Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

sábado, 17 de maio de 2014

Soneto-resposta para agrado de neoparnasianos

Aprendi cedo a poesia com Moraes
e vi que nos sonetos cabem vidas,
há espaços para alegrias sofridas
e para os cotidianos mais imorais.

Não há necessidade de rimar,
mas há de ser o texto a boa forma
forjada em porões d'alma sem norma
que saiba diferenciar poça e mar.

A poça vem de qualquer chuva
e com qualquer sol evapora já,
mas o mar, além da forma-luva,

sabe que traz em si eco de rios
e, para além de um medo sombrio,
sabe que é o ser-rio que o faz ser mar.

Raul Albuquerque
17/05/2014

quinta-feira, 8 de maio de 2014

[onde couber bem]

desaprendi a minha casa

onde coubera tudo já nada cabe

destendi dores pré-históricas
e atravessei noites homéricas
em busca da terra em que 
os sonhos se desmancham
em ondas de realidade 
num mar longo e pacífico

mas nada encontrei
só o oceano insatisfeito
e terremotos no oriente

voltei para casa e já nada cabia
perderam-se as medidas
e os móveis apertaram-se
com as portas ficando menores
e eu mal pude entrar
só pus a cabeça na entrada
e vi que já nada me cabia

hoje trago malas 
e uma vontade eterna
de construir um lar
em que caibam
as lembranças [o futuro [o meu nome [e amor por capricho]]]

Raul Cézar de Albuquerque
08/05/2014

sexta-feira, 25 de abril de 2014

hoje

o sol que eu vi descer a rua me assustou
e eu morri de medo
a luz de seus dedos me ressuscitou
uma dor antiga

e tu entraste disfarçada de cantiga
aplaudida pelos meus cílios
e cheia de rosas encravadas
como uma joia

eu soube dos astros tocando teu cabelo
e das cascatas americanas olhando teu sorriso
já perdi as contas de imaginar-te 

pensei em dizer os dias
mas o sol já desceu a rua
e a noite fica nua
sem você, a morte continua

Raul Albuquerque
25/04/2014




sábado, 22 de março de 2014

[dá-me teu tear]


chego hoje a uma conclusão:

preciso de teus olhos

mesmo que eu não os olhe e que eles não me olhem
preciso da gota de futuro que é saber que eles existem

preciso de teus olhos

não faz sentido [eu sei
mas não preciso de sentido [preciso de teus olhos

preciso de teus olhos

só durmo e acordo enquanto houver olhos teus
só respiro enquanto houver teus olhos

preciso de teus olhos

só morro se houver teus olhos
sem eles nem vida nem morte
sem eles apenas trocas gasosas e sanguíneas
               [apenas conversas ocas
               [apenas marasmo
               [apenas o mar sem alma que namora o abismo.

Raul Albuquerque
22/03/2014


quarta-feira, 19 de março de 2014

[atrasada]


há notas na tua fala
e ninguém conseguirá cantar
as tuas anotações 
como tu cantas, 
a mezzo-soprano mais exata
em errar a hora

e há mistérios
que são belos velados
e descobertos 
são nus pecados
sem cor de céu sol sal

y solamente tú
quedas al lado de las estrellas
y de los corales 
              del oceano

tu divides dois tempos e dois domínios
hoje é tua a plenitude
e teu é ser sempre


Raul Albuquerque
19/03/2014

quinta-feira, 13 de março de 2014

miedo miel mar

por las calles me voy
y sin miedo
la noche cae

una sonrisa se fue
mis ojos no la miran más
sólo tengo
una rota eternidad

y tengo miedo

no que lo tenga yo
él me tiene

soy todo miedo miel y mar

miedo por no ser

miel por querer

mar por las olas que se van 
  y siempre vuelven
      y nunca vuelven iguales

besame la esperanza
  que es una niña ciega
podría ser cecília su nombre
  pero es esperanza
y su beso lleno me hace oco


Raul Albuquerque
13/03/2013

quarta-feira, 12 de março de 2014

doçura

não é exagero crer que
a vida é o caudaloso rio
que cai a conta-
                -gotas

e cada amor é como 
um verão 
       ou como qualquer estação
de metrô em que
       o ruído é feito de infinitas vozes
como o murmúrio do mar
       vem do mármore
e das marés (leiam-se lágrimas)
       vem do cárcere
e dos campos (leiam-se fábricas)
       
       em todo lugar se pode ouvir o mar
porque está o mar em todo lugar
       cada adeus é braço de mar
oceano a desaguar na gente
       que chora e lava os pecados
que salgam o mar até que 
       tudo seja novo céu e nova terra

       mas hoje sou apenas
um braço atrofiado de mar
       não sei ser rio 
porque falta doçura

Raul Albuquerque
12/março/2014

domingo, 5 de janeiro de 2014

Caloria

Em Recife
faz calor

nenhuma novidade, não é, menina?

e você contava calorias
enquanto eu no calor ria
e o rio parava às minhas costas

eu nem lembro do que estudei
sobre o assunto
nem sei de calorimetria
e o calor metia a luz do sol
na mistura doce dos olhos
serenos

e você contava calorias
enquanto eu no calor ria
e o rio parava às minhas costas

como que o calor 
fizesse sublimar 
a tua beleza líquida
em ar de embriaguez

e você contava calorias
enquanto eu no calor ria
e o rio parava às minhas costas

você nas calorias
eu no calor rio
dos teus risos
e dos rios
que correm 

rio dos rios que correm

compreendo os rios
que param
              eu também pararia
              se o som que
              serve de tutorial às aves
              fluísse de um sorriso 
              como flui do teu...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Ad hoc

No caso, a fotografia falha 
em revelar a geografia
do teu rosto,
pois tudo parece posto,
mas teus olhos dançam
sem melodia.

No caso, os dias marcam
os compassos e as notas
saem limpas,
pois dias são pesados,
mas tua voz é leve e leva
meu meio dia.

No caso, o não revelado
e coberto pelo cabelo,
que na foto não sai,
fica como o tempo 
que não passa,
o sorriso que não
perde a graça.

No caso, não há lei,
há um direito subjetivo,
solto como os teus cabelos,
de ouvir-te vez ou outra
falar sobre o que 
não entendo
e ouvir-te só 
e ler-te só
é ouvir e ler o que ecoa
nas curvas da Eternidade.

Raul Albuquerque
27/12/2013

domingo, 1 de dezembro de 2013

mea maxima culpa

Há quantos meses não te escrevo, moça...

É o meu tentar falho e feio
de retribuir-te o abandono.

É o meu falhar feio
em tentar te trazer 
para os meus dias,
mas eles são apertados
e tu nem cabes,
mas deverias caber.

Eu amo os dias em que tu cabes,
mesmo que só caiba a tua voz, menina.

E, quando tu não cabes
naquele quadrado infame do calendário,
tudo fica vazio,
mesmo que o quadrado esteja
cheio de suas vinte e quatro gotas
de falta de tempo.
Mas tu não constas
e a lua desce triste.

Se me abandonas, 
eu me morro um pouco,
mas não é culpa tua,
menina,
nunca será culpa tua,
nunca.

A culpa é minha.

Pois sou eu que te escrevo estes versos,
depois de ouvir um poema triste.

E por que a culpa é minha,
eu te peço perdão por escrever-te
de novo.
Mas é que
minha poesia fica mais 
____________
quando tu cabes nela.

Raul Albuquerque
01/12/2013