Bem-Vindo ao Estação 018!
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Errata
Onde lê-se "foram felizes para sempre"
leia-se:
"continuaram apaixonados
por mais uns meses - afinal,
nenhuma dor é eterna - e foram
levando a vida juntos.
Houve, sim, brigas - afinal,
nenhuma felicidade é eterna -
e não entreolharam-se,
e não sorriram um para o outro.
Mas voltaram, perdoaram-se
- afinal, nenhuma separação
é eterna - e ofereceram-se
novamente como na primeira
noite.
Uniram-se e assim seguiram,
mas passearam, sim, por caminhos próprios
- afinal, nenhuma união é eterna -,
mas o caminho que importa,
este eles seguiram de mãos dadas.
Houve, sim, amor.
Não digo que existisse já nos
primórdios dos toques, nas turbulências
dos primeiros olhares,
mas houve. Talvez construído
nas noites frias, talvez descoberto
sob os cobertores, talvez achado
na primeira vez em que perderam-se
- afinal, seria o amor, eterno?"
Raul Cézar de Albuquerque
13-14/02/2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Respingos de Genialidade #35
"O problema estava em saber se é a doença que engendra o crime ou se o próprio crime, por sua natureza, é que é sempre acompanhado de um certo gênero de doença, mas isso era uma questão que ele não se sentia capaz de resolver."
Fiódor Dostoiévski, em "Crime e Castigo"
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Não-linearidade
era plácida a revolta
dois medos numa babel
uma babel no manto sujo
- que merecia ser incinerado
na fornalha afônica do esquecimento.
um olho
vislumbrando pela fresta do sono
o redemoinho cáustico
do absurdo:
ilhas pacíficas.
uma errata
sobre o incorrigível
três dores na tragédia
final feliz sem riso nem beijo
feliz.
Raul Cézar de Albuquerque
11/02/2013
dois medos numa babel
uma babel no manto sujo
- que merecia ser incinerado
na fornalha afônica do esquecimento.
um olho
vislumbrando pela fresta do sono
o redemoinho cáustico
do absurdo:
ilhas pacíficas.
uma errata
sobre o incorrigível
três dores na tragédia
final feliz sem riso nem beijo
feliz.
Raul Cézar de Albuquerque
11/02/2013
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Alforria
I
É tempo de medo e jugo.
É tempo de liberdade necessária
- e arredia.
É tempo de alforria.
II
É tempo de prender
- e exterminar – as borboletas
que insistem em dançar dentro
de mim quando tu ris das minhas besteiras.
É tempo de segurar
esse sorriso ilógico que emerge de mim
pelo simples fato de
estar eu podendo falar contigo.
É tempo de proibir
depredações desnecessárias
do próprio patrimônio
- em favor de um riso,
que nem sei se é de verdade.
É tempo de proibir
palhaçadas, festas, recitais e saraus.
É tempo de castrar
instintos, descontroles
e alegrias – e tristezas – incontidas.
É tempo de por tudo
em ordem.
III
É tempo de proibir
a própria escravidão.
É tempo de sair do mercado
e retirar do pescoço a placa “vende-se”.
É tempo de liberdade.
É tempo de alforria.
IV
É tempo de novos tempos.
de novos rumos.
De novos homens.
De novas ilusões.
De novas casas para a felicidade
- que, há tanto tempo, habita no cume
do mesmo monte inacessível.
É tempo de novidades.
De novas idades.
De novas dádivas.
De novos dilúvios.
De novas luvas
- menos brancas que as de sempre
para disfarçar as impurezas.
V
É tempo de novas rédeas
para os velhos cavalos
- nunca é tarde para aprendermos
o jeito certo de fazer-nos felizes.
É tempo de ler as placas:
“cuidado, animal feroz”
“afaste-se, alta
tensão”
“cuidado, amor
insano”
“afaste-se, pouca atenção”
É tempo de abortos espontâneos,
ou nem tão espontâneos assim
- histórias que findam sem ter começo.
É tempo de partos anormais
- fetos ejetados e esquecidos,
consumados e consumidos.
É tempo de racionamento de alegrias.
É tempo de abastecer de lágrimas
o cantil.
VI
É tempo de amputações voluntárias
- “o meu amor é teu” – e de
aproveitar o sangue que jorra
desses transplantes improvisados
- e geralmente malsucedidos –
para escrever na pele da coxa esquerda
a própria carta de alforria:
“Amo-te, finalmente, como quem quer bem
a um cão sujo que viu na rua.
