Em Recife
faz calor
nenhuma novidade, não é, menina?
e você contava calorias
enquanto eu no calor ria
e o rio parava às minhas costas
eu nem lembro do que estudei
sobre o assunto
nem sei de calorimetria
e o calor metia a luz do sol
na mistura doce dos olhos
serenos
e você contava calorias
enquanto eu no calor ria
e o rio parava às minhas costas
como que o calor
fizesse sublimar
a tua beleza líquida
em ar de embriaguez
e você contava calorias
enquanto eu no calor ria
e o rio parava às minhas costas
você nas calorias
eu no calor rio
dos teus risos
e dos rios
que correm
rio dos rios que correm
compreendo os rios
que param
eu também pararia
se o som que
serve de tutorial às aves
fluísse de um sorriso
como flui do teu...
Bem-Vindo ao Estação 018!
domingo, 5 de janeiro de 2014
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Ad hoc
No caso, a fotografia falha
em revelar a geografia
do teu rosto,
pois tudo parece posto,
mas teus olhos dançam
sem melodia.
No caso, os dias marcam
os compassos e as notas
saem limpas,
pois dias são pesados,
mas tua voz é leve e leva
meu meio dia.
No caso, o não revelado
e coberto pelo cabelo,
que na foto não sai,
fica como o tempo
que não passa,
o sorriso que não
perde a graça.
No caso, não há lei,
há um direito subjetivo,
solto como os teus cabelos,
de ouvir-te vez ou outra
falar sobre o que
não entendo
e ouvir-te só
e ler-te só
é ouvir e ler o que ecoa
nas curvas da Eternidade.
Raul Albuquerque
27/12/2013
em revelar a geografia
do teu rosto,
pois tudo parece posto,
mas teus olhos dançam
sem melodia.
No caso, os dias marcam
os compassos e as notas
saem limpas,
pois dias são pesados,
mas tua voz é leve e leva
meu meio dia.
No caso, o não revelado
e coberto pelo cabelo,
que na foto não sai,
fica como o tempo
que não passa,
o sorriso que não
perde a graça.
No caso, não há lei,
há um direito subjetivo,
solto como os teus cabelos,
de ouvir-te vez ou outra
falar sobre o que
não entendo
e ouvir-te só
e ler-te só
é ouvir e ler o que ecoa
nas curvas da Eternidade.
Raul Albuquerque
27/12/2013
domingo, 1 de dezembro de 2013
mea maxima culpa
Há quantos meses não te escrevo, moça...
É o meu tentar falho e feio
de retribuir-te o abandono.
É o meu falhar feio
em tentar te trazer
para os meus dias,
mas eles são apertados
e tu nem cabes,
mas deverias caber.
Eu amo os dias em que tu cabes,
mesmo que só caiba a tua voz, menina.
E, quando tu não cabes
naquele quadrado infame do calendário,
tudo fica vazio,
mesmo que o quadrado esteja
cheio de suas vinte e quatro gotas
de falta de tempo.
Mas tu não constas
e a lua desce triste.
Se me abandonas,
eu me morro um pouco,
mas não é culpa tua,
menina,
nunca será culpa tua,
nunca.
A culpa é minha.
Pois sou eu que te escrevo estes versos,
depois de ouvir um poema triste.
E por que a culpa é minha,
eu te peço perdão por escrever-te
de novo.
Mas é que
minha poesia fica mais
____________
quando tu cabes nela.
Raul Albuquerque
01/12/2013
É o meu tentar falho e feio
de retribuir-te o abandono.
É o meu falhar feio
em tentar te trazer
para os meus dias,
mas eles são apertados
e tu nem cabes,
mas deverias caber.
Eu amo os dias em que tu cabes,
mesmo que só caiba a tua voz, menina.
E, quando tu não cabes
naquele quadrado infame do calendário,
tudo fica vazio,
mesmo que o quadrado esteja
cheio de suas vinte e quatro gotas
de falta de tempo.
Mas tu não constas
e a lua desce triste.
Se me abandonas,
eu me morro um pouco,
mas não é culpa tua,
menina,
nunca será culpa tua,
nunca.
A culpa é minha.
Pois sou eu que te escrevo estes versos,
depois de ouvir um poema triste.
E por que a culpa é minha,
eu te peço perdão por escrever-te
de novo.
Mas é que
minha poesia fica mais
____________
quando tu cabes nela.
