ao De Olho Na Obra:

1 - O contexto de criação: A obra foi encomendada a Rodin como parte de uma grande exposição de inauguração de um museu de Paris, mas o museu nunca foi construído e "O pensador" ficou famoso isoladamente. O projeto da exposição era uma referência ao livro "A Divina Comédia", de Dante Aliguieri, e "O pensador" originalmente seria o próprio Dante observando o Inferno.

2 - O nome: "O Pensador" nem de longe é o nome oficial da obra. Originalmente, ela não tinha nome por pertencer a um conjunto conceitual. Com a não inauguração do museu, Rodin expôs a obra individualmente em 1888 com o título de "O Poeta". O nome "O Pensador" veio com os comentários e as críticas que destacavam o "pensar com todo o corpo" que havia na escultura.

3 - A obra por Rodin: Certa vez, Rodin falou sobre a obra, dizendo que "ele não pensa só com o cérebro, a testa franzida, as narinas distendidas e os lábios comprimidos, mas com todos os músculos dos braços, das costas e das pernas, os punhos fechados e os dedos contraídos."

4 - O queixo sobre a mão: Imagem eternizada, a cabeça apoiada na mão tornou-se um símbolo internacional e já inconsciente de reflexão e/ou pensamento profundo. A feição fixa e rígida também ajuda no desenho de uma alma pensativa.

5 - O braço contraposto: Na obra, Rodin põe o braço direito sobre o joelho esquerdo, uma clara referência a Michelangelo. Tal contraposição ainda ajuda a expor os contornos do "Pensador" que destacam-se nas costas criando uma ideia constante de luz e sombra.

* Espero que tenham gostado de mais um De Olho na Obra e que tenham aprendido algo... Afinal, viver é aprender, não é?!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

De olho na Obra: Les Demoiselles d'Avignon (Pablo Picasso)




A obra acima é certamente a face mais conhecida do Cubismo. Ela destaca-se por colocar um tema clássico por excelência, o nu feminino, em novos moldes - no caso, os moldes cubistas. Pablo Picasso pintou Les Demoiselles d'Avignon em 1907 e, por muito tempo, esse foi seu quadro mais louvado. 
Mas... a proposta do De Olho na Obra é ver o que ninguém vê nas telas, nos poemas e nas esculturas:

1 - O nome: Alguns anos após a exposição de Les Demoiselles, Picasso disse que o nome da obra nunca fora aquele, mas que ele havia dado à pintura o nome Le Bordel d'Avignon (em referência à casa de má fama que se localizava na rua Avignon, em Barcelona).

2 - A moça provocativa: Há um destaque sensual natural à moça que parece retirar o lençol de sua coxas para revelar-se inteiramente. E o mesmo lençol serve espaço para Picasso fortalecer o caráter cubista da obra, já que o lençol parece papel de tão delineado.

3 - A máscara cinzenta: A prostituta do canto superior direito do quadro está puxando as cortinas - seria um convite? - e possui uma máscara angulosa, bélica e cinzenta. A máscara é uma clara inserção dos conceitos tribais africanos de arte e revela o caráter "guerreiro" das moças do bordel da rua Avignon. 

4 - A mulher musculosa: No canto superior esquerdo do quadro, há uma mulher com rosto cinzento e tão impassível que chega a ser canino. Ela é claramente musculosa e destaca-se das outras por causa disso. Outro aspecto que merece nota é o fato de ela estar puxando o outro lado da cortina, uma cortina vermelha - outro convite sutil que a obra contém.

5 - A figura de costas: É inevitável perceber o trabalho em torno da moça do canto inferior direito da obra. Seu torso está claramente costas, mas seu rosto não só olha para o espectador como também confronta-o. Suas pernas abertas são referência a um possível  erotismo - que não existe graças a seu rosto belicoso e disforme.