Mas ainda amo-te com o mesmo ardor.
Já te amei, é verdade, de maneiras mais belas,
mas nunca de modo tão verdadeiro.”
Raul Cézar de Albuquerque
10/02/2013
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Inscrito em pedra

As histórias dos livros são superficiais.
As nossas anotações são superficiais
- basta uma borracha, e apagam-se;
basta um corretivo, e voltam a esconderem-se;
basta uma chama incontida, e queimam-se, voam para o sem-fim.
As histórias que realmente importam
são gravadas - dia a dia - nas placas de mármore
- na alma - pelo cinzel da verdade e pelo martelo
- que segue golpeando impiedosamente:
tic-tac! tic-tac! tic-tac! tic-tac! tic-tac!
Escrever assim a própria história é
- de certo modo - prazeroso,
pois é começar a distinguir-se dos outros
pelo que já se leva inscrito em si.
E as mais belas histórias são escritas
nas partes mais destacadas das placas
etéreas da existência.
Mas, se algo ocorre e torna-se necessário
esquecer aquilo, o processo ou é insuficiente
ou é doloroso.
Restam apenas duas opções:
Ou cobrimos a parte que nos insulta
e constrange a memória, o que não traz
um resultado perfeito
- pois sempre resta algo descoberto (que dói) -,
mas é um bom paliativo.
Ou lixamos a parte que nos faz contorcer
de dor saudosista, o que não é fácil nem indolor
- sentir sua mais bela história desfazer-se
em pó é massacrante -, mas depois de um tempo
não aparecem resquícios da tragédia
e fica-se pronto para outra história
- para outra decepção?
Depois de muitas histórias sobrepostas
- ou só uma que não poderia ser apagada -,
vem a morte e quebra as placas
- sem nem ler o que ali estava escrito.
E agradeço por só ter uma vida.
Se os gatos levam sete vidas, é por que aprenderam a cair
sem machucarem-se e prontos para continuar
a caminhada.
Eu, se caio, penso bem se vale a pena levantar
- se vale a pena lixar-se sem piedade até ver-se
pronto para outro conto de final infeliz.
Raul Cézar de Albuquerque
07/02/2013
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
7%
E se ela se for?
Repetitivas vezes perguntei a mim mesmo.
Yo no creí que podría suceder.
Karma? Castigo?
Assim seja, se quer castigar-me o destino, leve-me.
Talvez venha para o bem, mas
Agora está fazendo-me mal.
Yo no te comprendo, tal vez por eso me encante.
Nunca mais serão iguais as noites.
Nunca mais serão iguais as conversas.
Acabou? Acabou.
Caí.
Algo em mim foi-se.
Vozes silenciaram-se - as mais doces.
Algo em mim perdeu-se.
Longe. Longe. Permanecerá longe?
Caio outras vezes - até aprender.
Algo em mim morreu.
Nunca mais serei igual.
Talvez venha para o bem, mas de
Imediato é dor que não acaba mais.
Raul Cézar de Albuquerque
06/02/2013
Repetitivas vezes perguntei a mim mesmo.
Yo no creí que podría suceder.
Karma? Castigo?
Assim seja, se quer castigar-me o destino, leve-me.
Talvez venha para o bem, mas
Agora está fazendo-me mal.
Yo no te comprendo, tal vez por eso me encante.
Nunca mais serão iguais as noites.
Nunca mais serão iguais as conversas.
Acabou? Acabou.
Caí.
Algo em mim foi-se.
Vozes silenciaram-se - as mais doces.
Algo em mim perdeu-se.
Longe. Longe. Permanecerá longe?
Caio outras vezes - até aprender.
Algo em mim morreu.
Nunca mais serei igual.
Talvez venha para o bem, mas de
Imediato é dor que não acaba mais.
Raul Cézar de Albuquerque
06/02/2013
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Falsidade Ideológica
Rever fotos antigas
é não se reconhecer no próprio rosto.
É perceber que o tempo levou muito
- ou quase tudo, ou tudo - e trouxe outras coisas
- talvez não tão boas, talvez não o que era necessário.
Rever fotos antigas
é procurar-se noutro rosto
- que já foi o nosso.
É procurar no sorriso escolar
e na feição alegre da brincadeira
o olhar cansado que hoje toma a alma.
