Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A Vida É Um Jogo De Xadrez...


Sempre gostei de jogar xadrez, embora não o tenha feito muito nos últimos dias. Numa dessas noites em que a televisão não apresenta nada de bom, num momento de devaneio, olhei para cima do armário e vi aquela caixinha, com esforço percebi que era o esquecido tabuleiro de xadrez e suas peças empoeiradas. Comecei a relembrar as regras e fiz o poema.

A vida certamente é um jogo de xadrez.
Onde Deus [ou o Acaso, se preferir] é o jogador,
Onde todas as peças têm a sua vez.
Mas o xeque-mate não é o objetivo, é só o consumador.

Onde existem muitos, mas muitos peões.
Eles não dão grandes passos e não mudam de direção,
A não ser quando estão em extremas situações.
Neles a covardia se esconde atrás da cautela e da concisão.

Onde existem algumas torres, mas são poucas.
Elas dão grandes passos na direção escolhida,
Mas são retilíneas, não conseguem ser loucas,
Nem entregar-se a uma loucura perdida na vida.

Onde existem alguns bispos, mas são poucos.
Eles também dão grandes passos na direção escolhida,
Mas não conseguem ser retilíneos, são loucos,
Descontrolados, querem aproveitar ao máximo a vida.

Onde existem alguns cavalos, mas são só alguns.
Sempre dão os mesmos passos, só mudam a direção.
Técnicos, secos, frios, não são muito comuns.
Vivem passando por cima dos seus iguais, sem coração.

Onde existem pouquíssimas rainhas.
Elas têm a liberdade de ir para qualquer lado.
Decididas, andam muitas casinhas
De uma só vez, pois confiam no seu faro aguçado.

Onde existem pouquíssimos reis.
Podem seguir para qualquer um dos lados.
Comedidos, só dão um passo de cada vez.
São sensatos, mas são perseguidos e atacados.

Encontrou-se? Se estiver perdido no tabuleiro,
Procure sem muita demora o seu lugar.
Não deixe-se perdido até o momento derradeiro.
Pois a partida certamente irá continuar.

Raul Cézar de Albuquerque
08-09/01/2011

Uma Lembrança...



Estava lendo "O Estrangeiro" de Albert Camus. Nele há a descrição de uma imagem muito poética, muito bem feita. Era um homem, deitado, no meio do calor da Argélia. Decidi fazer diferente, uma mulher, estática em pé, no meio de uma paisagem fria. Acho que ficou bom...

Eu lembro-me da última vez em que a vi.
Eu nunca tinha visto nada igual,
Por isso tive certeza de que não me confundi.
Foi assim que a vi: estática e triunfal.

No meio de tanto nada.
Apenas olhei a mancha rósea na paisagem.
Na verdade, avermelhada.
Na verdade, não era miragem.

É, era ela. Era a minha emoção.
Era o meu sentimento todo ali.
Naquela imagem parecendo ilusão.
Naquele mundo sobre o qual nunca li.
Naquela mentira que era de coração,
Apaixonei-me logo pelo que vi.

Era ela com seu sobretudo vermelho,
Que, em vias normais, indicaria paixão,
Mas, no meio de todo aquele gelo,
Indicou apenas uma forte recordação.

A roupa vermelha e a expressão pálida,
O sorriso simples e a alegria notória,
O tempo frio e a presença cálida,
Tudo poetizava sutilmente sua história.

Depois deste último encontro à distância,
Hoje, vejo-a tão seca, sóbria e sincera.
Parece que já passou aquele desejo ou ânsia.
Tudo por ela já não ser quem era.

Raul Cézar de Albuquerque
06/01/2012

Reiniciar...



Estava na casa de praia com uns primos, um deles era muito, mas muito viciado em videogame. A única coisa que mudava era o jogo, mas ele quase não piscava. Era muito vício! Nós tínhamos que insistir muito pra ele ir a praia conosco. Acabei escrevendo o poema...

Ele nasceu e cresceu.
Ele pôs a trabalhar pra sobreviver.
A um amor ele se deu.
E continuou a vida tentando se manter.

Ele trabalhou mais um pouquinho
E alcançou uma vida de qualidade,
Pois em casa recebia carinho
E recebia dinheiro na cidade.

Ele teve os seus dois filhos amados
E acompanhou suas vidas diligentemente.
Fez-lhes homens trabalhadores e honrados.
Era seu sonho e era surpreendente.

Com todos seus sonhos realizados,
Percebeu que a ampulheta indicava o fim,
Percebeu que seu tempo havia passado,
Percebeu que a vida já não era assim,
Assim tão agitada quanto ela havia pensado,
Ele havia pensado na vida apenas do “sim”.

