Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

quinta-feira, 21 de março de 2013

Sobre "A Busca": o cinema brasileiro encontrou-se


 Foi recentemente lançado o filme "A Busca". E eu - que sempre tive minhas ressalvas ao cinema nacional - reconheço que o filme ultrapassou o limite do comum, do óbvio, do que geralmente se espera de um filme brasileiro. 



A sinopse sugere um "thriller dramático", mas ele é bem mais drama que thriller. A busca de um pai por um filho é apenas a "deixa" para um viagem para desenterrar lembranças e sentimentos esquecidos, ressuscitar uma paixão e desbravar novas terras.
O sumiço do filho leva os pais - então, separados - a repensarem conceitos e julgarem-se no papel de pais e, consequentemente, guias e testemunhas da vida do filho. Cientes das faltas nas suas funções, percebem o significado da fuga.


O elenco fixo do filme resume-se a Wagner Moura - que representa Theo, o pai do fugitivo Pedro - e Mariana Lima - que representa Branca, mãe de Pedro. Ambos sustentam a trama, apresentando um casal esfriado pela rotina e separado pelo cotidiano que revive para ter de volta seu filho.



A presença do Brás Antunes - que representa Pedro, o filho que foge, e que é filho do grande Arnaldo Antunes - é pouco marcante e o próprio roteiro não dá margem de atuação ao personagem que tem destaque no começo, mas durante o filme tem rápidas aparições. A presença de Lima Duarte - que representa o avô de Pedro, pai de Theo - é um presente que é dado ao espectador no fim do longa.


Direção, roteiro, fotografia e trilha sonora impecáveis. A produção inclui o nome do gênio Fernando Meirelles.


"A Busca" representa a procura de um homem comum - imerso no "desespero silencioso" -por uma verdade perdida nas curvas da estrada. Atrás do filho, o pai encontra-se novamente consigo próprio.

domingo, 17 de março de 2013

"Artes Poéticas (II)" de Pablo Neruda


Não descobri nada eu,
já tudo estava descoberto
quando passei por este mundo.
Se regresso a estes lados
peço aos descobridores
que me guardem alguma coisa,
um vulcão que não tenha nome,
um madrigal desconhecido,
a fonte de um rio secreto.

Fui sempre tão aventureiro
que nunca tive uma aventura
e as coisas que descobri
estavam dentro de mim mesmo,
de tal modo que defraudei
a Juan, a Pedro e a Maria,
porque por mais que tenha me esforçado
não pude sair de minha casa.

Contemplei com inveja intensa
a inseminação incessante,
o ciclo dos satélites,
o acréscimo de esqueletos,
e na pintura vi passar
tantas maneiras fascinantes
que apenas me pus na moda
já aquela moda não existia.

Poema "Artes Poéticas (II)" de Pablo Neruda
Escrito em Isla Negra, e publicado no livro "Fin del mundo", em 1969.
Traduzido por Raul Albuquerque

sábado, 16 de março de 2013

Tanto tempo


E depois de tanto tempo
olhando para fora,
percebi agora
que o céu estava nublado,
que o céu estava fechado,
que a chuva nunca caía
e que o sol nunca saía,
mas eu esperava
um milagre.
que milagre?
um milagre.

E depois de tanto tempo
esperando na janela,
esperando por ela,
varando a noite fria
e na madrugada eu já ria
de mim,
pela manhã vazia
eu já desistia 
de dar-lhe meu sim.
meu sim.
que sim?
meu sim.

E depois de tanto tempo
de pé,
a hora é 
de reconhecer a desistência
pois o sol foi-se sem clemência
e a lua sobe sem graça
certa de que tudo passa
e a vida flui
para onde não fui
nem irei
nem sou rei
nem sou plebe
não se percebe
que sou o que fluiu
para fora do que ruiu
para fora da muralha
que encerra a fornalha
do tempo.
que tempo?
do meu tempo.

Raul Cézar de Albuquerque
15-16/03/2013

quinta-feira, 14 de março de 2013

14 de Março - Dia da Poesia



Hoje é o dia da Poesia! - e eu não estou a fim de chover no molhado... Já falei muito sobre o assunto no post do dia do Poeta. Em todo caso, as datas equivalem-se, pois poesia e poeta coexistem.