6 - A recepção da obra: Na primeira exposição, a obra não foi comprada. Leo Stein, um de seus clientes mais fiéis, sugeriu que Picasso estivesse louco. Kahnweiler, marchand conceituadíssimo, disse ao próprio Picasso que o quadro estava inacabado. Henri Matisse, grande nome da pintura fauvista, disse que, ao ver a obra, sentia-se como se tivesse bebido gasolina. Pois bem, a obra só veio a ser vendida dezessete anos depois.

* Espero que tenham gostado da estreia oficial do "De Olho na Obra" - A ideia de criar a série veio do sucesso do post "Davi de Michelangelo"

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Preconceito ou Desleixo numa língua viva

O preconceito vivo para uma língua vivíssima


Passeando por uma livraria, eu tive o desprazer de encontrar o livro "Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta". Pensei que era algo de cunho humorístico-jornalístico considerando as variações históricas da língua portuguesa no Brasil.
Quando comecei a ler o livro, o "jornalista" Alberto Villas obteve todo o meu desprezo: nele estão palavras ainda vivas como "aperreado", "abestado", "almofadinha", etc.

Podemos considerar dois casos:

1. Preconceito: Como "jornalista", o senhor Villas deve saber que ao menos metade das palavras dadas como mortas em seu livro estão ainda vivas em quase todo o Nordeste e Norte do País. Dá-las como mortas por não serem usadas no Centro-Sul do Brasil é fruto do mais puro e imbecil preconceito (certamente ainda existente nessa amálgama cultural que é o Brasil).

2. Desleixo: Como escritor, o autor do livro viu a necessidade de "enchê-lo" e, ao ver o pequeno material conseguido de palavras realmente mortas, decidiu inserir na "obra" as palavras que estão mortas na pequena cabeça de seus leitores. 

De qualquer maneira, é um desrespeito aos nordestinos, como eu, colocar nossa língua - belamente portuguesa - como morta. Morto deveria estar seu preconceito. 
Faço questão de colocar aqui um trecho do Manifesto Regionalista de 1926, escrito pelo antropólogo pernambucano Gilberto Freyre: "A verdade é que não há região no Brasil que exceda o Nordeste em riqueza de tradições ilustres e em nitidez de caráter."

É inevitável sentir um ódio intelectual do senhor Alberto Villas. 
Eu fiquei muito APERREADO por ver que ainda tem muito ABESTADO, muito ALMOFADINHA achando que o Nordeste é um lugar morto com uma língua morta.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O desrespeito a Lispector


Não há quem nunca tenha visto uma frase de Clarice Lispector vagando pelas redes sociais. Todos já tivemos este desgosto.
Subestimam Lispector, reduzindo-a a uma menina sentimental de 13 anos.
Qualquer pessoa que já tenha lido um romance, um conto ou uma novela da autora sabe que ela está longe de ser uma autora simples e resumitiva. Antes, completa, complexa e hermética (essa última característica, ela negava).
Seu livro mais aclamado, a novela "A Hora da Estrela", começa com algumas afirmações inconclusivas e atormentadoras: 
"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou."
E essa Clarice filosófica e pensativa, por vezes até niilista, é que se encontra em seus textos. Ainda em "A Hora da Estrela", ela escreve: "Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever."
Num processo próprio, Clarice desenvolveu uma narratividade densa e sugestiva. Ao lado de Guimarães Rosa, ela figura na literatura como revolucionadora do romance brasileiro. 


Dói a qualquer leitor de Clarice ver uma de suas frases fora de contexto (e, às vezes, nem suas) passeando pela internet, amamentando uma alcateia de pseudo-leitores, fortalecendo a incultura e desrespeitando esta grande escritora. Dói.


Clarice Lispector é bem mais do que pensam. Bem mais. Muito mais.

domingo, 27 de maio de 2012

Günter Grass reaparece...