Raul Albuquerque
01/12/2013
sábado, 30 de novembro de 2013
in verter
de:
raul
não sei quais foram os seus métodos
não sei se estava acordado quando você fez isto
ou se me fez dormir e me roubou costelas
ou se me iludiu com os olhos
enquanto me lia com as mãos
mas quando dei por mim
estava invertido
luar
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
flúor na água
a Nathaly Monte
Àquela que sabe
(porque um homem de respeito disse)
que o que sai do homem
e não o que entra nele
é que o contamina
Àquela que estuda
que o que entra no homem
também o contamina
Àquela que
por mais que ame
um café
sabe que
às vezes
privar-se
também é sinal de amor
Àquela que cita na oração
as giárdias e faz do pedido
quase uma aula de biologia
àquele que não precisa de aula
Àquela que lembra e conta o passado
e faz com que eu esconda meu riso descontrolado
sob a mesa
Àquela que evita fotos
e esconde seu riso
sob a mesa
Àquela que gosta do anacronismo
Àquela que chega quando não tem aula
A ela
que não falte
A ela
flúor na água para
proteger o sorriso
(que não deve ser escondido ;)
Raul Albuquerque
28/11/2013
volte sempre
eu não sei por que uso
tantas palavras tão difíceis,
se te amar é tão fácil...
eu não sei por que uso
tantas palavras tão grandes,
se te amar é tão breve...
talvez seja para contrapor
eu peço para segurar sua mão
... queria saber dançar
dá-me um prazer irredutível
só reduzir teu nome
e fazer-te meu sol
porque rima
é inconsequente te querer
mas dou-me esse direito
ainda que não tenha
quando olho o relógio
quero que não seja tarde
sei que os grandes amores
são incendiários e são sem contrato
então
me perca
me esqueça num canto
me diga
me compre num riso
me leve
me deixe só
mas volte
volte sempre
talvez esse meu
volte sempre
seja igual ao
volte sempre
daquelas cidades
do interior
que não têm mais de uma rua
uma igrejinha
uma venda
pessoas na calçada
aquelas cidades
que nada parecem oferecer
que a gente nunca pensa em morar nelas
mas elas deixam lá
por descuido ou esperança
uma placa de
volte sempre
vai que alguém queira voltar?
vai que alguém queira ficar?
que incrível seria se você
viesse
e ficasse...
Raul Albuquerque
28/11/2013
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
_ carta
__
Sempre ouvi que não se deve começar falas ou cartas pedindo desculpas por algo, mas não vejo outro modo de iniciar isto aqui.
Então, perdão por já começar assim, pedindo perdão.
É que eu tenho errado tanto e tantas vezes e... tenho sido indigno. Quem fecha-se em muros não merece brisa, mas eu, que em muros me mortifiquei, recebo sempre do teu sopro diário. Quem faz teto contra a chuva não merece sol, mas eu, que me cobri de concreto, recebo de tua luz por frestas que a própria luz abre. Quem não abre janelas não merece ver a rua, mas eu, que não rasguei as paredes, sei dos problemas dos que atravessam a rua com o celular no ouvido, os papéis na mão, o vazio no estômago, o oco no coração, o vácuo no pulmão e o atraso no pensamento. Quem não coloca portas não merece receber visitas, mas eu, que mantenho meu cárcere intacto, tenho tua presença nos fins de tarde, não tomamos chá ou café, mas algo do som quente dos teus pulmões aquece meus invernos que vigoram nas minhas caixas - torácica e craniana.
Tenho também que agradecer pelas tuas surpresas, as que eu nem sei contar e que ainda preciso te perguntar sobre o como e o porquê.
Os caminhos não me cantam futuros. São todos incerteza. E eu aguardo tua visita amanhã ou hoje ainda, precisamos conversar. Tenho medo de que você canse e me abandone no meu cubículo - que é fechado e pequeno, mas bem localizado.
Eu me morro numa vida de felicidade inverossímil. Gosto de me despir dos adornos na sua frente - sem medalhas, sem armadura - e de dizer que estou tentando aprender, mas pareço não saber ler os teus recados na caixa de mensagens. Sei dos teus quereres em mim, mas não os conheço, e te amo, o que me destrói e me enche dum impreenchido desejo de ser.
Ser não o que sou - que é pouco. Ser não o que vi no delírio. Ser não o mais alto ou o mais central. Ser o que teus sussurros regem e o que teus olhos acompanham. Não tenho medo de tua mão, quando a sinto, ela já foi e deixou apenas a ferida ligada, como que costurada nas tuas linhas.
Preciso dormir. Espero sua visita. Deixarei café e chá prontos pra te esperar. Preciso saber quais são os meus planos.
Apareça, assim que der.
____________________ R. Albuquerque
Sempre ouvi que não se deve começar falas ou cartas pedindo desculpas por algo, mas não vejo outro modo de iniciar isto aqui.
Então, perdão por já começar assim, pedindo perdão.