Tudo estava ficando repetitivo, resolveu se apagar.
Apenas decidiu desistir, e desistiu de sua vida.
Na tela, apareceu a janela perguntando se ele iria reiniciar.
E, obviamente, ele decidiu reiniciar a partida.

[quem não reiniciaria?]

Raul Cézar de Albuquerque
06/01/2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Papilas Gustativas...


Eu estou disposto a entregar-me
a este algo que me é oferecido.
Não tenho medo que isto me desarme,
pois já estou sem armas e rendido.

Não só tomar, mas lambuzar-me
deste mel que não conheço nem a procedência.
Só sei que ele irá alegrar-me
nem que seja só por um instante da minha existência.

É perigoso, mas eu não tenho capacidade
de negar nem de fingir nem de fugir.
Ou talvez eu só não tenha suficiente vontade,
talvez eu queira correr o perigo de sentir.
Sentir o calafrio do perigo de verdade,
sentir na pele o prazer de quase inexistir.

A mente grita por bom senso e concisão,
mas eu nada ouço, o coração está pulsando.
E pulsa, e bate, e pulsa, o meu coração.
De longe eu fico olhando, fico desejando.
Desejando isentar-me do virá depois desta ação.
Desejando que eu não continue só desejando.

Ah, eu sinto que tenho que me entregar!
Ainda que depois venha a decepção e seu amargor.
Se eu não o fizer, meu coração irá parar.
Irá parar sem que eu tenha sentido o tom agridoce do amor.

Raul Cézar de Albuquerque
03/01/2012


Uma tristeza indecifrável...

Falando de amor do meu jeito...



Ainda que meu hipocampo
Realize o absurdo de apagar-te,
Sempre estarei lembrando
Que tu és a minha e eu sou a tua parte.

A parte que surgiu bem distante
Da parte que é inteiramente nossa.
Esta parte que nos daremos logo adiante
Para que separar-nos ninguém possa.

Mesmo que meu cérebro te delete,
Minha alma não poderá te esquecer,
Ela sempre fará com que algo me afete,
Quando eu tentar ser feliz ser você.

Pois é impossível ser feliz sem sua existência,
Sem sua fala sincera, sem seu olhar.
A felicidade é impedida pela minha carência,
Minha carência de ter-te e te amar.

Uma tristeza indecifrável tomará a minha vidinha,
Esta vidinha que nunca melhorou e sempre me acometeu.
Toda vez que eu lembrar, que tu não fostes minha,
Ou pior, rememorar que eu nunca fui teu.


Raul Cézar de Albuquerque
02/01/2012

Os Monstros da Mitologia...


Eles são seres de proporções ou partes sobrenaturais. Eles são encarados com horror. Eles possuem ferocidade notável e força imensurável. Eles sempre empregam seus atributos contra os homens.
Os monstros da mitologia figuram no imaginário popular até hoje. Vejamos os maiores seres monstruosos da mitologia.

Esfinge:
 
A primeira referência a Esfinge na literatura está na lenda de Édipo, escrita por Sófocles. Na lenda, a Esfinge aparece como um ser que aterrorizava os viajantes cuja parte inferior assemelhava-se a de um leão e a superior a de uma mulher.
A Esfinge, segundo a lenda, vivia sentada no alto de um rochedo e apresentava um enigma a cada viajante, se ele acertasse, continuaria a jornada, se ele errasse, morreria.
Édipo chegou e a Esfinge lhe apresentou o enigma:
- Qual é o animal que de manhã anda com quatro pés, à tarde com dois e à noite com três? – foi a pergunta da Esfinge.
- É o homem, que engatinha na infância, anda ereto na juventude e com a ajuda de um bastão na velhice. – respondeu firmemente Édipo.
A Esfinge, de tão humilhada, jogou-se do rochedo suicidando-se.

Quimera:
 
A Quimera aparece na história de Belerofonte, jovem destemido e forte que já havia feito muitas proezas.
Ela é tão horripilante que é difícil descrevê-la. Ela expelia fogo pela boca e pelas narinas. A parte inferior de seu corpo era uma combinação de leão com cabra, a parte posterior, de dragão.
Num conflito familiar complexo, Belerofonte acaba por ser mandado para matar Quimera. Belerofonte percebe que não poderá vencê-la sozinho e vai com Pégaso ao seu encontro. Pégaso era o cavalo das musas, surgido do sangue de Medusa derramado por Perseu e amansado por Minerva.
Belerofonte com o auxílio de Pégaso obteve fácil e rápida vitória sobre Quimera.