Rever fotos antigas
é saudar o que perdeu-se na estrada.
Rever fotos antigas
é entender que a vida é uma peça - de total improviso.
É perceber - do modo mais cronológico -
que o palco nunca fica vazio - pois,
se eu não atuar como protagonista,
alguém entrará lá e roubará as falas.
É constatar que o elenco fixo deve ser o menor possível
- se puder ser, só eu -, pois os coadjuvantes mudam
e passam e vão-se
- às vezes voltam, mas eu não conto com isso.
Rever fotos antigas
é compreender que o tempo é um bom negociador
- e que em algumas vezes eu saí perdendo.
Rever fotos antigas
é saber que o futuro promete mais perdas - que ganhos.
É lembrar todos os rostos
que o amor já teve e ir imaginando
mais rostos - mais belos? - que ele terá.
Rever fotos antigas
é rir do quanto meus sonhos eram incabíveis.
É resignar-se ao saber que o sorriso da foto
- que talvez fosse sincero - baseava-se
numa infantilidade falida e burra.
Rever fotos antigas
é reconhecer os malefícios da maturidade.
É fazer as contas e concluir que
trocar flores por frutos - sinal de maturação -
é inteligente - e até satisfatório -, mas não nos torna mais
felizes nem propriamente melhores.
Rever fotos antigas
é começar a temer que a morte chegue antes da felicidade
- do amor e do riso - e conferir se realmente nunca fomos felizes.
Rever fotos antigas
é perceber o quanto há soterrado sob o que se vê
- e o quanto há esquecido e o quanto há para esquecer.
É lembrar as vezes em que
se foi à venda da vida só para perguntar:
com quantas lágrimas se compra um sorriso?
Rever fotos antigas
é desconfiar de si próprio.
É questionar:
eu confio nesse menino da foto desbotada?
E nesse rapaz impúbere da foto eu confio?
E nisso que aparece no espelho quando lá me procuro
eu confio?
Eu confio nesse cara que já foi tantos,
que tanto já mudou e que só se chama pelo mesmo nome
por preguiça ou por descuido?
Raul Cézar de Albuquerque
05/02/2013
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Experimento
E haviam passado pelos meus olhos
os mais variados cálices e copos
com os mais duvidosos e desejáveis líquidos.
Ignorei muita coisa.
O primeiro cálice que levei a sério
era belo - belíssimo.
Como não se pode ir bebendo logo,
senti o aroma daquele vinho:
maduro - talvez demais pra mim;
bom - inegavelmente -,
mas não me conquistou.
Esperei para bebê-lo.
(na velha esperança de que
melhorasse com o passar do tempo).
Não deu certo.
Continuou igual
- igualmente mediano.
E passaram mais cálices.
O segundo cálice que encheu-me o olhos
- e acabou por esvaziar-me o coração -
era belíssimo - esplêndido.
Tinha um aroma absurdamente
BEBA-ME - e carregava um cheiro
sujo (no melhor sentido da palavra)
que conquistou-me.
Esperei para bebê-lo
- sem porquê aparente,
talvez para estar preparado
para tudo aquilo.
Enfim, não deu certo.
Virou vinagre
- o mais odioso e imprestável azedume de uma vida.
E veio o terceiro cálice
- ah, o terceiro cálice... -
que ainda me enche os olhos
e espero que me preencha o coração.
É esplêndido - indescritível.
Possui um aroma distante que
me chama para perto - e carrega
o tom do amor que termina
em felicidade ou não termina.
Espero para bebê-lo
- um passo por vez.
Dará certo?
Eu não sei.
Viver resume-se em experimentar ou não.
Raul Cézar de Albuquerque
04/02/2012
sábado, 2 de fevereiro de 2013
"Exilios" (de Pablo Neruda)
Uns por haver rechaçado
o que não amavam de seu amor,
porque não aceitaram mudar
de tempo, mudaram de terra:
suas razões eram suas lágrimas.
E outros mudaram e venceram
seguindo com sua história.
E também tinham razão.
A verdade é que não há verdade.
Mas eu em meu canto cantando
vou, e me contam os caminhos
todos quantos viram passar
neste século de homens sem pátria.
E o poeta segue cantando
tantas vitórias e dores
como se este pão turbulento
que comemos, os desta era,
talvez foi amassado com terra
debaixo de pés ensanguentados,
talvez foi amassado com sangue
o triste pão da vitória.
