Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

sábado, 11 de maio de 2013

Aquele silêncio


Encantou-me,
porque ela era toda silêncio.
E eu, que era todo palavras,
vi-me no salão vazio.


Encantou-me,
porque ela era toda silêncio,
e sua chama não era incêndio,
mas queimava como se queimam
as cartas arrependidas.

Encantou-me,
porque, quando pensei que 
ela era toda silêncio, revelou-se
toda palavra
e em tão poucas palavras
comprou-me como ouvinte.

Encantou-me
em seu tímido olhar mel
- em gosto e em cor -
que, por vezes baixo,
era fim de tarde infinda.

Não é amor, ainda é fascinação,
porque amor não tem motivo,
amar é estar preso, cativo,
sem castigo nem perdão.

Mas este teu silêncio
dá-me, por si só,
mais de mil motivos para amar-te.

Raul Albuquerque
11/05/2013

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Flauta transversal


O ataque em lá
da flauta transversal
traspassou
meus mil muros
- cansados de esperar por alguém 
que os derrube -
e tocou violenta
e singelamente
o que mais resguardei:
o fruto sagrado
que, se guardado, 
é eterno,
se exposto,
acaba estragado.


O ataque em lá
da flauta transversal
traspassou meu corpo
e, em vez de morto,
vi-me vivificado
no esvaziar-me de mim
pelo corte aberto
na carcaça imunda
e, só então,
pude encher o pulmão 
de ar e de esperança,
ascendendo aos céus
e
acendendo as luzes.


O ataque em lá
da flauta transversal
varou o salão 
e só sei que
ouvi portas abrindo,
paredes caindo
e filhos nascendo.

Raul Albuquerque
10/05/2013

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Novas histórias mal-contadas

aviso

num incontido bocejo avisou
como era empolgante saber
que o dólar valorizou
e a seleção acaba de vencer

subentendido

o mal da tua linguagem
é que falas o silenciável
deixas o importante à margem
e nunca confessas o inegável

stalker

na casa que já foi minha
entro hoje pela porta de trás
pulando o muro da vizinha
só pra ver-te dormir em paz

verlaine: le musique

antes dos dados, das datas,
dos doidos, das ditas doidas dormentes,
dos sussurros, dos urros frementes,
da métrica tétrica e tântrica,
da escrita automática e epifânica,
antes de tudo,
a música.

monarquia

empossada rainha sobre tudo
reinas post-mortem sob lei funesta
se desapareces, decreta-se luto
se vens, tudo refaz-se em festa

contrato

ah, o poder que certas músicas
e certos poemas têm
de serem especiais só pra mim
e pra mais ninguém.

caixa

a vida é uma caixa pequena demais
nem bem cabe o vento
pomos umas besteiras e nada cabe mais
já falta espaço
já acabou o tempo

Raul Albuquerque
09/05/2013

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Outras histórias mal-contadas

semanais

há quem espere o domingo
durante toda a semana
assim um domingo
assim outro domingo
e na hora de levantar
permanece dormindo

perdas e ganhos

num prematuro sorriso
sete meses valeram a pena
até dois meses a mais pagaria
mais peso mais noite mais dia
por aquela inquietação tão serena

édipo

mamãe me geme ao ouvido
na minha cama natal
e papai é morto e esquecido:
fatalismo fatal.

espelho

paixão é espelho defectivo
não sabe bem o que indica
se ela não está, abre o arquivo
se ela se vai, a imagem fica

insinuações

tranca a porta
deixa a lâmpada apagada
que o escuro nos comporta
e a noite nunca está cansada

urban art

no muro do prédio abandonado
grito de quem observa tudo
e nunca é observado

o que se quer

danem-se 
o vintage e o new age
o antigo e o moderno:
eu quero o eterno!

Raul Albuquerque
08/05/2013

Soneto a Abril



Abril, recolhe tu as tuas garras,
o riso dela precisa viver
lindo - como pintado no atelier
em que um deus compõe fanfarras.

Abril, não ouses deixá-la infeliz,
a alegria dela é a aquarela
usada pra deixar a manhã mais bela
e eterna do que sempre se quis.

Abril, quando tiveres tua vez
- e trocarmos os nossos calendários -,
faze-a feliz como ela merece.

Faze-a feliz como ela me fez
com meus dramas e seus sorrisos diários.
No fio dela, minha alegria se tece.