Centauros:
 
São monstros com cabeça de homem e todo o resto do corpo de cavalo. Como os gregos admiravam os cavalos, são os únicos “monstros” com características admiráveis.
Envolveram-se numa batalha contra os Lápites. Eram admitidos em meio aos humanos, chegando a ser recebidos em casamentos. Num dos casamentos, o de Píritos, um dos centauros intentou mal contra a noiva e outros centauros envolveram na confusão.
Dentre os centauros notáveis destacam-se Quíron. Quíron recebeu lições de Apolo e Diana, tornou-se hábil em medicina, em caça, em música e em profecia. Ele foi o mais justo e sábio de todos os centauros, quando morreu, em recompensa, Júpiter colocou-o entre as estrelas, ele tornou-se a constelação de Sagitário.


Pigmeus:
 
Eram seres minúsculos, semelhantes a anões, seus nomes significam uma medida semelhante a 2,54 centímetros, segundo a mitologia, eram as suas alturas.
Os pigmeus viviam próximos às nascentes do Nilo (ou, através de outras fontes, na Índia). Homero cita que os grous sempre imigravam para o país dos pigmeus no inverno, e que a migração dos grous indicava uma sangrenta batalha contra os pequeninos.

Grifos:
 
Eram seres com corpo de leão, cabeça e asas de águia e costas cobertas de penas.
O instinto fazia com que os grifos sentissem a presença de caçadores, saqueadores e povos inimigos. Além de encontrar facilmente tesouros escondidos.
Construíam ninhos com fios de ouro, mas não punham ovos, punham ágatas (variações de pedras de quartzo). Segundo relatos, viveram na Índia e tinham garras enormes, das quais eram feitas taças.

Poesia de Sherlock...


Tenho pensado muito em escrever sobre o que leio. Trazendo ao meu estilo, claro! Foi o que aconteceu quando eu li um conto de Conan Doyle e decidir descrever uma análise um pouco mais sentimental do que Sherlock Holmes faz com tanta frieza. Logo, me veio a "Poesia de Sherlock"...

Pela surpresa das pessoas quando ela chegou,
Percebi que ela não tinha hora marcada.
E pela maneira seca e sóbria que ela me olhou,
Percebi que ela estava mal-humorada.

Por aquelas mãos parecendo amassadas
E o olhar caído que nada fixava por muito tempo,
Penso que ela nasceu há décadas passadas
E que já compreende coisas que ainda não entendo.

Pelas joias que ela não estava usando
E pela elegância das roupas que vestia tão simplesmente,
Pude perceber que ela estava tentando
Esconder a riqueza que possuía de toda aquela gente.

Pela mão limpa e sem nenhum anel,
Pude crer que nenhum homem lhe tivesse aceitado,
Ou o homem que aceitou já estava no céu,
Ou no inferno, não posso dizer de modo confirmado.

Pelos vincos próximos à boca tão discretos,
Posso dizer que ela já tinha sido feliz.
E, digo que ela já chorou em momentos secretos,
Eu vi seus olhos, creia no que aqui se diz.

Ela parecia que tinha saudades da beleza.
Ela parecia sentir falta da vida de verdade.
Para falar a verdade, de nada posso ter certeza.
Eu só constato algumas possibilidades.
O que faço só me cobra inteligência e destreza.
Eu só considero e analiso as probabilidades.


Talvez a pressa a tivesse feito esquecer a aliança.
Talvez não estivesse mal-humorada, só pensativa.
Talvez ela não tivesse saudades da época de criança.
Tudo é incerto. Não sei nem se ela queria continuar viva.


Raul Cézar de Albuquerque
31/12/2011

Expressões Latinas...

Nossa linguá é classificada como neolatina, ou seja, tem suas bases no latim. Fato é que muito do que falamos e escrevemos vem do latim... venho aqui falar disso:



AGENDA:
O substantivo tão presente em nosso cotidiano. O objeto tão necessário nestes dias. A palavra “agenda”, no original, quer dizer “coisas que devem ser feitas”. Logo, se algo está “na agenda”, está dentro da lista de coisas a serem feitas.
A origem latina vem do verbo “agere” que quer dizer agir, atuar, realizar; seu gerúndio é “agendum”; o gerúndio na forma neutra no plural fica “agenda”; sendo, literalmente, aquelas coisas a serem feitas.
O sentido atual de agenda, como uma caderneta ou um caderno em que são anotados compromissos, reuniões, temas a discutir e telefones de contato, não se retira totalmente do seu sentido original.

