Bem-Vindo ao Estação 018!


Seja bem-vindo ao "Estação 018"! Um blog pouco reticente, mesmo cheio destas reticências que compõem a existência. Que tenta ser poético, literário e revolucionário, mas acaba se rendendo à calmaria de alguns bons versos. Bem-vindo a uma faceta artística do caos... Embarque sem medo e com ânsia: "Estação 018, onde se fala da vida..."

terça-feira, 1 de julho de 2014

tua dança


todo o teu andar é dança:
mãos dadas ao crepúsculo;
um bunker de esperança;
guerra e paz num opúsculo.

estivemos de costas para o mar,
porque o sol tem descido 
sobre os prédios da cidade
e o rio é da nossa idade
com seu rosto envelhecido
de tanto querer (a)mar.

Raul Albuquerque

domingo, 15 de junho de 2014

como se uma visita fosse...

como se uma visita fosse,
eu te lembrava vindo
em névoa e sol
e meu quarto se enchia
de tua noite fria e tua luz.

como se uma visita fosse,
eu me vestia de dias mal passados
para te receber em esplendor
assim que ouvia sinos.

como se uma visita fosse,
eu aprendia frases em francês
e massas italianas
e preparava a mesa ao te sentir vindo.

como se uma visita fosse,
meus olhos valsavam 
entre a porta e o relógio
como se teu vir também fosse dança
- rumba, bolero, poema.

como se uma visita fosse,
tua imagem me aparecia
e a liturgia das velas começava
ao som de Bach.

Raul Albuquerque
14-15/junho/2014


sábado, 7 de junho de 2014

sobre olhos

aprendi
- não a tempo -
que os dias se morrem 
nos olhos delas

afoguei-me em olhos verde-mar
e não lembro como ressuscitei

tive alucinações febris em olhos furta-cor
pensei ser a extrema-unção,
mas não conheci céu

amei ainda dois olhos negros
que o sol tornava espelhos
e a lua tornava sóis
ora, aqueles olhos continham neles
uma parcela significativa 
do que eu não conhecia do universo

mas
aprendi
- não a tempo -
que os dias se morrem 
nos olhos delas

será que ressuscitam?

Raul Cézar de Albuquerque

sexta-feira, 30 de maio de 2014

comportar

teu olhar despejou em mim 
pó de esperanças infundadas
enquanto eu dormia

tu sopraste ventos
que eu desconhecia
e o pó recebeu vida

senti a perda de duas costelas
e me levantei sem ti

a dor de receber um esperança
e vê-la cair em semente na terra

lembro que dormi em teu colo
e acordei lembrando de ter morrido

sendo a vida já outra coisa que não a vida contigo
não sei se vida é

(nada disse: as palavras nunca nos comportaram)

Raul Albuquerque

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Métrica quase bolero

Tu, moça, cabes em um só bolero.
Tu cabes na mesma melancolia 
e na mesma cadência que eu quero
p'ra que a vida não passe à revelia.

Raul Albuquerque

sábado, 24 de maio de 2014

Alexandrino II

Aprendi meus amores de longe e de carta;
remeti sem saber o seu destinatário;
selado em silêncio mórbido e vário
que desvaria diante da secura farta.

Raul Albuquerque

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Alexandrinos brancos


sonhara toda noite com as cores brancas
até girassóis brancos vira vaguear
pelos amores brancos de tanto luar
a iluminar as belezas que o escuro arranca

Raul Albuquerque

sábado, 17 de maio de 2014

Soneto-resposta para agrado de neoparnasianos

Aprendi cedo a poesia com Moraes
e vi que nos sonetos cabem vidas,
há espaços para alegrias sofridas
e para os cotidianos mais imorais.

Não há necessidade de rimar,
mas há de ser o texto a boa forma
forjada em porões d'alma sem norma
que saiba diferenciar poça e mar.

A poça vem de qualquer chuva
e com qualquer sol evapora já,
mas o mar, além da forma-luva,

sabe que traz em si eco de rios
e, para além de um medo sombrio,
sabe que é o ser-rio que o faz ser mar.

Raul Albuquerque
17/05/2014

quinta-feira, 8 de maio de 2014

[onde couber bem]

desaprendi a minha casa

onde coubera tudo já nada cabe

destendi dores pré-históricas
e atravessei noites homéricas
em busca da terra em que 
os sonhos se desmancham
em ondas de realidade 
num mar longo e pacífico

mas nada encontrei
só o oceano insatisfeito
e terremotos no oriente

voltei para casa e já nada cabia
perderam-se as medidas
e os móveis apertaram-se
com as portas ficando menores
e eu mal pude entrar
só pus a cabeça na entrada
e vi que já nada me cabia

hoje trago malas 
e uma vontade eterna
de construir um lar
em que caibam
as lembranças [o futuro [o meu nome [e amor por capricho]]]

Raul Cézar de Albuquerque
08/05/2014

sexta-feira, 25 de abril de 2014

hoje

o sol que eu vi descer a rua me assustou
e eu morri de medo
a luz de seus dedos me ressuscitou
uma dor antiga

e tu entraste disfarçada de cantiga
aplaudida pelos meus cílios
e cheia de rosas encravadas
como uma joia

eu soube dos astros tocando teu cabelo
e das cascatas americanas olhando teu sorriso
já perdi as contas de imaginar-te 

pensei em dizer os dias
mas o sol já desceu a rua
e a noite fica nua
sem você, a morte continua

Raul Albuquerque
25/04/2014