Imagem de Günter Grass, autor de "O Tambor" e Nobel de Literatura de 1999

Parece que Günter Grass está querendo sumir do campo literário e entrar no campo puramente político. O Nobel de 1999, depois de criar polêmica com Israel, publicou um poema no sábado (26/05) criticando as ações da União Europeia com relação à Grécia.
Num novo uso de seu status para divulgar suas ideias, Grass escreve o poema "A vergonha da Europa" no mesmo jornal ao sul da Alemanha. No poema, ele diz:

"Próxima ao caos, por não servir ao mercado, 
você está longe do país, que lhe serviu de berço."

Num desabafo quase grego, ele expõe o que, a seus olhos, parece ocorrer com a Grécia, ligando o fato atual ao do mais ilustre habitante da região da Ática, Sócrates ao beber a cicuta:

"Beba de uma vez, beba!, gritam os comissários em claque, 
mas Sócrates lhes devolve irado a taça cheia."

Depois de defesas apaixonadas, Grass entrega a sentença da UE por seus maus atos perante seu berço cultural e filosófico. Ele dá o veredicto:

"Tu vais definhar privada de alma sem o país que te concebeu, tu, Europa."

Os poemas de Grass voltaram com um tom mais defensivo, melhor do que seu ódio exposto a Israel, o que lhe trouxe alguns problemas de diplomacia. O escritor publica o poema numa Alemanha onde 60% das pessoas querem a retirada da Grécia da zona do Euro. 

Qual será a próxima de Günter Grass?


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Crítica do Filme "Sherlock Holmes 2: O Jogo das Sombras"

Não é o Sherlock Holmes

Do ponto de vista estético, o filme merece muitos elogios. Cenas de ação feitas à noite foram bem constituídas, mas pecaram pelo excesso de closes e câmeras lentas. Tudo, no campo dos efeitos, foi muito bem executado, mas o excesso deles nas cenas de ação deixou as cenas de conversas ou de conjecturas (todas diurnas) relativamente cansativas. Concluindo esta parte: para atrair o grande público, prezaram pela ação e nos privaram da inteligência do detetive mais famoso de todos os tempos.

O vilão não convence.
Do ponto de vista "roteirístico", o filme é estranho. Parece estar recorrentemente "roubando" ideias dos contos de Conan Doyle, pois as imagens que o escritor criou não percorrem todo o filme, apenas são deixadas no decorrer do filme, mas um conto foi especialmente utilizado, "O problema final". Neste conto, está a expressão "Ele é o Napoleão do crime!" e a recorrência dos disfarces de Holmes [que foi algo muito utilizado para humor no filme, quando, na literatura, é algo que mostra a perícia e a prudência de Sherlock]. O vilão, que é o professor Moriarty, não pega, pois no original é um homem que está no nível de Holmes, segundo o próprio Holmes, mas este não funcionou, só preencheu o vazio da imagem de um vilão.

Do ponto de vista humorístico, o filme é muito bom, mas é instável. O humor do filme às vezes funciona, às vezes, não. Baseado nos disfarces de Holmes, nas expressões de Watson e no absurdo (que terrivelmente acaba igualando o Holmes de Conan Doyle a qualquer personagem de Albert Camus), o humor do filme é, como já disse, instável, pois nem sempre funciona, ou pior, nem sempre é bom. 


A trilha sonora é impecável. Parece ser uma coisa feita junto com o filme, mas está baseada em Mozart (inclui representação de Don Giovani), Franz Schubert e outros compositores clássicos. Pelo menos a boa música não desapareceu para agradar ao povo.

Muita ação, pouca contemplação.

Do ponto de vista pessoal, uma coisa fere o filme fatalmente: "Aquele personagem não é Sherlock Holmes." Os roteiristas usaram a imagem, a fama e a atmosfera do detetive mais famoso de todos os tempos, mas não usaram-no, não usaram o Sherlock de Conan Doyle, eles inventaram um novo Holmes. 

