Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Respingos de Genialidade #33


"Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, no bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente sobre a terra. 
[...] Uma mão fria aperta-me a garganta e não me deixa respirar a vida."

Fernando Pessoa, no trecho 141 do "Livro do Desassossego".

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Os outros nomes de Fernando Pessoa


Fernando Pessoa é - nunca é demais relembrar - o maior nome do poesia modernista portuguesa. Destaca-se não só pelo seu lirismo absurdo e pelo jogo literário que construiu, mas por que ninguém absorveu como ele o espírito modernista: O que não tem caráter, mas que precisa ser caracterizado.
Pessoa incorporou a dúvida do início do século: "O academicismo morreu, mas... e agora?" e decidiu reunir em si próprio tudo do passado que poderia levar ao futuro da poesia. Para isso, deixou sua personalidade de lado e deu lugar a personagens - ou personas como fez a ironia da História ao colocar como sobrenome do poeta - "Pessoa" - o nome dado às máscaras do teatro grego.

O poeta tinha uma relação muito mística com a palavra - assim como os grandes Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Isso, juntamente com toda a sua genialidade, resultou na construção de mais 70 identidades falsas entre heterônimos, semi-heterônimos e esboços de heterônimos. Tornou-se um criador de escritores.
Seu processo de construção de poetas, porém, destaca-se pelo refinamento, pois cada heterônimo possuía nome, biografia, profissão, ideologia, estilo próprio, "escola" literária marcante e mapa astral específicos.

Nesse infinidade de escritores criados pelo próprio Pessoa, destacam-se três heterônimos pela complexidade e pela perfeição da construção identitária, são eles:

Alberto, Ricardo e Álvaro imaginados pelo pintor Almada Negreiros

1. Alberto Caeiro:
Segundo Pessoa, o mestre de todos os outros heterônimos. Caracteriza-se como um poeta árcade que fugiu para o campo. Ele prega a simplicidade das coisas, despreza as "questões universais" e pouco se dedica à filosofia e à metafísica. Sua principal obra é "O Guardador de Rebanhos".

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.

(poema IX em "O Guardador de Rebanhos")


2 . Ricardo Reis:
Como Caeiro, ama o campo e a vida bucólica, mas tem o pessimismo causado pela inevitabilidade da morte e pela passagem cruel do tempo. Poeta neoclássico, busca no epicurismo a raiz da felicidade, ele desconfia da felicidade plena e controla tudo com a razão. Escritor de suas "Odes".

Só esta liberdade nos concedem
Os deuses: submetermo-nos
Ao seu domínio por vontade nossa.
Mais vale assim fazermos
Porque só na ilusão da liberdade
A liberdade existe.
(ode de Ricardo Reis)



3 . Álvaro de Campos:
É o mais ligado ao movimento modernista, com forte tendência ao futurismo. Abusa do verso livre (ainda metrifique e rime às vezes), das pontuações exclamativas e das onomatopeias. Engenheiro naval, apresenta uma poesia por vezes desleixada ou rápida demais - característica futurista - e, outras vezes, uma poesia reflexiva.

Temos todos duas vidas:

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
("Datilografia" de Álvaro de Campos)

Há ainda o ortônimo Fernando Pessoa (ele mesmo) que escreve "Mensagem", poesia carregada de nacionalismo e saudosismo. Na obra, ele acaba por misturar o épico e o lírico ao (re)contar as histórias de Portugal. Ainda na sua obra lírica, destaca-se "Cancioneiro" onde o poeta explora temas existenciais como amor, solidão, futuro e infância.

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
("Mar Português" (do livro "Mensagem") de Fernando Pessoa)

Na prosa, há o semi-heterônimo Bernardo Soares (que em muito se assemelha ao próprio Pessoa) que escreveu "Livro do Desassossego", livro com forte carga emocional e cheio de um pessimismo encravado pela modernidade no homem comum. O livro destaca-se pelos aforismos e pela profundidade reflexiva.
"Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios. (Importa soberanamente que não amemos)" - Bernardo Soares em "Livro do Desassossego"

sábado, 20 de outubro de 2012

20 de Outubro - Dia do Poeta

Hoje, é o dia - ainda que gratuitamente - em que comemoramos a vida - e a morte dos Poetas (e faço questão de colocar o substantivo como próprio, como Baudelaire fazia).
Então, vou tentar homenagear os poetas mais importantes na minha vida de leitor - e de poeta também.
Segue a lista:

Vinícius de Moraes
 Quem me fez começar a gostar de poesia.

Fernando Pessoa
Quem me fez crer que eu poderia escrever poesia.

Pablo Neruda
Quem me disse por que escrever poesia: "É necessário"

Manuel Bandeira
Quem me mostrou a por a complexidade em formas simples


Charles Baudelaire
Quem me disse que a poesia pode - e deve - ser transgressora

Carlos Drummond de Andrade
Quem gritou: "Nem só de suicidas viverá a poesia."


Há um poema de Sérgio Lopes que descreve bem essa saga pessoal que é ser poeta:

Poetas são, por natureza, inconformados
Com a despoesia das vidas acinzentadas;
Com o sacrifício dos amores anulados
Pelo egoísmo das pessoas mal amadas

Poetas são, por natureza, solitários
A multidão que o acompanha são seus versos
No tempo em que viver são como missionários
De um lado a outro, seus escritos são dispersos

Mas quando finalmente morrem os poetas
Surgem os críticos, editores com suas metas
De publicar cada soneto rabiscado;

E só assim o mundo aceita a poesia:
Sendo o poeta vivente, ninguém ouvia.
Quando se cala seu poema é idolatrado.


Agora, segue uma homenagem a boa parte dos grandes poetas que me fazem respirar fundo e crer que ainda há muito a escrever, e perceber, e descobrir.



domingo, 26 de agosto de 2012

Respingos de Genialidade #26



"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, em uma de suas Odes.

domingo, 5 de agosto de 2012

Respingos de Genialidade #23



"O coração, se pudesse pensar, pararia."


Fernando Pessoa, trecho I do livro "O Livro do Desassossego"

domingo, 24 de junho de 2012

Respingos de Genialidade #22


‎

"Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo".

Fernando Pessoa (sob o heterônimo Álvaro de Campos), no poema "Passagem das Horas".

sábado, 16 de junho de 2012

Felicidade (de Fernando Pessoa)




Fernando Pessoa é, de longe, um gênio. Aos seus pseudoamantes, basta saber que ele é famoso pelos seus inéditos e superelaborados heterônimos. Mas, aos loucos que sonham em dissecar sua mente loucamente literária, Pessoa é o grande nome da literatura portuguesa (ao lado, é claro, de Camões). Usado um tema muito clichê - que tornaria qualquer poeta comum mais comum ainda -, a felicidade, Pessoa derrama sua poesia no papel...

Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

(Felicidade, de Fernando Pessoa)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Respingos de Genialidade #6

 


"Não sou nada.
 Nunca serei nada.
 Não posso querer ser nada.
 À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"
 Fernando Pessoa, sob Álvaro de Campos, em "Tabacaria".

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sinta quem lê!

 

Depois do meu último poema foi bombardeado  por pessoas que realmente achavam que eu estava depressivo ou triste demais ou sofrendo por amor (pessoas que nunca ouviram falar em "eu-lírico"). E nada melhor para acabar com discórdias que um poema do professor eterno Fernando Pessoa... Isto:

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!