É que eu tenho errado tanto e tantas vezes e... tenho sido indigno. Quem fecha-se em muros não merece brisa, mas eu, que em muros me mortifiquei, recebo sempre do teu sopro diário. Quem faz teto contra a chuva não merece sol, mas eu, que me cobri de concreto, recebo de tua luz por frestas que a própria luz abre. Quem não abre janelas não merece ver a rua, mas eu, que não rasguei as paredes, sei dos problemas dos que atravessam a rua com o celular no ouvido, os papéis na mão, o vazio no estômago, o oco no coração, o vácuo no pulmão e o atraso no pensamento. Quem não coloca portas não merece receber visitas, mas eu, que mantenho meu cárcere intacto, tenho tua presença nos fins de tarde, não tomamos chá ou café, mas algo do som quente dos teus pulmões aquece meus invernos que vigoram nas minhas caixas - torácica e craniana.
Tenho também que agradecer pelas tuas surpresas, as que eu nem sei contar e que ainda preciso te perguntar sobre o como e o porquê.
Os caminhos não me cantam futuros. São todos incerteza. E eu aguardo tua visita amanhã ou hoje ainda, precisamos conversar. Tenho medo de que você canse e me abandone no meu cubículo - que é fechado e pequeno, mas bem localizado.
Eu me morro numa vida de felicidade inverossímil. Gosto de me despir dos adornos na sua frente - sem medalhas, sem armadura - e de dizer que estou tentando aprender, mas pareço não saber ler os teus recados na caixa de mensagens. Sei dos teus quereres em mim, mas não os conheço, e te amo, o que me destrói e me enche dum impreenchido desejo de ser.
Ser não o que sou - que é pouco. Ser não o que vi no delírio. Ser não o mais alto ou o mais central. Ser o que teus sussurros regem e o que teus olhos acompanham. Não tenho medo de tua mão, quando a sinto, ela já foi e deixou apenas a ferida ligada, como que costurada nas tuas linhas.
Preciso dormir. Espero sua visita. Deixarei café e chá prontos pra te esperar. Preciso saber quais são os meus planos.
Apareça, assim que der.
____________________ R. Albuquerque
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Sabê-lo
O saber é pessimista:
anota todas as dores
destaca os malfeitores
e põe tudo numa lista
O saber é pessimista:
analisa tudo o que dói
sente tudo o que corrói
e põe tudo numa lista
o saber é pessimista:
corta em partes o bem
coloca-nos como reféns
e põe todos numa lista
A todos é dado morrer:
como prêmio ou punição
como tese de conclusão
e é pessimista o saber
Raul Albuquerque
07/11/2013
anota todas as dores
destaca os malfeitores
e põe tudo numa lista
O saber é pessimista:
analisa tudo o que dói
sente tudo o que corrói
e põe tudo numa lista
o saber é pessimista:
corta em partes o bem
coloca-nos como reféns
e põe todos numa lista
A todos é dado morrer:
como prêmio ou punição
como tese de conclusão
e é pessimista o saber
Raul Albuquerque
07/11/2013
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
ilegível
senhora
o que escreveram em ti
me é ilegível:
caracteres antigos
verdadeiros arcaísmos
não entendo o que te disseram
(e o que vislumbro
é tão absurdo
que prefiro negar)
nos teus olhos inconstantes
(ainda que belos)
vejo cidadelas
fortificações antigas
e minhas falas
vêm de cidades suplantadas
muros cobertos de relva nova
meus velhos muros
hoje são puro verdor
e ver dor purifica
teu cansaço
parece gozo
e teus raros
carinhos
bem caros
são dores
indolores
a anestesia
é pura
sensação
de alegria
arredia
o teu nome eu nem lembro
mas se tua prisão é florida
e já vês o fim da tua vida
vai, que já passou setembro.
Raul Albuquerque
31/10/2013
terça-feira, 29 de outubro de 2013
imensurável

- você me ama?
- sim sim sim
- quanto você me ama?
- quinhentos e noventa e mil
esse amor que
de tão imenso
chega a ser
imensurável
os bons tempos
em que o amor
- assim como outros delírios -
não precisava fazer sentido
a dormência
em que as declarações
não precisavam de rima
nem de matemática
o próprio amor
cobria as incongruências,
como se depois de falar
quinhentos
a gente percebesse
que era pouco
e acrescentasse
noventa
mas ainda seria pouco
e a gente coloca mais
mil
mesmo que atrasado
e fora de ordem
o próprio amor
cobria as incongruências
esse amor que
de tão imenso
chega a ser
imensurável
e assim resta
a sensação
de que ainda o mil
não poderia
quantificar
o quanto aquele janeiro
era largo
o quanto aquela presença
era preciosa
esse amor que
de tão imenso
chega a ser
imensurável
e eu digo que
quinhentos e noventa e mil
foi a melhor resposta
que já dei na vida
Raul Albuquerque
29/10/2013
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