 

CARPE DIEM:
            A expressão original completa é “Carpe diem quam minimum credula posterum”, seu autor é Horácio. Ela quer dizer “Aproveite o dia e confia o mínimo nos dias posteriores”.
A mais famosa expressão do poeta romano, ou até da língua latina. O poema tenta advertir-nos da incerteza do futuro e incita-nos a fazer bom e completo uso do nosso tempo.
O termo manteve-se pelos séculos. Foi retomado no movimento barroco por Martin Optiz e, mais recentemente, no filme “A sociedade dos poetas mortos”.

Um pouco mais de Nietzsche...



*Espírito

São os autores mais espirituosos que provocam o sorriso mais difícil de notar.

*O partidário mais perigoso

Em todo o partido há um homem que, ao professar com demasiada fé os princípios do partido, incita os outros a desertar.

*Equilíbrio

Em nossas relações com outro homem, muitas vezes o retorno ao justo equilíbrio da amizade se realiza se acrescentarmos em nosso prato alguns grãos de falta de razão.

Fonte: “Humano, Demasiado Humano” de Friedrich Nietzsche

Os três sorrisos e a última paciente...

Inicio o ano, inciando minha carreira de contista... espero que gostem...



E
le sorriu. E, mantendo o sorriso, guiou-a até a porta e despediu-se com um aperto de mão fraco, só pra não passar por médico grosso. Aquele sorriso parcial e inexpressivo que parecia ser tão cordial, na verdade, escondia uma face irônica: “Ela está aqui rindo, mas não deve durar muito. Já é um quadro muito avançado.” Foi fechando a porta lentamente e mantendo o sorriso, mas no exato momento em que se fechou a porta, fechou-se também o sorriso. Aquele sorriso fechou-se.
Fechada a porta, ele correu para a sua cadeira e desabou como se tivesse sofrido trabalho escravo, situação muito longe da sua. Olhou para o relógio e, com profunda raiva de alguma coisa, percebeu que ainda eram cinco horas. Logo, ainda havia um paciente.
Pediu a alguma coisa ou alguém que regia o universo que o paciente faltasse por qualquer motivo. Não importava o motivo da falta, o que importava era ele ir pra casa mais cedo para realizar mais uma tentativa de ser feliz sozinho. Ele realizou uma prece sem destinatário definido com os olhos fixos no relógio. Depois olhou para o telefone e esperou ouvir que o último paciente faltara.
O telefone tocou. Ele atendeu. O paciente viera. Na verdade, a paciente viera. Sem dizer uma palavra, ele maldisse toda a sua existência até ali. Retomando as palavras, disse que ela podia entrar.
Ela deu leves batidas na porta e, rapidamente, abriu-a. Deu de cara com o sorriso dele.
Ele sorriu. Armara aquele sorriso na hora e era exatamente igual ao último, aparentemente. Este também era parcial e parecia cordial. Este escondia uma face irada contra o tudo, ou contra o nada, ou contra o todo de uma vida que geralmente, juntando mais e menos, problemas e soluções, defeitos e virtudes, resulta em nada.
Com o sorriso, indicou a cadeira. Ela sentou-se. Ele percebeu que o rosto era conhecido, mas recorreu à ficha para descobrir qual o nome e o caso daquela que deveria ter faltado. Não achou a ficha e, mesmo assim, continuou a penosa conversação.

- Oi, qual é o problema que lhe traz até aqui?
- Doutor, eu já vim aqui há algum tempo com algumas dores e o senhor me indicou vários exames. Demorou um pouco, mas eu fiz todos. – colocou os papéis sobre a mesa – Estão todos aí!

Com grunhidos indiscerníveis e monossilábicos, ele ia analisando os exames com uma preguiça que parecia atenção e paciência, mas não passava de preguiça, a mais vil e pecaminosa preguiça.
Depois de certo tempo investido em fingir ler resultados, ele olhou para ela com tom de quase-compaixão, pegou uma folha, começou a rabiscar termos ilegíveis e, de modo desdenhoso, entregou-a a folha com várias prescrições bem paliativas.
Ela segurou o papel, guardou-o na bolsa, levantou-se e agradeceu sinceramente. Caminhou até a porta lentamente, cuidando para não fazer muito barulho. Estava decidida a sair, mas algo a impediu de fazê-lo. Ela permaneceu segurando a maçaneta da porta, mas não a girava. Mantinha o olhar fixo no relógio que marcava algo em torno de 17h45min. Ela olhou pro médico e perguntou:

