segurava firme a cabeça entre as mãos
como se ela pudesse cair
depois de ver que tudo tinha caído
e só sobrara o pó do riso
Raul Albuquerque
19/04/2013
Bem-Vindo ao Estação 018!
sexta-feira, 19 de abril de 2013
quinta-feira, 18 de abril de 2013
São João

Ultimamente
uma ideia tem me rondado.
Às vezes
tenho vontade de guardar tudo
tudo mesmo
as coisinhas bestas que fiz,
as besteiras apaixonadas que disse,
os sorrisos sem porquê nem como que dei de graça,
os "amo-te" inconsequentes que escrevi,
as lembranças inventadas de um casamento branco
- todo branco -
enfim
as coisas que eu não queria esquecer
pegar todas elas
e guardar numa caixa preta e
opaca - para nem dar saudade do futuro
foi, sim, legal,
mas nada que uns fins de tarde na praia não amenizem
nada que um outro encantamento não suplante
nada que não passe
afinal, tudo passa, não é?!
retomando:
pegar todas elas
e guardar numa caixa preta e
opaca - para nem dar saudade do futuro
a ideia mais plausível até agora é a de
jogar essa caixa numa fogueira de são joão
e deixar lá queimando
indo
sumindo
- mas o são joão está longe! ainda faltam meses!
- exatamente por isso, eu preciso de tempo
para dar novos significados às coisas.
Raul Albuquerque
18/04/2013
terça-feira, 16 de abril de 2013
Alegorias para ela

primeira alegoria
d e
a r e i a
sem sentido
direção
ou lógica humana.
patético
pareço ter viajado quilômetros,
mas
para onde?
atrás de que?
em busca de algo?
seguindo alguém? quem?
só que perdido
sei estou agora
segunda alegoria
Enquanto eu dormia,
pintaste meu quarto de tons
mais vivos e
redesenhaste a paisagem
redesenhaste a paisagem
além da janela.
Acordei e estava tudo
Acordei e estava tudo
diferente,
tudo novo.
Então bateu a cruel meia-noite
Então bateu a cruel meia-noite
e foi-se o encanto,
dissolveram-se as tintas no ar
e algo parece ter destruído
tudo o mais além do meu quarto.
terceira alegoria
Tu, ó musa, foste a luz
da alva que incendeia
as árvores em pleno outono.
Tu, ó musa, foste a luz
as árvores em pleno outono.
Tu, ó musa, foste a luz
que se espraia sobre a laguna
e dela faz espelho.
Tu, ó musa, foste a luz
Tu, ó musa, foste a luz
que, discreta, aos poucos se revela
e torna-se meio-dia cáustico.
Tu, ó musa, foste a luz
que, sem avisar, minguou
que, sem avisar, minguou
e fez-se noite interminável.
quarta alegoria
Floresceram as campinas
antes pálidas de frio
- e eras tu o motivo.
Entretanto o inverno voltou.
quinta alegoria
tudo arrumado estava
na estante livros e fotos
na cama travesseiro e lençóis
na cadeira eu
em mim minha alma
em minha alma o mais pacífico vácuo
terremoto
nove pontes
na escada
riste
de plenitude
era o teu olhar
penetrando o meu
era o teu olhar
penetrando o meu
sexta alegoria
Amor à vista!
Abasteci-me e
pensei ter juntado felicidade
pensei ter juntado felicidade
para toda a vida.
Amor à vista
Direto na conta
Direto na conta
Direto da fonte
Mas foi posto o amor em xeque
e perdeste o crédito.
Sobrou-me o débito comigo mesmo.
Tanto trabalhei e
tantos empréstimos pedi
Tanto trabalhei e
tantos empréstimos pedi
só para repor o que levaste
na euforia cega das madrugadas.
Se no início eu ficava vermelho
com o que falavas,
hoje ficou o saldo vermelho
hoje ficou o saldo vermelho
e ficaram os olhos vermelhos - e
dissolveu-se lágrima a lágrima a ilusão.
dissolveu-se lágrima a lágrima a ilusão.
Mas - que ninguém saiba - ainda fico vermelho
com tuas brincadeiras, teus elogios,
silêncios e sorrisos.
com tuas brincadeiras, teus elogios,
silêncios e sorrisos.
sétima alegoria
Vieste
Entraste
Ficaste
Sorriste
Ficaste
Sorriste
Encantaste
Enlouqueceste-me
Foste
ps.: e tu que eras ALEGRIA
foste afastando-te pouco a pouco
ALEG RIA
e deixaste entrar um Ó
- vocativo mudo -
ou só um O solitário
- caído de um ócio
ou de um ontem -
e hoje és
ALEGORIA.
(abririas mão desse O
odioso e voltarias
para voltar a ser
ALEGRIA
ou só
alegria minha?)
Raul Cézar de Albuquerque
16/04/2013
Enlouqueceste-me
Foste
ps.: e tu que eras ALEGRIA
foste afastando-te pouco a pouco
ALEG RIA
e deixaste entrar um Ó
- vocativo mudo -
ou só um O solitário
- caído de um ócio
ou de um ontem -
e hoje és
ALEGORIA.
(abririas mão desse O
odioso e voltarias
para voltar a ser
ALEGRIA
ou só
alegria minha?)
Raul Cézar de Albuquerque
16/04/2013
quarta-feira, 10 de abril de 2013
(at)Raso