O Sherlock Holmes do filme fica entre o gay apaixonado e o amigo possessivo do Dr. Watson; este não tem aquela admiração pela inteligência de Iréne Adler, tem apenas uma rixa com ela; este é mais lutador que propriamente um detetive (ele corre, bate e cai mais do conjectura, planeja e pensa) ; este é mais louco que gênio; este é mais fantasioso do que propriamente lógico.

O filme é bom, mas não é um filme de Sherlock Holmes. Poderia ser qualquer outro, poderia ser o Hercule Poirot ou o Auguste Dupin. Mas, com certeza, não é, não é, o Sherlock Holmes que o gênio Sir Arthur Conan Doyle criou.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sentimentos bonitinhos = Literatura ridícula


Toda vez que eu entro numa livraria e vejo a mesa de indicações ou de mais vendidos sinto uma repulsa que o meu vocabulário não possui palavras para descrever com completude de informação. [exagerei]

Fato é que parece que todo o lixo literário recém-produzido está ali. E isto me enoja. 

Ver ali os livrinhos açucarados de Nicholas Sparks, ou as depressões improdutivas de seguidoras mal-formadas de Clarice Lispector, ou de historinhas com vampiros brilhantes, bruxos adolescentes e lobisomens que desconhecem o advento da camisa.



André Gide

Neste momento, eu me lembro das belas e precisas palavras do gênio da literatura, André Gide, Nobel de Literatura de 1947, quando ele diz assim:

"É com os bons sentimentos que faz a literatura ruim."

Meus caros, eu ainda preciso dizer alguma coisa?
Os bons escritores são aqueles que conseguem fazer arte mesmo com os sentimentos mais pesados, humanos e antipoéticos que conhecemos.

Falar de amor e ganhar público? Qualquer menino de ensino fundamental faz isso.
Falar de dilemas cotidianos e ganhar o público feminino? É só ser piegas, e você realiza seu sonho.
Falar de fantasias andrógenas e ganhar o público adolescente? É só não exigir muito Q.I., e pode ir para a editora.


Eu quero ver Saramagos que falem da nossa raiz animal com poesia em outro "Ensaio sobre a cegueira"! 

Eu quero ver Gracilianos que discorram sobre a desumanidade dos seres humanos dados a situações extremas em outro "Vidas Secas"! 
Eu quero ver Wildes falando da efemeridade da beleza e da ilogicidade das vaidades humanas em outro "Retrato de Dorian Gray".

Quando chego à livraria, eu quero ver literatura de verdade, não diários femininos de oitava série.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Um certo Caio F. Abreu (2)


Caio Fernando Abreu é, indubitavelmente, o poeta mais lembrado da nossa época e o que exerce maior fascínio sobre esta nova geração.

Nunca escondi minha aversão a tudo que faz estrondoso, ou até relativo, sucesso. Em geral, o que é bom para a massa não é bom de verdade. Creio que Caio F. A. realmente não é exceção a tal  regra.

Seu estilo feminino é muito claro. Os seus textos parecem fofocar sobre a própria vida, e fofocar é o termo certo. Sua escrita mescla Clarice Lispector com Oscar Wilde, mas nem arranha a qualidade dos dois.

Com seus discursos ultrarromânticos, faz-se como uma versão feminina de Lord Byron. Mesmo que às vezes tente ser mais realista, seu tom de eterna confidência sentimental não deixa.

Quando fala sobre Deus, alcança o auge do clichê pós-moderno acerca do deus-que-é-amor-só-amor-e-que-só-faz-o-que-nós-desejamos. O deus de Caio Abreu é muito idealizado e corresponde à frase: "Quando algo bom nos acontece, foi Deus, mas se algum ruim nos acomete, ou foi o diabo (pros mais religiosos), ou foi o destino (para os mais relax)". O deus de Caio Abreu não existe.

Esta geração tem se afundado neste tipo de literatura e, com isso, não consegue respirar arte sóbria. Arte sem a máxima romântica de que "arte é desequilíbrio", a arte que edifica. A arte que tem se perdido, porque as pessoas tem seu perdido tempo sofrendo com os dilemas pseudo-profundos de Caio Fernando Abreu e suas adjacências contemporâneas.

