Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Manifesto do ignoto



“Ninguém é pai de um poema sem morrer”
Manoel de Barros

Na verdade, na verdade, escrevemos porque somos tristes. Nosso poema, nosso conto e até nossos romances – reais ou morais – são nossos atestados de tristeza. Não se engane, nossa escrita não vinga, se não estivermos com vontade de des(ex)istir.

No descontar das notas e no despontar da dor, restam textos soltos, palavras avulsas, os nós de um passado ou mesmo nós mesmos esquecidos, cacos de vasos, vidro ou barro no chão. Se a realidade disser “chore”, nós escrevemos com as lágrimas na caneta, no lápis, no teclado – ou sem lágrimas.

O meu poema de amor é relato do amor que tive, que não tenho. Se escrever poema de amor vivendo amor, não tem a mesma graça – nem o mesmo pesar –, passa mais poesia depois que o amor acabar. Passa mais poesia, porque nasce do amor, mas deságua na tristeza – ou nasce da tristeza e debruça no amor, já não sei.

Amor é tema de poema, porque dá susto e porque sustenta a gente por semanas, meses, anos – inclusive dizem que pode sustentar para sempre. Lembro de nós meninos e vislumbro nós adultos, não sei até quando serei eu a ocupar meu cargo na existência.

Cada poema é meio obituário de esperança, é meio plaquinha “faça silêncio”, é meio pedido de casamento, é meio rescisão de contrato, é meio sono, é meio cansaço, é como carrossel que, embora rime com céu, nunca ascende ao firmamento.

Meu poema – não tenho vergonha – fala da minha tristeza, impotência, medo. Meu poema tem medo do futuro, porque o tempo roubo dois ou três versos metrificados. Meu poema – não tenho dúvida – fala de mim como se eu não existisse e houvesse um outro que me ocupa: estrangeiro, nômade, eremita, vagante, olhos turvos, mãos trêmulas e leve esquizofrenia.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

_ carta

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Sempre ouvi que não se deve começar falas ou cartas pedindo desculpas por algo, mas não vejo outro modo de iniciar isto aqui.

Então, perdão por já começar assim, pedindo perdão.

É que eu tenho errado tanto e tantas vezes e... tenho sido indigno. Quem fecha-se em muros não merece brisa, mas eu, que em muros me mortifiquei, recebo sempre do teu sopro diário. Quem faz teto contra a chuva não merece sol, mas eu, que me cobri de concreto, recebo de tua luz por frestas que a própria luz abre. Quem não abre janelas não merece ver a rua, mas eu, que não rasguei as paredes, sei dos problemas dos que atravessam a rua com o celular no ouvido, os papéis na mão, o vazio no estômago, o oco no coração, o vácuo no pulmão e o atraso no pensamento. Quem não coloca portas não merece receber visitas, mas eu, que mantenho meu cárcere intacto, tenho tua presença nos fins de tarde, não tomamos chá ou café, mas algo do som quente dos teus pulmões aquece meus invernos que vigoram nas minhas caixas - torácica e craniana.

Tenho também que agradecer pelas tuas surpresas, as que eu nem sei contar e que ainda preciso te perguntar sobre o como e o porquê.

Os caminhos não me cantam futuros. São todos incerteza. E eu aguardo tua visita amanhã ou hoje ainda, precisamos conversar. Tenho medo de que você canse e me abandone no meu cubículo - que é fechado e pequeno, mas bem localizado.

Eu me morro numa vida de felicidade inverossímil. Gosto de me despir dos adornos na sua frente - sem medalhas, sem armadura - e de dizer que estou tentando aprender, mas pareço não saber ler os teus recados na caixa de mensagens. Sei dos teus quereres em mim, mas não os conheço, e te amo, o que me destrói e me enche dum impreenchido desejo de ser.

Ser não o que sou - que é pouco. Ser não o que vi no delírio. Ser não o mais alto ou o mais central. Ser o que teus sussurros regem e o que teus olhos acompanham. Não tenho medo de tua mão, quando a sinto, ela já foi e deixou apenas a ferida ligada, como que costurada nas tuas linhas.