Chegaram atrasadas as palavras
minando lágrimas:
palavras atrasadas demais
para serem ditas
para aliviarem almas
para armarem sorrisos
Palavras atrasadas
irremediavelmente atrasadas
Chegaram atrasadas as palavras
brotando da rocha a viva água
que é sinal de morte de algo
que passou de amanhã
para ontem
sem dar o prazer de ser hoje
sem dar o prazer de ser agora
sem dar prazer
Palavras atrasadas
irremediavelmente atrasadas
Chegaram atrasadas as palavras
da boca aos olhos
de necessárias a descartáveis
palavras atrasadas
são lágrimas semeadas
em terrenos inférteis
sementes queimadas
Palavras atrasadas
irremediavelmente atrasadas
Chegaram atrasadas as palavras,
mas
de tanto chegarem atrasadas
revemos o relógio e o calendário
para ver se estavam desregulados
e concluímos:
desregulados
atrasados - ou adiantados -
gauches - esquerdos ainda que destros -
somos nós
Palavras
atrasados
sempre atrasados
irremediavelmente atrasados
lágrimas pontuais
Raul Albuquerque
10/04/2013
Fogo-fátuo

Ninguém diria
que aquela chama eterna do amor
não passava de fogo-fátuo
não passava de fogo fácil
de apagar
nem precisou chover
foi só ventar
Ninguém diria
que aquela chama eterna do amor
não passava de fogo-fátuo
não passava de fogo fácil
de apagar
nem precisou chover
nem precisou nevar
nem cair granizo no Catar
foi só ventar...
Raul Albuquerque
10/04/2013
segunda-feira, 8 de abril de 2013
imperfecto
.jpg)
La luna
La noche
Tus ojos
Todo tan bello,
pero siempre hay algo errado
La luna está muy lejos
La noche finda en el amanecer
Y tu ojos...
ah, tus ojos no son mios
(não, eu não estou apaixonado
acontece que gosto de escrever sobre amor
quando estou sem assunto)
Raul Albuquerque
08/04/2013
Necessário

- Eu necessito!
Não dou ouvidos.
Crianças não sabem o que querem.
Alguns levam essa mania
mesmo depois dos dez anos de idade.
Necessidades
- todas inventadas.
Necessidades
- tão desnecessárias.
- Eu preciso!
- Eu necessito!
Eu rio da sua
fútil
necessidade
inútil
irrisória
necessidade
simplória
Suas tão urgentes
tão inconstantes
tão vitais
necessidades
tão desnecessárias.
Raul Albuquerque
08/04/2013
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Vapor

