Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

domingo, 26 de agosto de 2012

Respingos de Genialidade #26



"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, em uma de suas Odes.

Cantares (de Antonio Machado)




Com forte carga filosófica, a poesia do sevilhano Antonio Machado destaca-se na produção literária do Modernismo espanhol. Membro não consumado da Real Academia Espanhola, ele apresentou uma poesia desesperançosa e reflexiva. A profunda proposta filosófica de Machado pode ser vista claramente no poema "Cantares" - poema em que ele consagra uma frase esplêndida "Caminhante, não há caminho, se faz caminho ao andar":


Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar.

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão.

Gosto de vê-los pintar-se
de sol e grená, voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se…

Nunca persegui a glória.

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar.

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar.

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar…
Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar”…

Golpe a golpe, verso a verso…

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe viram chorar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Nova Palavra


É necessário aprender a escrever amor por extenso.
Chega dessas preguiçosas 
abreviações vocabulares.
Um sentimento tão raro e complexo
merece - convenhamos - um nome maior.

Talvez uma palavra só em si
decassílaba - perfeita para um soneto.
Tal monossílaba - sugestiva como 
o próprio referente.

A palavra substituta não pode ter antônimo.
O contrário disso que chamam amor 
é o silêncio - a mais indiferente e unívoca
ausência de sons, tons, toques e seres.

Inclassificável. A nova palavra
precisa de um dicionário só seu
- e de uma classificação própria.
Assim como o que ela representa
precisa de um espaço só seu.

Seu uso deve ser restrito.
Tal palavra não deve ser gritada.
Antes, sussurrada como um 
segredo impuro e íntimo.

"Amor" tende a tornar-se banal
- por ser pequena e resultar num
verbo de fácil conjugação... acabamos assim,
até os que não amam pronunciam "amor".

Hoje proponho uma nova palavra.
- todoamordomundonãocabeemnósmasénosso.

Raul Cézar de Albuquerque
24/08/2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Devaneio #9



"E, quando se está com uma ideia pra poema na cabeça, tudo vira objeto de profunda e humana análise... a porta torna-se portal e o vidro o mais belo e bizantino vitral. A poesia habita e coabita e faz-se onipresente. - Ai, que perseguição!"
C.P.

domingo, 19 de agosto de 2012

Respingos de Genialidade #25


"Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia... Agora é que ia começar minha ópera."

Machado de Assis, em "Dom Casmurro", no capítulo VIII.

sábado, 18 de agosto de 2012

Divagar


Nestes dias de divagações,
em que vagamos pelas
terras do nunca - e de sempre -,
encontramos o novo que 
não passa da outra face 
do velho.

Descobrimos palavras térreas
sobre as quais pisamos
sem antes ler.

Nossos olhos visitam
casas que até então
eram insignificantes pontos 
na paisagem estática.

Nossas rodas passam
por pontes velhas e cansadas
- de fazer aquelas ligações impossíveis.

Revelamo-nos horas e estátuas
perpétuas.
Abrimos espaço para o grito mercante
que toma toda a rua.

             E, com essa vida devagar,
            há um prazer em divagar
que não nos deixa parar de vagar.

Raul Cézar de Albuquerque
18/08/2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

25 anos sem a poesia de Drummond


O poeta brasileiro "gauche" por excelência morreu há 25 anos. Grande nome da poesia modernista, Carlos Drummond de Andrade é um marco para a produção poética brasileira. 

Nascido em 1902, em Itabira (MG), Carlos foi desde cedo muito poético - revolucionário - o que o levou a ser expulso do Colégio Anchieta por acusação de "insubordinação mental" - nasceu poeta. Toda sua produção poética é marcada por um uso inteligente e surpreendente das nuances e dos recursos da língua. Refinado, o lirismo drummondiano é marcado por um trabalho complexo escondido atrás da simplicidade de suas palavras.