São novos tempos e a - pobre? - poesia vem perdendo espaço. Há mais de cinquenta anos, um livro de poemas não entra na lista de mais vendidos. Mas é irônico perceber que nestes mesmos tempos modernos é que ela é mais necessária, pois a catarse é mais necessária em tempos de cárcere. Em tempos de total conexão, desconectar-se é necessário.


Para fechar o curto post, um poema eterno do Bandeira: "Desencanto".
Num processo metapoético, o poeta pernambucano tenta explicar seu processo produtivo e conclui sem pudor...


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

Agradeça


Meu caro,
deixe disso.
Você não está apaixonado
- e agradeça.

Em seus catorze anos,
é natural esse querer incessante
por alguém inusitado.

Em seus catorze anos,
nem precisa ser sexta-feira treze
para entender que há doze doses 
de verdades a serem lidas onze vezes
por dez garotas distantes
de nove cidades interioranas,
cada cidade com oito praças,
cada praça com sete crianças,
cada criança com seis sorrisos,
cada sorriso com cinco dentes,
seguido de quatro quedas
e três choros com dois soluços
e um final.
E o saldo é zero.

Meu caro,
deixe disso.
As qualidades que nela vês
nunca existiram... e o que te encanta
é o trivial.

Não cultives a dor.
Troque as lentes.

Tens três pedidos:
dois livres
e que um seja um amor tranquilo
- que o contador chegue a zero
ainda no auge do amor
para que sobre amor pro resto
da história além do ponto final.

Raul Cézar de Albuquerque
14/03/2013

segunda-feira, 11 de março de 2013

Tentativa de soneto


Bateu uma vontade de escrever
um soneto para ver se na métrica
acalma-se minha febre colérica
de, de repente, querer te rever.

Se fossem livres os versos, loucura.
Se não te conhecesse, calmaria.
Se não te conhecesse, morreria
longe do ácido sabor da candura.

Eu nada disse. Perdi dois quartetos.
Eu devo arrumar rápido os sentidos,
caso contrário, eu perco o soneto.

Mas acho que perdê-lo-ei assim:
esses meus sentimentos tão vividos
merecem um soneto sem fim.

Raul Cézar de Albuquerque
11/03/2013


domingo, 10 de março de 2013

Embora em má hora


viu-a de longe
de uma distância gélida e segura

ela tinha a plenitude nos olhos
tinha o mar na voz
tinha o futuro tatuado nas costas

viu nela o sorriso
que sempre quis para si

e sorriu implicitamente

programou tudo
tinha até script e marcação de cena
seria perfeito:

ele iria até ela

e - despretensiosamente - perguntaria seu nome
iria apresentar-se
sorririam sem motivo aparente

iriam se ver nos fins de semana
num cinema, numa praça, 
numa lanchonete, num quarto...

depois eles iriam encontrar-se
mais vezes, mais próximos,
mais dados, menos distâncias,
menos não-me-toques,
mais me-toque...

e num dia seriam uma só carne
- inseparáveis como o manto negro
e as estrelas - numa noite de inverno
- ou verão, tanto faz.

e passariam fins de tardes juntos
e fins de noites
e inícios de manhãs

passariam a vida juntos

e passeariam juntos
pelas ruelas 
pelas avenidas
pelas rodovias
pelos sonhos 

e cansariam de tanto viver
e - de mãos dadas a ela - ele
sorriria explicitamente

ele iria
desintegraria a vida
e ela ficaria para contar
a história de um sorriso infindo
num rosto pouco bonito
mas puramente humano...

tudo contado no mais
esperançoso futuro do pretérito.

e o trêmulo rapaz deu três passos
deu mais dois passos
arrependeu-se

o que ela iria querer com ele?

por que iria gastar-se com ele?

o que tinha ele para poder tê-la?

eram tantas perguntas
tantos tremores
tantos temores
tantas dores crônicas
tantas tonturas e tontices
tantas incertezas
num mesmo rosto

ele parou no meio do pátio
abaixou-se para amarrar o cadarço
- que não estava desamarrado -
e voltou para a cadeira.

pobre garoto,
nunca iria saber que o nome dela era
felicidade
e ela estava louca para ser dele.