Tendo lido muito de T. S. Eliot, e este inglês do século passado me ensinou algo notável...


Nós somos os homens ocos

Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!

Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada


Fôrma sem forma, sombra sem cor

Força paralisada, gesto sem vigor;

Entendem? Nós somos "o elmo cheio de nada", ou seja, pronto para a batalha, mas vazio. "Quando juntos sussurramos..." - o importante não é a união das pessoas, mas a entonação e o conteúdo do que é dito. Por isso não gosto de sussurrar junto com todos, antes prefiro gritar meus poemas cansativos dos séculos passados.

Até a próxima...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Crítica do livro "A morte de Ivan Ilitch"



O conde Leon Tolstói é um dos meus preferidos no campo da literatura, o meu preferido na literatura russa e seu livro “A morte de Ivan Ilitch” é o meu preferido em qualquer ramo considerado na literatura universal.

A afirmação supracitada é minha, toda minha. Há muito tempo venho procurando o meu livro preferido e, finalmente, o encontrei. O livro me prendeu de uma forma que o li em um dia e meio [e, se não fosse a minha proposta das férias, eu o teria lido novamente].
A crítica segue:

O livro começa pelo final [inovação se considerarmos seu lançamento em 1886]. No começo já temos a sentença que rege a história e determina o fim da novela.
“É com profundo pesar que Praskovya Fiodorovna participa a amigos e parentes a passagem de seu estimado esposo, Ivan Ilitch Golovin, membro da Corte Suprema, que deixou esta vida no dia  04 de fevereiro do ano da graça de 1882. O enterro acontecerá na sexta-feira, à uma hora da tarde” Pág. 05
Tolstói faz questão de dedicar uma longa parte da obra para nos ajudar a compreender Ivan Ilitch. Algo que demonstra intensa e perfeita profundidade psicológica.
“Ivan Ilitch era le phenix de la famille [...] Nem tão frio e formal quanto o irmão mais velho, nem tão rebelde quanto o mais jovem, era um simpático meio-termo entre os dois – um homem inteligente, educado, bem-disposto e agradável.” Pág. 20
As relações de Ivan são muito dissecadas e as análises de Tolstói chegam a ser risíveis por causa da simplicidade com que toma tais assuntos. A relação de Ivan com a família é destacada superficialmente, mas sua relação consigo próprio, com a mulher, com os filhos e com os amigos é muito explorada.
“[...] Perguntou-se: ‘Afinal de contas, por que não casar?’ Praskovya Fiodorovna vinha de boa família, não era nada feia e tinha algumas posses. [...] E foi assim que Ivan Ilitch casou-se” Pág. 26
O que Ilitch não esperava era que sua família fosse trazer problemas sérios e constantes para a sua vida. A esposa, antes perfeita, tornara-se controladora e exigente, ou seja, carente demais. Ivan vê-se numa situação desconfortável, mas já sabe o que fazer para sair dela.
“O nascimento da criança, as tentativas fracassadas de amamentá-lo e as várias doenças, reais e imaginárias, que acometeram mãe e filho, nas quais a ajuda de Ivan Ilitch era cobrada, mas sobre as quais ele não entendia nada, tudo isso contribuiu para se tornar mais urgente para ele a construção de um muro que o isolasse da vida familiar” Pág. 28
A vida superficial e vazia de Ivan é destrinchada e criticada, simultaneamente, mas com tom de felicitação irônica por ter alcançado este tipo de vida. Muitas vezes comparado a um ator, ele configura-se ao mesmo tempo como artista da palavra e falso vivente.
“Mas onde cessassem as relações oficiais, cessava também qualquer forma de contato. [...] Ivan Ilitch fazia tudo isso não apenas com leveza, prazer e perfeição, mas como quem realiza um trabalho artístico.” Pág. 41