Raul Albuquerque
08/05/2013

terça-feira, 7 de maio de 2013

Mais histórias mal-contadas

frustração

ao sinete distante,
correu a atender a amada.
momento frustrante:
mensagem informante
dos créditos e mais nada

abstração

ansioso fitava a estrada
e ouviu alguém dizer-lhe oi
enquanto curioso procurava
o ônibus que esperava se foi

wake up

em momento de desilusão
clamou ao céu por um prazer diminuto
tapando os olhos com a mão
implorou: só mais cinco minutos

sem energia

acordou suado
ventilador desligado
nenhuma lâmpada acendia
ah, ninguém merece queda de energia

identificação

ao fim do livro
sempre acontecia:
eu não conheço o autor,
mas ele me conhecia

(dis)simulação

diante da piada sem graça
não sabia o que falar
decidiu digitar kkkkk

times

meu medo é o tempo passar,
sempre dizia em si bemol.
odiava espelhos e relógios
os calendários todos ilógicos
no café da manhã: pão com formol.

Raul Albuquerque
07/05/2013

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Histórias mal-contadas

descompasso

sol a pino sobre
esquecida casa
e lá dentro
relógio marcando
meia-noite

desistência

tarde de maio
corpo caindo dum arranha-céu:
desistiu de tentar voar


sem rede

caiu a rede
e enredado no ócio
caiu no sono

em silêncio

longe do chororô
na porta da igreja
alguém lamentava 
silenciosamente

dúvida

entre o sim e
a chuva de arroz
estremeceu:
a certeza revelou-se
incerta

ponto de vista

na oitava briga
deitou o rosto
e viu o infinito

estilo

sob as roupas novas
aquela frustração
sempre in
nunca out

Raul Albuquerque
06/05/2013

sexta-feira, 3 de maio de 2013

unidade

na volta 
pelos mesmo trilhos
sete velhos
o pensamento um só:
depois de hoje,
quem cantará para nós?

Raul Albuquerque
03/05/2013

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Peço e aviso


Tu, que vens tão lentamente
da inacessível terra em que nascem os rios
e desenham-se as flores mais raras
e gravam-se as músicas que a solidão toca
e guardam-se os olhos da felicidade,
podes chegar mais cedo?

É que nem sei dançar,
terei ainda de aprender contigo.

É que te espero para 
o sorriso mais largo,
para o eu-te-amo
mais sincero e necessário,
para dormir no colo
por toda uma tarde,
para a realidade
que faça inveja ao sonho.

É que te espero.
Mesmo sem saber se és paz,
se és revoada,
se és estadia,
se és fim de tarde,
manhã de frio ou
alta madrugada,
desde já, amo-te.

Raul Albuquerque
02/04/2013

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O "crepúsculo" de Pablo Neruda


Ninguém nasce Pablo Neruda - nem o próprio Pablo Neruda nasceu Pablo Neruda. 

Explico: o nome "real" de Neruda é Neftalí Ricardo Reyes Basoalto (o pseudônimo e seu motivo nunca foram bem explicados pelo escritor)

A grandiosidade alcançada pelo poeta chileno no auge de sua produção é resultado, não de um milagre, mas de um processo. Quem lê "Residência na terra" há de entender que antes do meio-dia sempre há uma manhã crepuscular, assim sendo, Pablo Neruda inicia-se na literatura com um livro profético: "Crepusculário".

Crepusculario. Pablo Neruda

O livro reúne os poemas escritos por Neruda entre os dezesseis e os dezessete anos, quando, segundo o próprio, escrevia entre dois e cinco poemas diariamente. Já no "Início" (primeiro poema do livro), o precoce gênio avisa:

"Fecho, fecho os lábios, mas em rosas frementes
se desata minha voz, como água na fonte.

Que não são pomposas, que não são fragrantes,
são as primeiras rosas - irmão caminhante -
de meu desconsolado jardim adolescente."