Preciso dormir. Espero sua visita. Deixarei café e chá prontos pra te esperar. Preciso saber quais são os meus planos.
Apareça, assim que der.



____________________ R. Albuquerque

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Clara e a maldição

Clara fora amaldiçoada ainda antes de ser gerada. Outras vezes, enquanto era tecida. E, por fim, fora amaldiçoada por sete tias com sete palavras:
"Já é linda, será ainda mais linda!"
E a pobre criança cresceu. Já cedo, sentiu o cumprimento daquelas palavras: dois olhos infinitamente negros, cabelos ainda mais negros e uma pele tão clara e macia que criava inveja nos algodoeiros.
Clara nunca seria mais uma moça. Ela sempre se destacaria. E os garotos - pobres garotos - teriam que trabalhar muito para não se apaixonarem por ela, para mantê-la longe de seus sonhos, para afastarem seu nome das suas bocas. Aos que não tinham tanta força de vontade restava louvar-lhe a beleza, a sinceridade, seu olhar, seu toque - mesmo que dele nunca tenham experimentado.
E o tempo revelava que a maldição cumpriria-se em plenitude: 
"Já é linda, será ainda mais linda!"
Mesmo nos primeiros compassos instáveis da juventude, Clara poderia obliterar o mundo com um olhar e recriá-lo ao primeiro sinal de sorriso - e inúmeras vezes ela fez isso com o universos dos desprotegidos.
Clara, pobre Clara, às portas de sua alma, meninos de dez - doze, vinte, quarenta e até cinquenta - anos entregavam suas vidas. E Clara era obrigada a devolver cada caixa com um sorriso no rosto e uma culpa na alma.
A maldição funcionara.
"Já é linda, será ainda mais linda!"
Clara, doce Clara, um dia saiu de casa sem pretensões de encontrar o amor. Olhando para baixo, cantarolava a terceira de sua lista de músicas preferidas e andava rápido. Batiam três horas da tarde no relógio e o sol não perdoava. Chegando ao destino - a padaria - ergueu os olhos que passaram pelos de um pobre homem desavisado. Ela continuou andando, mas ele não. As terras daquele homem haviam sido saqueadas e destruídas. 
Na inocência que nem sei se ainda lhe cabia, Clara voltou para casa com um saldo modesto: cinco corações atacados, três mortos e dois em situação grave.
Corrosiva maldição. 
"Já é linda, será ainda mais linda!"
E a cada amor dependente criado por ela num coração perdido era motivo para algumas horas de choro vivido e soluçado, depois ela teria de explicar que não poderia haver nada entre eles por que ela nada sentia - por vezes, nem sabia o nome do indivíduo que à sua porta vinha mendigar amor.
Negros olhos, neles poderia ver-se todo o universo e contar todas as estrelas de uma noite - contando-as uma a uma, suspiro a suspiro, sobre o corpo virgem que tanto atraía que assustava os passantes - que a desejavam apenas por vê-la debruçada na janela.
A maldita maldição.
"Já é linda, será ainda mais linda!"
E num devaneio decidiu cortar o rosto, pois as cicatrizes levariam embora a maldição: já não seria bela. Soava a quarta hora do dia, era escuro e tudo na casa era silêncio. Ela levantou-se e foi buscar a faca, pegou-a, voltou ao quarto. Sem ligar a luz para ver o que faria, Clara sacou a faca. Fechou os olhos. Acertou o punho esquerdo. O dia seguinte foi choro e desespero.
A maldição funcionara.
"Já é linda, será ainda mais linda!"