Raul Cézar de Albuquerque
10/03/2013

sábado, 9 de março de 2013

Para não perder a ternura


Eis o desafio:
"Há de endurecer sem perder a ternura jamais".

Há de aprender, meu filho, a andar sozinho na rua
- e na vida.
Há de aprender, meu filho, a olhar para o lado
e não ver ninguém e não chorar nem reclamar
nem parar nem gritar nomes proibidos
nem blasfemar nem desistir.

As minhas filosofias talvez
não me façam o mais certo. Em todo caso,
não é essa a função delas. Elas me fazem ser eu,
e estão cumprindo o seu papel.


Eis o desafio:
"Há de endurecer sem perder a ternura jamais".

Há de observar, meu filho, o movimento dos galhos
e ver nele o sopro despreocupado da vida.
Há de observar, meu filho, o sorriso singelo e 
perceber nele as marcas das ferraduras
do cavalo que puxa a carroça da vida
e pensar que será o próximo - sem pesar.


As minhas filosofias talvez
não me façam o mais desejável. Em todo caso,
não é essa a função delas. Elas me fazem ser eu,
e estão cumprindo o seu papel.

Eis o desafio:
"Há de endurecer sem perder a ternura jamais".

Há de anotar no caderno sem páginas, meu filho,
todos os pecados, as confissões, os perdões,
os ressentimentos, as dores, as patologias,
as frases ditas e ouvidas, os amores,
as ilusões, os sonhos e o indizível - sim,
há de anotar o indizível, meu filho.

Há de anotar na alma, meu filho, 
um regulamento improvisado.

Há de sentir cada rabisco
- ou nota oficial - na pele da alma.


As minhas filosofias talvez
não me façam mais feliz. Em todo caso,
não é essa a função delas. Elas me fazem ser eu,
e estão cumprindo o seu papel.

Eis o desafio:
"Há de endurecer sem perder a ternura jamais".

Há de sentir petrificar a epiderme
e as articulações. Há de ser estátua para sempre.
Há de ser tenaz como os galhos mais frágeis, meu filho.
Há de ser mármore baldio
- refinado no sonho do sonho.
Há de ser estática imagem em praça pública.

Há de ser anjo de fontes italianas
ou gárgula de Notre-dame.
Haverá de ser.
Haverá.
Haverá, meu filho, ternura no fundo do poço da alma.

Raul Cézar de Albuquerque
08-09/03/2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

11%

Este é último - acho.
Rodei tanto para chegar até aqui.
Yin-yang - quando estivemos próximos, estávamos distantes.
Karma meu de não saber prolongar histórias -
Ainda maior problema é não saber escrever finais felizes.

Todos sabem que finais são tristes.
Ainda que felizes, serão tristes por serem finais.
Yin-yang - estivemos mais próximos, quando mais distantes.
Não tem lógica.
Não faz sentido.
A verdade é que sempre foi meio ilógico - com cheiro distante de impossível.

Calava-me por pensar no 1% de chance de ser feliz.
Ansiava por ser feliz e parecias a porta.
Você me fez feliz por longas noites e madrugadas.
Arqueava meu sorriso ao pensar em você.
Longe. Sempre longe. De alguma forma, longe.
Conto as ilusões que sobraram. "Tudo vale 
A pena se a alma não é pequena."
Não digo que não valeu a pena. Valeu!
Tomei voo. Há quem prenda-se a paisagens.
Indo, a vida foi. E continuará indo. Seja feliz!

Raul Cézar de Albuquerque
08/03/2013

quinta-feira, 7 de março de 2013

Cedo


São novos tempos, meu filho.
O futuro – tão temido e esperado –
tornou-se este pobre presente.
E é naquele relógio velho da sala que percebo
o novo que vem chegando.

Passaram-se os anos – os mais belos,
talvez, mas vivi-os em tristeza: vivi-os?
Das vívidas tardes de sábado
restaram histórias – verídicas
ou melhoradas – e umas dores.

Não há descanso
e o relógio nem faz mais
o tique-taque
- quem nos lembrará do terror do tempo?

O presente, meu filho,
é a fotografia, o instante, o sorriso casual.
O presente é curto. Então, curta,
não só porque é curto, mas porque é
a única coisa que tu tens.