Sua primeira fase - dada como "fase experimentalista" - é marcada por um instinto modernista de reinventar modelos e sentidos de escrever. Sob influência dos modernistas de 1922, ele iniciou-se escrevendo poemas de ordem conceitual. Dessa fase, o maior exemplo da qualidade da poesia de Drummond é - indiscutivelmente - "No meio do caminho". O poema foi publicado na Revista de Antropofagia em 1928:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Sua segunda fase - dada como "fase gauche" - é marcada pela desconformidade com o mundo, a sensação de autoexclusão, de afastamento do mundo externo. Encontrando um modo muito peculiar de escrever, Drummond inicia uma "poesia em primeira pessoa", onde o que havia para ele não passava dele mesmo. O poema que caracteriza - e da nome a - essa fase é "Poema de Sete Faces". Publicado no livro "Alguma poesia" em 1930:


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. [...]
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
 
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Sua terceira fase - dada como "fase social" - é marcada por uma preocupação com o mundo, um olhar mais próximo da realidade externa. Extremamente influenciado pelas ideias socialistas, passou a ver a Segunda Guerra Mundial como um empasse único. O marco desta fase é o livro - e o poema - "Sentimento do Mundo", publicados em 1940:

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
 [...]
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
 [...]
esse amanhecer
mais noite que a noite.
Sua quarta fase - dada como "fase do não" - é marcada por uma poesia decepcionada, focada no tempo - com frequentes referências à morte, à filosofia, à metafísica e à reflexão. Marcado pela Guerra Fria, viu seus ideais serem corrompidos e o mundo cair no caos. O livro que marca essa fase é "Claro Enigma", publicado em 1951:
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
 
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
 
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
 
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Sua última fase - dada como "fase da memória" - é marcada por uma retomada do passado focando a infância em Itabira (interior de Minas Gerais) , a família, o humor, o cotidiano e as ironias da vida. O livro que abre essa fase é "Boitempo", lançado em 1968. O poema que bem retrata sua carga nostálgica é "Confissões de um itabirano":
 [...]
Tive ouro, tive gado, tive fazendas. 
Hoje sou funcionário público. 
Itabira é apenas uma fotografia na parede. 
Mas como dói!

domingo, 12 de agosto de 2012

Respingos de Genialidade #24

Arthur Rimbaud, na juventude
"O Poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para só guardar as quintessências."

Arthur Rimbaud, em "A Carta do Vidente".

Último Passeio



Era noite densa e ele só via a névoa que tomava a rua. O dia havia sido monótono. Seus olhos ansiosos quase não piscavam e pediam que algo acontecesse urgentemente - pois bem, nada aconteceu. Ele desceu à rua para ver se algo acontecia - pois bem, nada aconteceu.
Decidiu sair para ver a cidade à noite - sem considerar os perigos de sair naquele horário sem avisar a ninguém, pois mulher e filhos dormiam.
O primeiro passo foi difícil. "Como é difícil fazer o que nunca se fez!", ele pensou em voz baixa. Respirando fundo o ar frio que andava por ali, ele foi andando pela rua de sua casa, que era iluminada, mas estava deserta. Para ele, o ato de sair andando pela rua por nada era ilógico - mas pareceu-lhe necessário.
Virou a esquina sem medo - mas com ânsia, aquela ânsia que toma as crianças no dia anterior a uma viagem ou a um passeio e que as deixa sem sono, sem fome, sem outras vontades, que as prende de modo singelamente escravista.
A rua pela qual ele andava agora era longa e pontualmente iluminada – era necessária muita perícia para não tropeçar em pedras ou pisar em buracos. Mas ele seguia – sem rumo e sem guia, mas seguia.
Numa calçada pouco limpa, onde dormiam alguns homens barbudos, ele sentou-se sem motivo e ali ficou por alguns minutos. Ali pensou em como não havia construído nada e como tudo em sua vida estava sem perspectiva de futuro – ao menos, de um bom futuro.
“Nada vai bem, mas... como as pessoas permanecem inertes diante de um prenúncio tão claro? Como eu permaneci tanto tempo inerte? Por que permaneço inerte? Talvez, porque é mais fácil ficar inerte e fingir que nada acontecerá – mas... e quando acontecer, o que faremos?”, divagava ele.
Imaginou a imagem dele, ali sentado, ela horrorizou-lhe e ele levantou rapidamente. Limpou as mãos e a calça – simultaneamente – num ato reflexo. “Como faço coisas de modo automático! Não posso me orgulhar disso.” Recriminou-se.
Era madrugada e só ouvia-se o vento na rua. Ele vagava e divaga pela rua. Sem sono, ele continuou andando e vendo mães dormindo abraçadas aos filhos – aos muitos filhos – e lembrou-se dos seus filhos: três crianças ingratas e irritantes, segundo ele. Viu também homens – provavelmente bêbados – abraçados a cachorros – “dizem que os iguais já não se repelem”, pensou num respingo de humor próprio.
Não havia lágrimas ou soluços, mas havia choro e aquele lugar era choro. Sem lágrimas e com chuva. Sem soluços e com uivos dos ventos noturnos. Tudo ali era choro.
Seus olhos fecharam-se lentamente e, quando abriram, avistaram uma criança dormindo sozinha. Seu ímpeto era ir até lá e levar aquela pobre e anônima para a sua casa – mas ele percebeu que ele não era assim, algo havia de errado com ele. A criança ali permaneceu.
Noutro relance, ele sentou-se na calçada e viu uma mulher – velha, negra e gorda – que lhe lembrava sua avó. Para ser sincero, ele nunca conhecera sua avó, mas imaginava-a assim. Pensou em deitar ali e até inclinou as costas, mas o chão pareceu-lhe desconfortável – duro e frio. Seguiu viagem e voltou para casa – tudo voltaria ao normal, ao caos normal.
Ao chegar a sua casa, percebeu que a mulher esperava-o sentada na cama – sonolenta e inexpressiva, como sempre. Ela perguntou-lhe o que houvera acontecido e aonde ele fora àquela hora, e ele respondeu: “Fui fazer um passeio.” Deitou-se e dormiu em pouco tempo.Na manhã seguinte, ele não estava lá. Tudo no lugar certo e um bilhete mal-escrito que dizia:
“Fui passear, não me espere, é possível que eu não volte, é possível que eu volte, é possível tudo, tudo é possível, durma agora, é domingo, ainda há tempo para dormir, durma, pois é domingo. Mas, a mim, não importa se é domingo, não poderia continuar dormindo. Do seu viandante sobre as nuvens.