- Raul Cézar de Albuquerque

domingo, 12 de agosto de 2012

Último Passeio



Era noite densa e ele só via a névoa que tomava a rua. O dia havia sido monótono. Seus olhos ansiosos quase não piscavam e pediam que algo acontecesse urgentemente - pois bem, nada aconteceu. Ele desceu à rua para ver se algo acontecia - pois bem, nada aconteceu.
Decidiu sair para ver a cidade à noite - sem considerar os perigos de sair naquele horário sem avisar a ninguém, pois mulher e filhos dormiam.
O primeiro passo foi difícil. "Como é difícil fazer o que nunca se fez!", ele pensou em voz baixa. Respirando fundo o ar frio que andava por ali, ele foi andando pela rua de sua casa, que era iluminada, mas estava deserta. Para ele, o ato de sair andando pela rua por nada era ilógico - mas pareceu-lhe necessário.
Virou a esquina sem medo - mas com ânsia, aquela ânsia que toma as crianças no dia anterior a uma viagem ou a um passeio e que as deixa sem sono, sem fome, sem outras vontades, que as prende de modo singelamente escravista.
A rua pela qual ele andava agora era longa e pontualmente iluminada – era necessária muita perícia para não tropeçar em pedras ou pisar em buracos. Mas ele seguia – sem rumo e sem guia, mas seguia.
Numa calçada pouco limpa, onde dormiam alguns homens barbudos, ele sentou-se sem motivo e ali ficou por alguns minutos. Ali pensou em como não havia construído nada e como tudo em sua vida estava sem perspectiva de futuro – ao menos, de um bom futuro.
“Nada vai bem, mas... como as pessoas permanecem inertes diante de um prenúncio tão claro? Como eu permaneci tanto tempo inerte? Por que permaneço inerte? Talvez, porque é mais fácil ficar inerte e fingir que nada acontecerá – mas... e quando acontecer, o que faremos?”, divagava ele.
Imaginou a imagem dele, ali sentado, ela horrorizou-lhe e ele levantou rapidamente. Limpou as mãos e a calça – simultaneamente – num ato reflexo. “Como faço coisas de modo automático! Não posso me orgulhar disso.” Recriminou-se.
Era madrugada e só ouvia-se o vento na rua. Ele vagava e divaga pela rua. Sem sono, ele continuou andando e vendo mães dormindo abraçadas aos filhos – aos muitos filhos – e lembrou-se dos seus filhos: três crianças ingratas e irritantes, segundo ele. Viu também homens – provavelmente bêbados – abraçados a cachorros – “dizem que os iguais já não se repelem”, pensou num respingo de humor próprio.
Não havia lágrimas ou soluços, mas havia choro e aquele lugar era choro. Sem lágrimas e com chuva. Sem soluços e com uivos dos ventos noturnos. Tudo ali era choro.
Seus olhos fecharam-se lentamente e, quando abriram, avistaram uma criança dormindo sozinha. Seu ímpeto era ir até lá e levar aquela pobre e anônima para a sua casa – mas ele percebeu que ele não era assim, algo havia de errado com ele. A criança ali permaneceu.
Noutro relance, ele sentou-se na calçada e viu uma mulher – velha, negra e gorda – que lhe lembrava sua avó. Para ser sincero, ele nunca conhecera sua avó, mas imaginava-a assim. Pensou em deitar ali e até inclinou as costas, mas o chão pareceu-lhe desconfortável – duro e frio. Seguiu viagem e voltou para casa – tudo voltaria ao normal, ao caos normal.
Ao chegar a sua casa, percebeu que a mulher esperava-o sentada na cama – sonolenta e inexpressiva, como sempre. Ela perguntou-lhe o que houvera acontecido e aonde ele fora àquela hora, e ele respondeu: “Fui fazer um passeio.” Deitou-se e dormiu em pouco tempo.Na manhã seguinte, ele não estava lá. Tudo no lugar certo e um bilhete mal-escrito que dizia:
“Fui passear, não me espere, é possível que eu não volte, é possível que eu volte, é possível tudo, tudo é possível, durma agora, é domingo, ainda há tempo para dormir, durma, pois é domingo. Mas, a mim, não importa se é domingo, não poderia continuar dormindo. Do seu viandante sobre as nuvens.”


Raul Cézar de Albuquerque
- Aventurando-me nos contos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Os três sorrisos e a última paciente...

Inicio o ano, inciando minha carreira de contista... espero que gostem...