 - Senhor, me desculpe a indelicadeza, mas... – pausou-se por algum motivo de auto-regulação e retomou – eu vou morrer?
- Claro! – disse ele com cara de brincadeira – todos nós morreremos um dia.
- Doutor, guarde suas piadas para quem gosta. – tomou um tom sério e lamentoso – Nós dois sabemos do que estou falando.
- Desculpe-me, a intenção não foi ofender...
- Por favor, poupe o nosso tempo e diga logo se irei morrer por causa dessa doença ou não! – já não era a mulher que entrara timidamente, ela agora lutava pela sua vida, de certo modo.
- Quer se sentar? Acalme-se conversaremos com calma sobre este assunto. – Ela logo se sentou e manteve o olhar inquisidor.
- Pela sua recusa, entendo que eu vou sim morrer por causa desta doença. Então, você poderia me dizer quanto tempo eu tenho de vida?
- Nós... – Já muito assustado falava rapidamente e, às vezes, muito pausadamente – Nós não podemos afirmar um tempo exato...
- Entendo, eu posso morrer atropelada ali na esquina, posso ser assassinada pela minha filha amanhã... Entendo... E acho melhor que não me diga. Nessa idade, já deveria ter me acostumado a viver cada dia como se fosse o último.
- Não seja tão fatalista, tente ser mais otimista – ele nem pensava no que falava, só citava frases decoradas durante a vida profissional.
- Otimista?! – ela tomou tom sarcástico – O otimismo é o disfarce dos que nada esperam da vida. Otimistas alienam-se ou frustram-se. Os realistas geralmente têm suas expectativas correspondidas. Eu sou realista! Sem negar que tenho traços pessimistas, mas porque a vida me obrigou a carregá-los comigo.
- A senhora fala – ele abaixou as armas – como quem já sofreu muito.
- Meu caro, - vestiu a capa do eterno lamento – eu tenho 57 anos! Eu já vivi muito, por conseguinte, já sofri muito. Mas... Por que logo agora? – lágrimas tomaram-lhe os olhos.

O médico já não sabia o que fazer ou falar. O silêncio longo e tenso tomou tudo. Tomou a sala, as duas almas, os quatro ouvidos e as duas bocas. Tomou as duas vidas. Assim, aquele silêncio tenso e longo tomou e retomou infinitas lembranças.

- Por quê? – ela já não falava para o médico, perguntava a alguém dentro ou fora dela – Para mim, tudo sempre foi muito triste, tudo foi muito “é melhor esquecer”. Quando tudo parece estar mudando pra melhor, quando tudo muda de figura, eu fico sabendo que vou morrer! Mas, por quê?

Depois desta fala tão clara, o médico levantou os olhos e viu todos os sulcos da face daquela mulher sendo preenchidos por correntes de água que fluíam sem parar de seu olhar, até então, tão sóbrio.
Humanidade. Fragilidade. Estas palavras nunca se fizeram tão sinônimas. Ele temeu pela sua vida. Ele olhou para a estante de livros e percebeu o quanto eles eram supérfluos. Lembrou-se do quanto tinha estudado para chegar até ali, do tempo investido para chegar até ali, até aquele cansaço, até aquela tristeza, até aquela semi-morte, a morte que só espera a consumação científica.
Aquilo nunca lhe havia acontecido. Lembrou-se de um encanador que viera uma vez ao consultório para reparar um problema qualquer. Enquanto esperava o pagamento, o homem, que parecia ter seus quarenta e tantos anos, lia um livro pequeno. Quando o médico ia dar-lhe o dinheiro, não pode deixar de observar uma frase destacada na página: “A vida é um vão entre dois nadas.”
Aquela frase agora fazia todo o sentido. No momento, foi motivo de um riso debochado, seguido de um pagamento frio. O homem até murmurou um “obrigado!”, mas não ouviu a resposta. O médico é que lhe devia um grande “obrigado!”. A frase mudaria sua vida.
Depois da introspecção, ele voltou os olhos para a mulher. Percebeu que ela aprontava-se para sair e que ela já tinha enxugado as lágrimas. Viu-a sair lentamente. Viu-a segurando novamente a maçaneta. Viu-a girar a maçaneta. Viu-a abrir a porta. Viu-a ir-se sem fazer barulho. Viu-a sumir na penumbra do corredor que levava à sala de espera. E, não mais a viu.
Ele fechou os olhos. Ele respirou fundo e afundou-se na cadeira. Ele abriu os olhos. Ele pensou em olhar para o relógio pra ver a hora, mas não o fez, pois não era necessário. Ele olhou para algo pela janela. Ele fechou os olhos novamente.
Ele sorriu. Mas este sorriso era inédito. Este eu não entendi. Nem ele sabia por que sorria. Só posso afirmar que ele sorriu.
                                       
Raul Cézar de Albuquerque