Raul Cézar de Albuquerque
- Aventurando-me nos contos.

sábado, 11 de agosto de 2012

De Olho na Obra: "Os Pilares da Sociedade" (de George Grosz)





A obra acima é, sem dúvidas, a mais expressiva do movimento alemão Nova Objetividade (originalmente, Neue Sachlichkeit). Foi pintada em óleo sobre tela em 1926, a crítica social é clara e gritante - marca da arte alemã no entre-guerras. Nela, George Grosz questiona - e satiriza - a visão que nos foi passada de "sustentáculo" da sociedade.
Mas, vamos para o De Olho na Obra:

1- O plano de fundo: Para representar o caos social sustentado pelos "pilares", o pintor criou a obra sobre completa desordem - que chega ao auge no prédio em chamas (parte superior esquerda da obra).

2- O pilar social "militar": Para fortalecer a ironia, Grosz pôs - na parte superior direita da obra - alguns soldados, e o soldado em evidência tem sua espada suja de sangue e ainda aponta uma arma para frente.

3- O pilar social "religioso": Com um sorriso tosco, o clérigo corre em direção oposta aos militares e com os braços abertos. Grosz grita a hipocrisia que mora nas elites religiosas que permaneceram - e ainda permaneceriam - caladas durante as atrocidades da guerra.

4- O pilar social "político": Com merd - merda mesmo - na cabeça, o líder político alemão é retratado como um fantoche das imposições políticas. O social democrata é satirizado pelo rosto que aparenta embriaguez.

5- O pilar social "jornalístico": Com um penico na cabeça, o jornalista da pintura exibe uma pena extensa e pomposa, segura também seus escritos com aparente irritação. Grosz apresenta o jornalista louco e irrisório no caos político que se desenhara naquele momento da história.

6- O pilar social "ultranacional": Em primeiro plano - indiscutível destaque - está o cidadão ultranacionalista. Exibindo a suástica - símbolo nazista por excelência - na gravata, o homem empunha uma espada numa mão e na outra segura um copo de cerveja. Em sua cabeça, há uma imagem de batalha: um cavaleiro empunhando uma lança.