E
le sorriu. E, mantendo o sorriso, guiou-a até a porta e despediu-se com um aperto de mão fraco, só pra não passar por médico grosso. Aquele sorriso parcial e inexpressivo que parecia ser tão cordial, na verdade, escondia uma face irônica: “Ela está aqui rindo, mas não deve durar muito. Já é um quadro muito avançado.” Foi fechando a porta lentamente e mantendo o sorriso, mas no exato momento em que se fechou a porta, fechou-se também o sorriso. Aquele sorriso fechou-se.
Fechada a porta, ele correu para a sua cadeira e desabou como se tivesse sofrido trabalho escravo, situação muito longe da sua. Olhou para o relógio e, com profunda raiva de alguma coisa, percebeu que ainda eram cinco horas. Logo, ainda havia um paciente.
Pediu a alguma coisa ou alguém que regia o universo que o paciente faltasse por qualquer motivo. Não importava o motivo da falta, o que importava era ele ir pra casa mais cedo para realizar mais uma tentativa de ser feliz sozinho. Ele realizou uma prece sem destinatário definido com os olhos fixos no relógio. Depois olhou para o telefone e esperou ouvir que o último paciente faltara.
O telefone tocou. Ele atendeu. O paciente viera. Na verdade, a paciente viera. Sem dizer uma palavra, ele maldisse toda a sua existência até ali. Retomando as palavras, disse que ela podia entrar.
Ela deu leves batidas na porta e, rapidamente, abriu-a. Deu de cara com o sorriso dele.
Ele sorriu. Armara aquele sorriso na hora e era exatamente igual ao último, aparentemente. Este também era parcial e parecia cordial. Este escondia uma face irada contra o tudo, ou contra o nada, ou contra o todo de uma vida que geralmente, juntando mais e menos, problemas e soluções, defeitos e virtudes, resulta em nada.
Com o sorriso, indicou a cadeira. Ela sentou-se. Ele percebeu que o rosto era conhecido, mas recorreu à ficha para descobrir qual o nome e o caso daquela que deveria ter faltado. Não achou a ficha e, mesmo assim, continuou a penosa conversação.

- Oi, qual é o problema que lhe traz até aqui?
- Doutor, eu já vim aqui há algum tempo com algumas dores e o senhor me indicou vários exames. Demorou um pouco, mas eu fiz todos. – colocou os papéis sobre a mesa – Estão todos aí!

Com grunhidos indiscerníveis e monossilábicos, ele ia analisando os exames com uma preguiça que parecia atenção e paciência, mas não passava de preguiça, a mais vil e pecaminosa preguiça.
Depois de certo tempo investido em fingir ler resultados, ele olhou para ela com tom de quase-compaixão, pegou uma folha, começou a rabiscar termos ilegíveis e, de modo desdenhoso, entregou-a a folha com várias prescrições bem paliativas.
Ela segurou o papel, guardou-o na bolsa, levantou-se e agradeceu sinceramente. Caminhou até a porta lentamente, cuidando para não fazer muito barulho. Estava decidida a sair, mas algo a impediu de fazê-lo. Ela permaneceu segurando a maçaneta da porta, mas não a girava. Mantinha o olhar fixo no relógio que marcava algo em torno de 17h45min. Ela olhou pro médico e perguntou:

