Bem-Vindo ao Estação 018!
segunda-feira, 4 de março de 2013
Dez suicídios
A moça de chapéu rosa
seguia apressada pela avenida
- ninguém sabe que, antes de passar o batom,
ela olhou para o espelho, viu em si
o rascunho do fracasso e pensou em
correr à cozinha para rasgar os pulsos
mas pensou no sorriso não dado
e continuou a maquiar-se.
O rapaz do boné cinza
caminhava tranquilo pela calçada
- ninguém viu quando, após matar
a namorada, na noite anterior, ele pensou em matar-se,
mas pensou na vida e na filha
e ligou a televisão seu time estava perdendo.
A garota do alargador discreto
andava com o fone de ouvido
- ninguém percebeu as olheiras,
tapadas pelos óculos escuros,
cultivadas no choro da noite anterior,
ela pensou na morte como solução,
mas o soluçar só a fez dormir.
A senhora de vestido azul-claro
tentava atravessar a rua
- pela madrugada,
a morte havia lhe visitado,
ataque cardíaco, mas
ela resistiu sem porquê,
arrependeu-se depois de ter resistido,
mas já era manhã.
O moço discreto de calça jeans
esperava o ônibus
- o ódio do pai ao seu namorado
o fez comprar o remédio e
pensar em tomar doze cápsulas,
matando assim as doze mil dores
que ele levava na alma,
mas a mãe o fez dormir
sobre os velhos e calmos seios que o amamentaram.
A mulher de blusa florida
também esperava o ônibus
- a terceira traição do marido
a fez sair de casa disposta a pular da primeira ponte que visse,
mas não encontrou pontes e o ar da noite acalmou-a.
A criança de camiseta branca,
filha da mulher de blusa florida,
também espera o ônibus
- também haveria suicidado-se
se a mãe o fizesse,
mais cedo ou mais tarde.
O velho de paletó cinza,
velho como o dono,
espera um milagre,
ou só o ônibus
- à noite, havia pensado nas
dívidas e refez os cálculos da aposentadoria,
ele e a solidão concluíram que
era impossível, sem criatividade
para o suicídio, voltou à mornidão do cotidiano.
A menina de saia vermelha
esperava qualquer ônibus
- estava fugindo de casa,
já que lhe faltava a coragem
para fugir da vida.
E chegou o ônibus.
Nele subiram o chapéu rosa,
o boné cinza, o alargador discreto,
o vestido azul-claro, a calça jeans,
a blusa florida, a camiseta branca,
o paletó cinza e a saia vermelha.
Quem dirigia um ônibus era João.
Havia tido uma péssima noite,
outra vez sozinho,
abandonado pela mulher e sem filhos,
as noites eram difíceis.
Seguia o ônibus pela estrada
e João não aguentou:
jogou o ônibus na encosta íngreme.
Saldo da manhã: dez mortes.
dez suicídios?
Raul Cézar de Albuquerque
04/03/2013
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voltando aqui em 2018 pra deixar um comentário que nunca deixei mas que sempre expressei: eu amo com todas as forças esse poema!
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