Poema "Exilios".
Escrito por Pablo Neruda, em Isla Negra, em 1969.
Publicado no livro "Fin del mundo", em 1969.
Traduzido por Raul Albuquerque
Crítica do livro 'Leite Derramado"
"Jó Joaquim, genial, operava o passado - plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?"
O trecho acima do conto "Desenredo" - do grande Guimarães Rosa - veio me à cabeça logo que acabei a leitura do "Leite Derramado", de Chico Buarque de Hollanda. Explicarei.
Chico já ganhou seu prestígio como compositor - que é inegável -, mas no campo da produção literária ainda enfrenta resistências. Sua obra tem aceitação dual: uns amam, outros queimariam na fogueira todos os exemplares. Bem... Eu devo confessar que o Chico-compositor é mais genial que o Chico-romancista, ele acostumou-nos mal, mas representa o que de melhor se produz hoje no Brasil.
O livro - publicado em 2009 - foi bem aceito pela crítica - não em unanimidade, claro. Ganhou prêmios de peso: Livro do Ano (oferecido pelo Jabuti) em 2010; Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2010; e a tradução para o espanhol - "Leche derramada" - ganhou recentemente o Prêmio de Narrativa José Maria Arguedas.
Enfim... vamos à crítica.
O livro é uma tentativa de retratar as memórias do velho Eulálio d'Assumpção - sim, esse é o nome. Um monólogo que toma todo o livro a fim de convencer-nos que seu passado glorioso - que transpõe o Atlântico e atravessa o império - reverbera a ponto de trazer tal glória ao seu estado atual: um velho pobre, esclerosado, esquecido num leito de hospital, esperando a morte chegar.
E onde é que o "passado plástico" de Jó Joaquim entra nessa história?
Na mente cansada e desordenada do pobre - mas orgulhoso - Eulálio, passados misturam-se e a ordem dos fatos não possui sentido. Ao longo do livro, os fatos retificam-se frequentemente - nem sempre com aviso.
"Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. [...] a fazenda na raiz da serra, acho que desapropriaram em 1947 para passar a rodovia."Lembranças da infância e da adolescência misturam-se e repetem-se. Com humor sempre presente advindo do absurdo das histórias, dos preconceitos do protagonista - que não são poucos -, da repetição dos fatos, das releituras. O passado de Eulálio torna-se plástico, pois nem ele próprio sabe bem como contá-lo e defini-lo.
"[...] e era natural que me causasse espécie entrar comigo no elevador um grandalhão com cara de nortista, nariz chato, pele grossa. Indiquei-lhe o elevador de serviço, mas ele me deu as costas e apertou o botão do meu oitavo andar."
Os detalhes de um passado que mistura esplendor e contos da vida privada são expostos sem vergonha. As garçoniéres de Paris, os ímpetos incontíveis, tudo é descrito com detalhes horrorizantes ou cômicos.
"Matilde repetiu, coragem, Eulálio, e já agora, em sua voz ligeiramente rouca, parecia que meu nome Eulálio tinha uma textura. Falou meu nome como se o arranhasse um pouco, e quando num volteio se retirou, tive como temia novo arrebatamento obsceno. [...] Se desejo era aquilo, posso dizer que antes de Matilde eu era casto."
A morte de Matilde é o ponto que mais possui versões. Por ser um episódio doloroso, talvez. Ela é apresentada como tuberculosa, esquizofrênica, mãe irresponsável, esposa infiel e mulher de pouca saúde. Cabe ao leitor escolher a melhor história ou ficar no maravilhoso ponto da dúvida.
A linguagem adaptada a um homem que chegou ao século XXI sem sair do século XIX foi bem colocada. A pontuação é utilizada de modo peculiar. A(s) história(s) é(são) bem contada(s).
O livro merece, sim, os prêmios e elogios que recebeu. Num tempo de literatura de mercado, precisamos valorizar os que ainda se põem a descrever a vacuidade das nossas vidas.
O livro termina com a descrição da morte de um Assumpção - "que já não dizia nada com nada" - numa espécie de sugestão de "não há nada novo debaixo do sol".
Os eulálios continuariam existindo - inclusive literalmente, pois os netos, bisnetos, trinetos tiveram o mesmo nome do orgulhoso Eulálio.
Viva Chico! - Eu indico!
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