Mas a vida semi-humana do próprio Ivan Ilitch vê-se abalada por uma situação bem humana, uma doença. Seu processo de humanização é descrito magistralmente por Tolstói. Começa por algo bem humano, nada mais humano que a dúvida.
“Nós, os doentes, sem dúvida fazemos muitas perguntas inadequadas. Mas diga-me, de modo geral, assim por cima, esses sintomas lhe parecem graves ou não?” Pág. 48
Depois da dúvida não respondida, o processo continua e Ivan é tomado pelo desespero. O desespero que é um mix de silêncio de todo mundo com uma gritaria interna, lá na alma.
“Seu coração se apertou, sua cabeça girou. ‘Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!’” Pág. 60
Depois da dúvida e do desespero, emerge na alma do próprio Ivan o maior indício da sua humanidade, o medo da morte. Vendo-se tão humano ele vê-se como mortal, e um mortal próximo de seu destino final.
“Ele então ia para seus aposentos, deitava-se e outra vez ficava a sós com ela [a morte]. Cara a cara com ela. E não havia nada que ele pudesse fazer com ela, a não ser olhar e estremecer.” Pág. 67
O fim inevitável e a situação indigesta confluem para um ponto nítido e claro. Embora seja pesada, a verdade é muita presente.
“[Tudo] concentrava-se em um único ponto: saber quando ele afinal partiria e libertaria finalmente os vivos do constrangimento de sua presença e a si próprio de seu sofrimento.” Pág. 68
Nesse processo de humanizar-se, Ivan prossegue como humano, e, como todo humano, ele percebe que precisa das outras pessoas. No meio da hipocrisia e das falsas demonstrações de sofrimento, Ivan Ilitch encontra um apoio sincero e permanente no seu empregado Gerassim. Se fosse num livro de Wilde, eu acharia estranho, mas como é Tolstói, russo de verdade, acho que era só amizade.
“Gerassim fazia tudo calmamente de boa vontade, com simplicidade e uma boa vontade que comoviam Ivan Ilitch. Nas outras pessoas, saúde, força e vitalidade ofendiam-no, mas a força e a vitalidade de Gerassim, ao contrário de aborrecê-lo, transmitiam-lhe calma.” Pág. 72
Chegando ao auge da sua humanização, depois de sentir dúvida, desespero e solidão interna e externa, Ivan começa a dirigir-se a Deus. Bem humano este Ivan, não é?
“Por que o Senhor fez isso comigo? Por que me fez chegar até esse ponto? Por quê? Por que torturar-me tão horrivelmente?” Pág. 87
O fim estando próximo, Ivan começa a lembrar-se do início. Com tom de nostalgia e chega a uma conclusão: “Assim como a dor piora cada vez mais, minha vida toda foi progressivamente piorando.” Mas Tolstói põe sua opinião sutilmente com seu tom de nota de rodapé.
“A vida, uma série de sofrimentos cada vez maiores, acelera rapidamente para o final e este final é o sofrimento mais terrível.” Pág. 93
Ilitch começa a entender o que se passa ao seu redor e começa a revoltar-se no fim de sua vida. Algo pouco entendível para quem sempre conviveu com o Ivan semi-humano.
“Era verdade, disse o médico, que a dor de Ivan Ilitch era terrível, mas, pior do que ela, eram seus sofrimentos mentais, sua pior tortura.” Pág. 95
Ivan tem medo do seu futuro fim, mas tem um medo gritante de seu passado frio, oficial, calado, formal.
“[Ivan pensou] ’E se na verdade toda a minha vida tiver sido errada?” Pág. 95
Quando a morte chega para Ivan, não há desespero nem medo. Apenas há a morte, ela por si própria, com seu manto apassivador.
“’A morte está acabada’ disse para si mesmo. ‘Não existe mais. ’ Respirou profundamente, parou no meio de um suspiro, esticou o corpo e morreu” Pág. 101
Um livro curto e conciso sem deixar de ser complexo.