 - Senhor, me desculpe a indelicadeza, mas... – pausou-se por algum motivo de auto-regulação e retomou – eu vou morrer?
- Claro! – disse ele com cara de brincadeira – todos nós morreremos um dia.
- Doutor, guarde suas piadas para quem gosta. – tomou um tom sério e lamentoso – Nós dois sabemos do que estou falando.
- Desculpe-me, a intenção não foi ofender...
- Por favor, poupe o nosso tempo e diga logo se irei morrer por causa dessa doença ou não! – já não era a mulher que entrara timidamente, ela agora lutava pela sua vida, de certo modo.
- Quer se sentar? Acalme-se conversaremos com calma sobre este assunto. – Ela logo se sentou e manteve o olhar inquisidor.
- Pela sua recusa, entendo que eu vou sim morrer por causa desta doença. Então, você poderia me dizer quanto tempo eu tenho de vida?
- Nós... – Já muito assustado falava rapidamente e, às vezes, muito pausadamente – Nós não podemos afirmar um tempo exato...
- Entendo, eu posso morrer atropelada ali na esquina, posso ser assassinada pela minha filha amanhã... Entendo... E acho melhor que não me diga. Nessa idade, já deveria ter me acostumado a viver cada dia como se fosse o último.
- Não seja tão fatalista, tente ser mais otimista – ele nem pensava no que falava, só citava frases decoradas durante a vida profissional.
- Otimista?! – ela tomou tom sarcástico – O otimismo é o disfarce dos que nada esperam da vida. Otimistas alienam-se ou frustram-se. Os realistas geralmente têm suas expectativas correspondidas. Eu sou realista! Sem negar que tenho traços pessimistas, mas porque a vida me obrigou a carregá-los comigo.
- A senhora fala – ele abaixou as armas – como quem já sofreu muito.
- Meu caro, - vestiu a capa do eterno lamento – eu tenho 57 anos! Eu já vivi muito, por conseguinte, já sofri muito. Mas... Por que logo agora? – lágrimas tomaram-lhe os olhos.

O médico já não sabia o que fazer ou falar. O silêncio longo e tenso tomou tudo. Tomou a sala, as duas almas, os quatro ouvidos e as duas bocas. Tomou as duas vidas. Assim, aquele silêncio tenso e longo tomou e retomou infinitas lembranças.

- Por quê? – ela já não falava para o médico, perguntava a alguém dentro ou fora dela – Para mim, tudo sempre foi muito triste, tudo foi muito “é melhor esquecer”. Quando tudo parece estar mudando pra melhor, quando tudo muda de figura, eu fico sabendo que vou morrer! Mas, por quê?

Depois desta fala tão clara, o médico levantou os olhos e viu todos os sulcos da face daquela mulher sendo preenchidos por correntes de água que fluíam sem parar de seu olhar, até então, tão sóbrio.
Humanidade. Fragilidade. Estas palavras nunca se fizeram tão sinônimas. Ele temeu pela sua vida. Ele olhou para a estante de livros e percebeu o quanto eles eram supérfluos. Lembrou-se do quanto tinha estudado para chegar até ali, do tempo investido para chegar até ali, até aquele cansaço, até aquela tristeza, até aquela semi-morte, a morte que só espera a consumação científica.
Aquilo nunca lhe havia acontecido. Lembrou-se de um encanador que viera uma vez ao consultório para reparar um problema qualquer. Enquanto esperava o pagamento, o homem, que parecia ter seus quarenta e tantos anos, lia um livro pequeno. Quando o médico ia dar-lhe o dinheiro, não pode deixar de observar uma frase destacada na página: “A vida é um vão entre dois nadas.”
Aquela frase agora fazia todo o sentido. No momento, foi motivo de um riso debochado, seguido de um pagamento frio. O homem até murmurou um “obrigado!”, mas não ouviu a resposta. O médico é que lhe devia um grande “obrigado!”. A frase mudaria sua vida.
Depois da introspecção, ele voltou os olhos para a mulher. Percebeu que ela aprontava-se para sair e que ela já tinha enxugado as lágrimas. Viu-a sair lentamente. Viu-a segurando novamente a maçaneta. Viu-a girar a maçaneta. Viu-a abrir a porta. Viu-a ir-se sem fazer barulho. Viu-a sumir na penumbra do corredor que levava à sala de espera. E, não mais a viu.
Ele fechou os olhos. Ele respirou fundo e afundou-se na cadeira. Ele abriu os olhos. Ele pensou em olhar para o relógio pra ver a hora, mas não o fez, pois não era necessário. Ele olhou para algo pela janela. Ele fechou os olhos novamente.
Ele sorriu. Mas este sorriso era inédito. Este eu não entendi. Nem ele sabia por que sorria. Só posso afirmar que ele sorriu.
                                       
Raul Cézar de Albuquerque