A primeira publicação consta de 1923, quando o iniciante Neruda ainda publicava avulsamente em jornais e revistas, e é dividida em "capítulos". 
O primeiro é Helios. Nele, tomam destaque os questionamentos sobre Deus (observado com ênfase em "Pantheos"), sobre o tempo (como em "Velho cego, choravas") e sobre o amor (em "Novo soneto para Helena"), mas em todos vê-se uma forte influência parnasiana e surrealista:

"Se quiseres não nos diga de que ramo somos,
não nos diga quando, nem nos diga como,
mas nos diga para onde nos levará a morte..."
(trecho de Pantheos)

"Porque se tu conheces o caminho que leva 
em dois ou três minutos para a vida nova,
velho cego, o que esperas, o que podes esperar?"
(trecho de Viejo ciego, llorabas)

"E será tarde, porque se foi minha adolescência,
tarde porque as flores uma vez só dão essência
e porque ainda que me chames estarei tão longe..."
(trecho de Novo soneto para Helena)


O segundo é Fareweel, y los sollozos. Nele, o amor toma destaque, mas o aspecto parnasiano perde força, dando espaço para uma forte carga surrealista, na temática, e modernista, na estética. Farewell, que parece ser o poema central (e titular) do capítulo, destaca-se como uma carta - interrompida por parênteses literais.

"(Amo o amor dos marinheiros
que beijam e se vão.

Deixam uma promessa.
Não voltam nunca mais.

Em cada porto uma mulher espera:
os marinheiros beijam e se vão.

Uma noite se encostam na morte
no leito do mar.

(4)

Amo o amor que se reparte
em beijos, leito e pão.

Amor que pode ser eterno
e pode ser fugaz.

Amor que quer libertar-se 
para voltar a amar.

Amor divinizado que se achega.
Amor divinizado que se vai.)"
(Trecho de Farewell)

"Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como ninguém soube jamais!
Morrer e ainda 
amar-te mais.
E ainda 
amar-te mais
                       e mais."
(Trecho de Amor)

" Amor - chegado que tenhas
  a minha fonte distante,
  torce-me as vertentes,
  crispa-me as entranhas.
E assim uma tarde - amor de mão crueis -,
ajoelhado, te agradecerei."
(Trecho de Grita)

O terceiro é Los Crepusculos de Maruri. Segundo o próprio Neruda, os poemas desse capítulo foram escritos por ele enquanto admirava os poentes. Eles focam nos devaneios advindos dessa contemplação e são tomados pelo experimentalismo modernista.

"A tarde sobre os telhados
cai
e cai...
Quem lhe disse que viesse
asas de ave?

E este silêncio que enche
   tudo,
de que país de astros
   veio só?
E por que esta bruma
   - pluma trêmula -
beijo de chuva
   - sensitiva -

caiu em silêncio - e para sempre -
   sobre minha vida?"
(Poema La tarde sobre los tejados)

"Minha alma é um carrossel vazio no crepúsculo..."
(Poema Mi alma)

"Minhas alegrias nunca saberás, maninha,
e esta é a minha dor, não as posso te dar:
vieram como pássaros a pousar em minha vida,
uma palavra dura as faria voar."
(Trecho de Hoy, que es el cumpleaños de mi hermana)


O quarto capítulo é Ventana al camino. Nele, o surrealismo ganha força total e as metáforas - quase herméticas - tomam os poemas.

"Entretanto é tão vasto céu
e roda o tempo, entretanto.
Estender-se e deixar-se levar
por este vento azul e amargo!..."
(Trecho de Playa del Sur)

"Ela - a que me amava - morreu na Primavera.
Recordo ainda seus olhos de pomba em desconsolo.

Ela - a que me amava - fechou os olhos. Tarde.
Tarde de campo, azul. Tardes de asas e voos."
(Trecho de Poema en diez versos)

O quinto capítulo é Pelleas e Melisanda. Não por acaso, referência à opera de Claude Debussy. Esse capítulo põe-se como releitura da obra, um diálogo entre os personagens.

"Melisanda
Em teus braços, enredam-se as estrelas mais altas.
Tenho medo. Perdoa-me por não ter chegado antes.

Pelleas
Um sorriso teu apaga todo um passado:
guardem teus lábios doces o que já está distante.

Melisanda
Em um beijo, saberás tudo o que calei."
(Trecho de Melisanda e Pelleas)


O sexto e último capítulo é Final.

"Vieram palavras, e meu coração,
incontível como um amanhecer,
rompeu-se me palavras e se apegou ao voo,
e em suas fugas heroicas levam-no e arrastam-no,
abandonado e louco, e esquecido debaixo delas

como um pássaro morto debaixo de suas asas."
(Trecho final de Final)

VIVA NERUDA!

(todos trechos destacados foram traduzidos por Raul Albuquerque)