*
Espero que tenham gostado de mais um "De Olho na Obra". - Até o próximo!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Sobre ser "gauche"


 
Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
O trecho acima é o clássico início do "Poema de sete faces" de Carlos Drummond de Andrade. Para alcançar a totalidade do sentido da frase, deve-se saber que gauche (leia-se, gôche) significa "esquerdo" em francês - por "esquerdo", entenda-se "diferente", "incompatível" ou "deslocado".

Pensando sobre um entrevista que gravei (para a Rádio Sarau) percebi que o fato de sentir-se gauche une todos os poetas de verdade - o sentimento de não-pertencimento. O desespero pelo que não "se encaixa" une todos os poetas numa caverna e eles permanecem lá, o mesmo desespero que levou alguns à loucura e/ou suicídio é que incita a poesia viva e gritada.

Os poetas não querem adequar-se, eles querem ser poetas - sinceros, de preferência. O gauchismo caracteriza o poeta como a musicalidade caracteriza o músico. Baudelaire fala desse sentimento quando fala sobre o albatroz (clique aqui para entender a referência).

Mesmo quando não citado, o fato de ser gauche é que faz o poeta ser poeta. Drummond usou o termo de modo único, um esquerdo no meio dos destros - um poeta no meio dos peregrinos dissolvíveis. 

Vou acabar este post com um dos trechos do "Poema de sete faces":


Mundo mundo vasto mundo, 
se eu me chamasse Raimundo 
seria uma rima, não seria uma solução. 
Mundo mundo vasto mundo, 
mais vasto é meu coração.

(Viva Drummond!)


Semana literariamente ativa!

Por mais que minha rotina afaste-me das informações sobre literatura, sempre há um momento para atualizar os conhecimentos. E essa semana foi cheia!

Hermann Hesse (1877-1962)

Inicialmente, no dia 09 de agosto de 1962, ou seja, há 50 anos, morria Hermann Hesse. Esse gênio alemão, Nobel de literatura de 1946, foi marcante na poesia e no prosa do século XX. O autor de clássicos como Sidarta (1922) e O jogo das contas de vidro (1943) foi também poeta e contista. Era apaixonado por filosofia - profundo conhecedor da obra nietzschiana - e por psicanálise.
Sua obra revela um homem que quer descobrir mais, nascido numa família ditatorialmente cristã, ele viajou o mundo atrás de novas culturas - e acabou apaixonando-se pela filosofia oriental. Hesse deixou um legado de mais de 50 romances, centenas de poemas e muitas  cartas (muitas mesmo). 


Depois, no dia 10 de agosto de 1912, ou seja, há 100 anos, nascia Jorge Amado. Seguindo a carga do nome, Jorge é amado até hoje, no Brasil e no resto do mundo, pelas suas obras sinceras, claras, envolventes e realistas. Romancista por excelência, Amado impôs-se como um dos mais famosos e aclamados escritores brasileiros de todos os tempos.
Sua primeira fase apresenta-se socialista e regionalista enfoca a seca e a luta de classes no Nordeste brasileiro - dessa fase destacam-se Terras do sem fim (1943) e Mar morto (1936). Sua segunda (e última) fase revela a sensualidade e o humor - e até a religiosidade - do povo brasileiro (questionáveis, mas tudo bem) - dessa fase destacam-se Gabriela, cravo e canela (1958) e Dona Flor e seus dois maridos (1966).

Fiquemos com uma frase do Jorge Amado:
"Eu acredito em mudar o mundo e que a literatura tem imensa importância nisso."

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Escavação (de Mário de Sá-Carneiro)



Mário de Sá-Carneiro
Mário de Sá-Carneiro é um dos maiores nomes da poesia portuguesa. Nasceu em Lisboa, em 1890, e suicidou-se em Paris, em 1916. A vida curta foi marcada por uma obra eternizada pelo lirismo introspectivo e pela interiorização de seus dramas pessoais. Nome relevante do Modernismo português, Sá-Carneiro cantou seu estranhamento do mundo - estranhamento este que levou-o a deixar-nos aos 26 anos de idade.


Numa ânsia de ter alguma cousa, 
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à fôrça de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo...
- Onde existo que não existo em mim?

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim... 

Poema "Escavação" de Mário de Sá-Carneiro.
Publicado no livro "Dispersão".

domingo, 5 de agosto de 2012