Saí de casa
correndo
a todo vapor
- não só para ver-te,
mas para ter-te,
para ser teu carrasco
carcereiro
escravo
concubino
brinquedo de ninar.
Subi as escadas
a todo vapor.
Toquei a campainha
e em mim
já apitavam chaminés
e trabalham máquinas.
Quando abriste a porta,
o calor do sétimo círculo do inferno de Dante
me tomou
e começou a me consumir.
Entramos
e já nos unimos:
tua coxa direita em uma de minhas mãos
teu pescoço na outra mão
tua boca na minha - e esqueço o mundo.
(sem tempo para um inútil boa-tarde,
nós fizemos a tarde ser ótima).
Rápidos pensamentos:
se sobre a mesa,
será que ela aguenta?
se no tapete da sala,
e se chegar alguém?
se contra a parede,
será desconfortável?
E me surpreendes
ao me levar suspiro a suspiro
até teu quarto
- e pediste silêncio,
teu irmão mais novo dormia no quarto ao lado.
Era teu quarto
nossa casa de máquinas
era hora de confeccionar amor
a todo vapor
confeccionar amor
em escala industrial
confeccionar amor
a quatros mãos
confeccionar amor
a peitos cheios
confeccionar amor
a ferro e fogo
confeccionar amor
para o ano todo
confeccionar amor
de modo artesanal
confeccionar amor
a todo vapor
o meu vapor
que se funde
- e se confunde -
com o teu vapor.
e em tanto vapor
e em tanto amor
nenhum pudor
inflamados vocativos
provocativos
e em tanto ôr
e em tanto ôr
e em tanto oh
e em tanto oh
apitam todas as chaminés
fumaça brança
habemus amore
fumaça branca
apitam todas as chaminés
e somos, pois, silêncio
férias coletivas
jantar em família
como se amor ainda não houvesse.
Raul Cézar de Albuquerque
03/04/2013
terça-feira, 2 de abril de 2013
Tempo Agora

Tempo
passa por mim em profundo silêncio
e com a leveza
que os lírios só emprestam
às serpentes que preparam o bote.
Atacado
- e recuperado do ataque -
vejo que está tudo perdido
e quebrado
abandonado num ponto
irrelevante do caminho.
Lamentar
já não vale a pena
já não vale o lamento
já não vale a possível lágrima.
Agora
é juntar o que sobrou
e tentar construir algo com aquilo
ou só tentar sobreviver mesmo.
Tempo
passou por mim em profundo silêncio
e trouxe consigo
tempestade de areia que enevoa os ares
por minutos-séculos de vida
- e quando a poeira baixa
calculamos as baixas e as ruínas.
Tempo
passeou comigo por corredores
e por cômodos
deixando cheiros característicos
e incômodos.
Agora
não há como estar em casa
e não sentir os cheiros do passado:
o cheiro distante da inocência
o cheiro recente da decepção
o cheiro ansioso do amor vindouro
o cheiro forte das mágoas
o cheiro leve das felicidades anônimas
o cheiro bom
- ainda que putrefacto e violento -
do possível belo amor que não deu certo.
Tempo
Agora
Agora
é necessário extinguir
todos esses cheiros
que se impregnaram nas roupas
nos móveis
e nos imóveis
- deixá-los prontos para
novas marcas
novos arranhões
novos pés quebrados
novos riscos na parede
novas lembranças
que passam como um filme
- ou como um conto russo
ou como uma tragédia shakespeareana
ou como um diário adolescente
ou como uma história esquecida.
Raul Cézar de Albuquerque
02/04/2013
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Ode à Verdade

eu quero a verdade
não a verdade vendida
mas a verdade vedada
há quem sofra até hoje
por ter crido numa mentira
desejada
mas faz parte do sono da existência
sonhar que de limoeiros
brotarão maçãs...
mas só faz parte do sono
quando acordar - e sempre acordamos -
só brotarão limões.
verdade seja dita:
a verdade não está desaparecida
nem desfalecida numa ruela
a verdade está escondida
de quem ama uma mentira bonita
de vez em quando.
Raul Albuquerque
01/04/2013
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