Ajude-me a levantar...
Deixa, deixa, acho que consigo sozinho.
Não. Ajude-me. E pode rir, ingrato!
Obrigado.
E no teu riso
vejo o meu, não o meu, mas
um que já foi meu
- hoje me cabe o riso amarelado
e, logo após, uma tosse interminável.

Quem está vivo tem presente.
Talvez tenha passado, mas geralmente
não é bom tê-lo, nem lembrá-lo.
Ninguém tem futuro.
Nem tu, meu filho, que ainda ris sem tossir,
que não precisas de ajuda para levantar.
Nem tu tens futuro.
O futuro não existe.

O futuro é dos sonhadores mais insanos
e das crianças mais imaturas.
Porque eles não se preocupam com o que têm
- logo não têm nada, logo possuem tudo.

Ah, se voltassem os anos,
eu seria infeliz outras vezes
tentando insanamente ser feliz outra vez.
Não me cabem mais utopias.

Pega-me o copo d’água.
Obrigado.

O que te traz aqui?
Tu nunca me visitas.
Alguém morreu?
Diz logo!

Não me diga que a soninha morreu!
Já estava acabada. Eu a conheci no esplendor
da juventude. Ela tentou ser miss
uma vez, mas o pai não deixou, por causa
do desfile de maiô, pura besteira.
Poderia ter dado certo, mas não deu.
Morreu, simples assim.
Essa história de morte bonita é pra
consolar meninas choronas – e elas também morrem,
cedo ou tarde.

Mais alguma coisa?

Essa eu já esperava.
Eles nunca combinaram muito.
Ele só casou, porque ela ficou grávida
- um erro, um erro e outro erro.
Enfim, milagres acontecem,
mas não com tanta freqüência.
Iriam assinar o divórcio – cedo ou tarde.

Alguma notícia boa?

Não?
Você tem trabalhado como correio da morte
ou coisa do tipo?
Se tiver mais notícias más, pode sair,
que eu nem quero ouvir.

Você vai se casar?
Bem. Eu disse que as notícias más
iriam parar pelo divórcio do cláudio
e você me desobedeceu.
Só não te bato, porque não valeria o esforço.

Em todo caso, quem a carcereira?

Vocês sempre tiveram uma afinidade estranha.
Desde pequenos. Mas, casar agora?
Você tem o quê, vinte e três anos?
Vinte e sete, claro! Perdoe a memória,
ou melhor, a falta dela.
Meu Deus, como o tempo passa!
Ontem você me falava que beijar era nojento
e, agora, vai se casar em três meses!
Eu rio do meu fim!

E sua mãe, como está?

É. Ela superou facilmente a separação.
Eu é que fui um besta em ainda sofrer
por ela nos três anos seguintes –
ou em todos esses vinte e um anos que se seguiram
ao divórcio.
Sua mãe sempre foi mais forte.
Eu me apaixonei por ela no trem. Já contei essa história?

Certo. Desculpe-me. É que eu acho uma linda história
e gosto de contá-la. É um bom começo
para uma longa história – e sem final feliz.
Bem. você é um final feliz.
Tenho de deixar os meus saudosismos de lado.

Você poderia ficar aqui no quarto essa noite?
Você sabe... amanhã é a tal cirurgia
e eu gostaria de alguém aqui comigo.

Pode deixar a bolsa no chão mesmo.
A cadeira de acompanhante não é confortável, eu sei.
Mas obrigado por ficar.
Você vai dormir, acho – cedo ou tarde.

Meu filho,
estava pensando:
se eu sair vivo da sala de cirurgia
e voltar ao normal, queria viajar,
finalmente conhecer o mundo.
Não quero deixar o meu dinheiro
para você. Enfim, vou viajar.
Pensei em levar sua mãe, se ela quiser
e o namorado novo deixar.
Não gosto da ideia de ir sozinho
e ela também sempre quis viajar.
Vai ser ótimo
relembrar os velhos tempos,
já que não posso revivê-los.
Posso?
Filho, você acha que eu e sua mãe...

Você dormiu.
Jovens, jovens, dormindo antes das onze da noite...
mas eu também vou dormir – cedo ou tarde.

Raul Cézar de Albuquerque
08/03/2013